BENOIT TESSIER/REUTERS
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Para o presidente do Festival de Cannes, é hora de ter os pés no chão

Em seu primeiro ano na direção do festival, ele afirma que não é tempo de se ter glamour

Luiz Carlos Merten/CANNES, O Estado de S. Paulo

23 Maio 2015 | 20h00

Pierre Lescure ama o cinema e o futebol, mas sua atividade primeira, como gosta de dizer, é a imprensa. “Sou jornalista e, como tal, vim pela primeira vez ao Festival de Cannes em 1977.” Foi um ano mítico. Roberto Rossellini presidia o júri e só aceitou a função condicionada à realização de um grande colóquio para discutir cinema e televisão. A Palma de Ouro daquele ano foi para Pai Patrão, dos irmãos Taviani, coproduzido pela Rai. Sob os auspícios do patriarca do neorrealismo, começava uma nova era do audiovisual.

“E agora eis-me aqui”, diz Lescure, apontando para o cartaz com a efígie de Ingrid Bergman. No fim dos anos 1940, e foi motivo de escândalo em Hollywood, Ingrid largou tudo – marido, inclusive – para viver sua história de amor com o autor de Roma, Cidade Aberta. É como fechar um ciclo. A primeira experiência ‘cannoise’ de Pierre Lescure foi com Rossellini. Em seu primeiro ano como presidente do Festival de Cannes, ele buscou a bênção da lendária Ingrid – a imagem é dos arquivos da família, que Isabella Rossellini abriu para ele. De repórter, Lescure chegou a diretor de rádio (na Riviera) e ao Canal +, o grande parceiro do cinema francês. Foi o ex-presidente do festival, Gilles Jacob, quem lhe propôs a parceria, exortando-o a investir em filmes e a fazer emissões diárias da Croisette. Foi Jacob, de novo, quem lhe propôs a sucessão.

Isso é uma coisa. Outra é o esporte. Canal + não é parceiro só do cinema, também é do futebol. Lescure também já presidiu o Paris Saint-Germain. Uma de suas grandes emoções, ele jura que foi quando acolheu Raí no time. Na coletiva de imprensa, perguntaram ao jogador quanto tempo gostaria de ficar no PSG. “Muito tempo para que minha filha possa desfrutar tudo o que a França pode oferecer em termos de cultura.” Lescure emociona-se. “O foot é isso. Além de grandes jogadores, conheci e convivi com homens com Raí, de grande sensibilidade e inteligência. Engana-se quem diz que jogadores só pensam com os pés.” A presidência do festival é exercida por um período de três anos – renováveis. “Espero ficar bastante”, Lescure admite.

Como presidente, ele não se ocupa de funções administrativas e tem de se reportar a um colegiado de 21 integrantes. Esse colegiado inclui representantes do Estado, do governo regional e do municipal, e da iniciativa privada. Lescure também não assina a seleção das diferentes seções, incluindo a oficial. A seleção dos filmes para a competição e a mostra Un Certain Regard é assinada por Thierry Frémaux, que já exercia a função de diretor artístico para Gilles Jacob. “Thierry tem o final cut. A seleção é dele, mas conversamos bastante e chegamos a uma definição do que deveria ser essa primeira seleção.” A do ano passado, a última de Gilles Jacob, foi particularmente criticada. Demasiados autores já vistos (“Nossos habitués”, ele reconhece) e uma abertura equivocada, com uma aposta radical no glamour.

O filme, Grace – A Princesa de Mônaco, malgrado Nicole Kidman e o diretor Olivier Dahan, de Piaf – Um Hino ao Amor, não aconteceu e sequer teve lançamento nos cinemas. “Aquilo foi o que eu chamo de glamour fora de tempo e de espaço. Conversamos bastante, Thierry e eu, sobre fazer uma seleção com os pés na terra, que encarasse a crise da Europa e do mundo.” E Cannes começou este ano ‘social’, com La Tête Haute, de Emmanuelle Bercot, com Catherine Deneuve como juíza que tenta resgatar garoto da criminalidade. Muitos outros filmes da seleção e das demais mantêm esse perfil, mas as críticas continuaram – cinco filmes franceses na seleção oficial, três italianos na competição. Não é demais? “Desde novembro, Thierry e sua equipe viram 1.800 filmes. Ele passou a me alertar de que os franceses viriam com força. Quanto aos italianos, eu os amo. Thierry seleciona, eu aplaudo.”

Mesmo assim, têm havido tensões entre os curadores das diferentes seções. Edouard Waintrop, que escolhe os filmes da Quinzena dos Realizadores, disse que sua seleção tinha o melhor filme de Cannes em 2015 – L’Ombre des Femmes, de Arnaud Desplechin. Lescure não gostou nem um pouco. “É absurdo criar uma disputa dessas internamente e desautorizar a competição. Vamos ter de avaliar esse tipo de atitude.”

O festival encerra-se hoje com a atribuição da Palma de Ouro e Lescure ainda não tem distanciamento para avaliar a 68.ª edição como um todo. Nem sua presidência – “Gilles (Jacob) ficou décadas à frente do festival. Foi o primeiro a me dizer para não ser ansioso. A presidência se faz como um processo, e eu estou começando minha caminhada.” Ele prefere falar de suas paixões cannoises. Alguma Palma de Ouro preferida? “Minha melhor lembrança de Cannes não é de nenhum filme vencedor da Palma, mas quando vi Manhattan, de Woody Allen, me senti tão feliz que tive a impressão de que o cinema, como o foot, encheria minha vida para sempre.” Algum outro filme? Cinzas do Paraíso, de Terrence Malick. “Como dirigente do Canal + tive a chance de me encontrar com ele para discutir o apoio a seus projetos. E ele me disse uma coisa louca. ‘Não retire o PSG do Parc des Princes. Ficaria muito triste de ver o time com o Stade de France como casa.’ Ah, foi assim que descobri que Terry é boleiro como eu. São famílias, a do cinema, a do futebol. E, por vezes, elas coincidem.” 

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