Para matar saudade do cult 'Os Embalos de Sábado à Noite'

Filme transformou o jovem John Travolta em astro, sendo imitado por toda uma geração

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

20 Junho 2014 | 20h09

Tudo começou com um artigo de Nick Cohn no jornal The New York Times. Em 1976, ele flagrou o que já era um movimento – jovens de bairros mais populares de Nova York que frequentavam as baladas de áreas mais exclusivas. Com base no texto, o roteirista Norman Wexler escreveu, a pedido do produtor Robert Stigwood, um script que virou filme dirigido por John Badham. Nada indicava que Saturday Night Fever, a febre de sábado à noite, fosse contagiar o mundo todo, mas foi o que ocorreu.

No Brasil, o filme foi lançado como Embalos de Sábado à Noite. Com trilha dos Bee-Gees, instaurou a era das discotecas e, no bojo, trouxe uma novela muito famosa da Globo, Dancing Days, com a jovem Sonia Braga, em 1978/79. De quebra, transformou em astro John Travolta, que havia aparecido em filmes de Brian De Palma – Carrie, a Estranha e Um Tiro na Noite. Na sequência, ele fez Grease – Nos Tempos da Brilhantina, outro musical, dirigido por Randal Kleiser, no qual dividia a cena com Olivia Newton-John.

A boa nova para fãs de Travolta (e musicais) – Os Embalos de Sábado à Noite está de volta na série de obras cultuadas que ganham vida nova em versões restauradas (e sessões digitais). Na sequência, virá também Grease. Como Tony Manero, Travolta estourou no imaginário de toda uma geração. O personagem vive no Brooklyn e trabalha numa loja de tintas. Dança bem e passa a semana inteira sonhando em ir à discoteca, no sábado à noite. Quando ocorre um concurso, Tony prepara uma coreografia, mas o que deveria ser um momento de glória para ele vira crise amorosa com a namorada. E o sentimento de vazio se instala quando ele percebe que os segundos colocados, embora melhores, não venceram por serem latinos.

John Badham era um diretor muito interessante no começo de sua carreira. Depois desse filme, em que o herói é confrontado com uma experiência que se revela vazia para ele, dirigiu De Quem É a Vida, Afinal?, com Richard Dreyfuss, sobre o direito à eutanásia, e três filmes que lidavam com os problemas decorrentes do desenvolvimento tecnológico, O Trovão Azul, Jogos de Guerra e Short Circuit – Um Robô em Curto Circuito. O próprio Travolta iniciou uma carreira ziguezagueante e, como ele diz, ninguém foi considerado tantas vezes acabado, para depois ressurgir.

A própria sequência de Embalos, dirigida por Sylvester Stallone, foi um desastre – Os Embalos de Sábado Continuam (Staying Alive), de 1983. Suas ‘ressurreições’ passam por filmes como Pulp Fiction/Tempo de Violência, de 1994, de Quentin Tarantino, que já integrou a série de obras restauradas que agora exibe Embalos, e A Última Ameaça e A Outra Face, de John Woo, de 1996/97. Os números na pista de dança são bem encenados e se tornaram clássicos – Stayin’ Alive, How Deep Is Your Love, Night Fever, More Than a Woman e You Should Be Dancing, todos dos Bee-Gees. Travolta, com aquela calça branca e o colete, virou modelito que produziu inúmeras imitações. E 30 anos mais tarde, o diretor chileno Pablo Larraín, o mesmo de No, usou a ‘febre’ para falar sobre a alienação da juventude que imitava Travolta durante a brutal ditadura de Pinochet. Seu filme chama-se Tony Manero. Do Brooklyn para Santiago, a febre nunca teve fronteiras.

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