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Cultura

Oscar

Oscar 2016: cerimônia marcada pelo desagravo à comunidade negra

Chris Rock fez discurso no início da premiação

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Luiz Zanin Oricchio,
O Estado de S.Paulo

29 Fevereiro 2016 | 20h32

Lembrado o Oscar de 2016? Como aquele que elegeu como melhor filme um drama jornalístico apenas correto, como Spotlight? Aquele que, por fim, deu um Oscar a Leonardo DiCaprio por sua intensa atuação em O Regresso? Aquele que consagrou um diretor mexicano pela terceira vez consecutiva - Alfonso Cuarón e Alejandro Iñárritu, em dobradinha? Aquele que repôs as coisas em seu lugar e deu ao supervalorizado Mad Max apenas a primazia nos prêmios técnicos?

Talvez por tudo isso. Mas é mais certo que 2016 seja marcado como o ano de desagravo à comunidade negra de Hollywood. Quem viu a cerimônia, do red carpet ao encerramento, pôde notar a presença dos afro-americanos em toda parte. Apresentando, entrevistando, brilhando. Bastaria isso para dar o recado. E, talvez, ele assim fosse mais eficiente. Como Hollywood não é dado a sutilezas, precisou-se falar - e muito - sobre aquilo que havia causado tremendo mal-estar: a ausência, pelo segundo ano consecutivo, de atores e atrizes black entre os indicados. 

Usou-se muito o humor e, como se sabe, nessas cerimônias, o humor é a chave que pode abrir as portas da verdade sem mexer demasiado em suscetibilidades. Desse modo, toda a pantomima comandada por Chris Rock teve o ar não apenas de mea-culpa, mas de atitude afirmativa da Academia: “Certo, erramos; mas vejam só a festa que organizamos, vejam como podemos expor nossas mazelas em público e assim combatê-las”. Como tudo isso se dá no plano simbólico da festa e do espetáculo, não existem garantias de que medidas de inclusão serão de fato tomadas. A ver o que acontece nos próximos anos. 

Entre os premiados, a conversa é outra. Spotlight é um filme honesto e necessário. Duvido que seja lembrado daqui a alguns anos. O Regresso é muito mais cinema, e, embora seja impressionante, talvez nem tenha fôlego muito longo, isso na perspectiva do tempo, que depura os brilharecos do presente e separa o essencial do acessório. Quais desses filmes ficarão na memória do espectador depois de alguns anos? 

Uma aposta possível seria em O Filho de Saul, de László Nemes, eleito melhor estrangeiro, e O Abraço da Serpente, do colombiano Ciro Guerra. Se fosse necessário extrair deste Oscar um só momento de emoção, seria o da premiação do grande Ennio Morricone, aos 87 anos, pela trilha de Os Oito Odiados. Ali, tínhamos um mestre sendo reconhecido e, ao receber o prêmio, exprimindo-se em seu idioma, o italiano, como lhe cabia e era devido. 

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