Os irmãos Dardenne podem ser vistos em dose dupla na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Dupla dirige 'A Garota Desconhecida' e produze 'Hedi'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2016 | 20h13

Vencedor de dois prêmios importantes no Festival de Berlim, em fevereiro – melhor filme de diretor estreante (Mohammed Ben Attia) e melhor ator, para Majid Mastoura – Hedi é 100% fiel ao espírito da Mostra, que abre janelas para a diversidade, revelando cinematografias que normalmente não são frequentes nas telas comerciais do País. Mesmo o cinéfilo de carteirinha há de concordar que filmes da Tunísia, exceto em programações muito especiais, raramente chegam ao Brasil. Muitas vezes, quando isso ocorre, o foco está na condição da mulher, em culturas muito tradicionais, que a colocam à sombra, ou na dependência dos homens, sejam pais, maridos ou irmãos mais velhos.

Um pouco da originalidade de Hedi está no protagonista homem. É ele quem vive segundo expectativas que a família, e especialmente a mãe, colocaram sobre seus ombros. A mãe é uma tirana em Hedi. Reina no seu espaço doméstico. Manipula o filho. Ele se deixa levar, permitindo que outros escolham por ele. Quando o filme começa, Hedi – é seu nome – está para se casar. A cerimônia e a festa não apenas estão marcadas, como vão ocorrer em seguida. E é nesse momento que o filho conhece uma mulher de temperamento libertário, que vai tumultuar sua vida programada e descortinar possibilidades. Não apenas sexo, prazer. A vida além fronteiras, num mundo menos vinculado àqueles valores sociais, religiosos. E ele vai ter de escolher.

O curioso é que, para o espectador brasileiro, e da Mostra, o filme não apenas revelará um novo talento da Tunísia, como também vai marcar um reencontro com velhos conhecidos, os irmão belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne. Eles dirigem A Garota Desconhecida, que também terá sessão nesta sexta, 21, mas os Dardenne coproduzem Hedi. Em Cannes, três meses depois da Berlinale, Jean-Pierre e Luc encontraram-se com o repórter, após a apresentação de La Fille Inconnue. Os Dardenne ganharam duas Palmas de Ouro, diversos outros prêmios no mais importante festival do mundo – roteiro, especial do júri etc. Mas algo não funcionou com A Garota Desconhecida. A recepção dessa vez foi fria, quase apática.

Eles explicaram porque produzem. Muita gente os procura, propondo parcerias. Eles escolhem os filmes que gostariam de ver, sem o compromisso de ter de realizá-los. Agora mesmo arriscam-se com um filme sobre terrorismo na Bélgica, feito por um diretor de ascendência norte-africana como Mohamed Ben Attia. O tratamento humano foi que os atraiu em Hedi, mas o componente político é forte e o filme foi premiado – pelo júri presidido pela atriz Meryl Streep – no evento de cinema com a fama de ser o mais engajado do mundo. Este ano, Berlim premiou o documentário Fogo no Mar, de Gianfranco Rosi, que até já estreou no Brasil, depois de passar no Festival É Tudo Verdade. Um filme como Hedi propõe um olhar novo, tem sangue novo. O ator é maravilhoso.

E os Dardenne? Sempre haverá quem defenda A Garota Desconhecida, porque o filme, embora decepcionante, não chega a ser ruim. A atriz que faz a protagonista, Adèle Haenel, é muito boa. Adèle coloca muita energia nessa personagem de médica generalista, que tem uma extensa clientela, até de imigrantes, em seu consultório. Mas nesse dia, a dra. Jenny, encerrado seu expediente, recusa-se a abrir a porta, quando a campainha soa. E, no dia seguinte, ela descobre que uma garota foi encontrada morta nas proximidades do escritório. Ninguém a acusa de nada, mas Jenny sente-se culpada. Se a garota permanecer desconhecida – se não for identificada – será enterrada numa vala comum. E, para Jenny, torna-se (quase) uma obsessão identificá-la, garantir-lhe um enterro digno.

Investigando, ela se torna vulnerável. Descobre coisas (sobre seus pacientes), recebe ameaças. Com Adèle (Haenel), voltam atores conhecidos dos Dardenne – Olivier Gourmet, Jérémie Renier. O problema com os diretores é que eles não estão sabendo se renovar. Talvez arrisquem hoje como produtores, mas como ‘autores’ batem no mesmo universo, repetem a mesma gramática. Começam a cansar e, por isso, Hedi é tão melhor.

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