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Cultura

Bíblia

'Os Dez Mandamentos' estreia com bilheteria de 3 milhões

Propaganda do filme nos cultos da Igreja Universal é vista como algo natural pelo elenco

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Cristina Padiglione,
O Estado de S.Paulo

27 Janeiro 2016 | 20h55

Estreia nesta quinta-feira, 28, em mais de mil salas de cinema em todo o País, com a expressiva pré-venda de 3 milhões de ingressos, a versão da novela Os Dez Mandamentos, da Record, em formato de longa-metragem. Por trás de todo esse sucesso, há o histórico de um folhetim que roubou audiência da Globo na faixa nobre e agora promete cenas inéditas em longa-metragem. Mas há também uma grande campanha orquestrada junto aos fiéis da Igreja Universal durante os cultos.

“Qual é o problema?”, questiona Sérgio Marone, o Ramsés, antagonista do enredo de Vivian de Oliveira baseado na Bíblia. “A Globo também faz propaganda dos produtos dela em outras plataformas do grupo”, completa. Um diretor do alto escalão da Record, que pediu anonimato ao conversar com o Estado sobre o assunto, lamenta o preconceito embutido na acusação de que o filme só é um fenômeno em função dos fiéis da Universal. Reconhece, no entanto, o alto potencial do produto para atrair uma plateia de evangélicos de todas as vertentes e arrastar para os cinemas um público novo.

A pergunta é: o filme é bom? Para o que ele se propõe – aguçar a fé e endossar o clamor a um deus único, sob ameaça de castigos, sim. Não por acaso, é um script que comunga perfeitamente com as pregações do chefe maior do grupo, Edir Macedo, em sua igreja, o que faz de Os Dez Mandamentos um culto em forma de entretenimento.

No quesito didatismo, não se pode tratar como pecado o uso de uma linguagem direta, sem brechas para reflexões subliminares, visto que o mesmo mal acomete a maioria das comédias românticas da Globo Filmes. A edição se esmera no objetivo de se fazer entender de imediato, sem que o espectador se dê ao trabalho de refletir. Está tudo ali, mastigado, pronto para o consumo e embalado em belíssimas imagens. Os efeitos especiais não fazem feio na tela grande – ao contrário. Das pragas rogadas por Deus por meio de Moisés (Guilherme Winter), vale destacar os traços iluminados, dignos de Lord Voldemort, que percorrem as residências dos descrentes em busca dos primogênitos. A abertura do Mar Vermelho, que rendeu à Record audiência histórica, ganhou acabamento ainda mais primoroso na telona. As imagens foram submetidas a um processo de remasterização. A edição conta com uma narração, inédita, de Sidney Sampaio, o Josué, protagonista da próxima produção da Record, a fim de explicar o que foi suprimido por tantos cortes.

A despeito de as tais cenas inéditas se resumirem a um sermão de Moisés, quando quebra o bezerro de ouro adorado pelos hebreus, o filme faz jus à grandiosidade do personagem e vale a sessão – nem que seja para fazer o espectador duvidar de tudo aquilo.

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