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Cinema

Christine Plenus

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São Paulo

Os Dardennes assinam com 'A Garota Desconhecida' seu filme talvez mais polêmico

Filme estreia no Brasil nesta quinta-feira, 23

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Luiz Carlos Merten ,
O Estado de S.Paulo

23 Fevereiro 2017 | 04h00

Duas Palmas de Ouro, diversos outros prêmios (especial do júri, interpretação etc). Os irmãos Dardennes sempre foram reis em Cannes. E, então, no ano passado, algo houve. Nada para A Garota Desconhecida, que estreia nesta quinta-feira, 23, em São Paulo. Houve até um pouco de vaia na sessão do filme para a imprensa. Desta vez, a fábula moral não produziu o mesmo efeito de outras feitas por Jean-Pierre e Luc. O mundo com certeza ficou mais cínico, mas os Dardenne também andam repetindo suas fábulas. Foi-se o impacto de Rosetta e O Filho.

Quando conversaram com o repórter - em um reduzido grupo de jornalistas -, os Dardenne já haviam assimilado as críticas. Os franceses foram duros com eles - acharam-nos ‘perdidos’. É difícil individualizar o que diz outro e outro, porque Jean-Pierre e Luc praticamente falam juntos, complementando suas frases. Acharam graça dessa supostas falta de rumo. “Do nosso ponto de vista, é nosso filme mais radical em muito tempo, mas somos suspeitos, claro.” Há muito tempo que a ideia de La Fille Unconnue os perseguia. No início, era um filme sobre um médico. Virou médica, Jenny, interpretada por Adèle Haenel.

“Desde Rosetta, as mulheres são sempre muito fortes no nosso cinema, mas nesse caso queríamos que ela fosse realmente especial.” O filme é sobre essa médica que, numa noite, se recusa a abrir a porta do consultório após o encerramento do seu turno. No dia seguinte, uma garota de origem muçulmana aparece morta nas proximidades. É uma imigrante, uma trabalhadora do sexo, com passaporte falso. Um pouco (muito?) por culpa, Jenny vai conduzir uma investigação paralela à da polícia para tentar descobrir quem é a garota desconhecida. Um dos policiais que leva a enquete oficial é ‘muslim’, marroquino. Vive tentando enquadrar a médica - de maneira geral, todos os homens a ameaçam. “Vivemos num mundo predominantemente masculino. Existe, e não se pode dizer que sem motivos, essa desconfiança muito forte com o mundo muçulmano, visto como ameaça. Nesse mundo, em especial, estamos convencidos de que a mulher representa o futuro.”

A mudança de gênero - a transformação do médico em médica - deveu-se ao que, para eles,. é fato. “Cremos que você vai concordar - as mulheres, e isso pode estar ligado a um sentimento atávico de maternidade, são muito mais responsáveis. Tínhamos dificuldade de fazer o roteiro avançar. Um homem dificilmente se sentiria tão culpado. Com Jenny, as coisas avançaram muito mais rapidamente. Só nos faltava a atriz. O curioso é que encontramos Adèle (Haenel) num evento social. Não tínhamos ainda nenhuma certeza quanto à personagens, mas só o jeito como ela se movia nos abriu possibilidades. É um papel muito físico, com movimentos precisos.”

Os Dardennes refletem. “Viuvemos num mundo de individualismo exacerbado. As pessoas são cada vez mais estimuladas a se isolar, a viverem segundo uma agenda pessoal, sem o sentimento do coletivo. É o cada um por si e o mundo contra todos. Nesse quadro, Jenny vai ser a exceção. E é justamente sua tenacidade que vai fazer com que as pessoas se abram. Talvez seja um pouco utópico, mas é uma ficção. Distópica já basta a realidade em que vivemos. Acompanhamos à distância o que ocorreu em seu país (em maio passado, o impeachment da presidente Dilma Rousseff se consumara na Câmara). Na Bélgica, o envolvimento de muçulmanos com o terror colocou toda a comunidade sob suspeita. Nesse sentido, somos um pouco como Ken Loach, que ainda acredita no cinema como resistência.”

Resistência - não doutrinação. “Como diretores, sabemos que o filme, a partir de certo ponto, pertence ao espectador. Para nós, era importante fazer da Dra. Jenny essa mulher compassiva e responsável, como todo médico deveria ser, e não apenas médicos. Mas a ideia nunca foi apresentá-la como um exemplo. ‘Olhem, façam como ela.’ Seria empobrecedor, para o filme e a personagem.” Esse engajamento com o outro tem a ver com uma questão básica. “Fisicamente, somos dois, você está vendo. Mas, na verdade, somos um. Um só coração, uma só mente. Nosso cinema reflete um pensamento, uma sensibilidade. Pode parecer piegas, mas fazemos cinema para abraçar o mundo.” Cada vez mais, os Dardennes também produzem - filmes dos outros. A Família Bélier, por exemplo. Não é um filme com a cara deles. “Claro, se fosse para ter nossa cara, seria um filme nosso. Produzimos também filmes que queremos ver, diferentes dos nossos.”

 

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