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'Oceanos': ópera selvagem no fundo do mar

Mais do que um documentário, escreveu um crítico francês, Oceanos é um balé aquático

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

17 Dezembro 2010 | 06h00

É bom recuar mais de 50 anos no tempo, mais exatamente, 54. Em 1956, Cannes recém-instituíra a Palma de Ouro - antes era o Grand Prix - e a atribuía pela segunda vez. O filme vencedor foi um documentário, O Mundo do Silêncio, de Jacques Yves Cousteau e Louis Malle, e o curioso é que outro documentário, Le Mystère Picasso, de Henri-Georges Clouzot, foi o vencedor do prêmio especial do júri. Cousteau e Malle investigavam o fundo do mar, que retratavam como um mundo do silêncio.

O ator, produtor e diretor Jacques Perrin conta que foi marinheiro em seus verdes anos. Apaixonou-se pelo mar e sempre sonhou fazer um filme sobre o assunto. Perrin demorou muito tempo para concretizá-lo - em parceria com Jacques Cluzaud -, mas valeu a espera.

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Os oceanos guardam segredos e mistérios que a câmera de ambos agora revela. E o som! Há um elaborado trabalho de som em Oceanos, não apenas a trilha musical, de Bruno Coulais, mas também de ruídos que são próprios do fundo do mar.

Perrin admite que o som de seu filme - ele é produtor, além de codiretor - foi pensado e executado como reação ao mundo do silêncio de Cousteau e Malle. Com as câmeras, os cinegrafista levavam sempre dispositivos sonoros (hidrofones) e, nos casos mais difíceis, quando isso era impossível, como no Polo Sul, a produção se valeu de testemunhos sonoros registrados em experimentos científicos.

No anterior Migração Alada, Perrin e Cluzaud se beneficiavam de uma trama narrativa até um tanto óbvia, pois a migração já é, em si, uma história. Aqui, pelo contrário, eles investigam um meio ambiente, o abismo líquido. Não relatam uma jornada nem uma trajetória. Tentam responder a uma interrogação, e conseguem - o que é o oceano? A vida surgiu no mar, pode acabar nele? Pois um dos temas embutidos em Oceanos é justamente o da poluição provocada pelos homens. Só que Perrin e Cluzaud, não abrindo mão da crítica, não quiseram ser apocalípticos nem pessimistas. Oceanos é um hino à vida. Também à ciência, que está cumprindo seu papel, na preservação e divulgação da fauna e flora marinhas.

Em Migração Alada, o desafio era voar com os pássaros (entre eles, como eles). Em Oceanos, Perrin, Cluzaud e seus cinegrafistas assumem o desafio técnico de levar suas câmeras aonde elas nunca foram - a uma dança com o tubarão branco, ou então ao centro de uma batalha de caranguejos. O efeito é de vertigem quando, logo no começo, a câmera mergulha entre as ondas, arrastando o espectador numa viagem rara. A técnica vira estética, e ética. Mais do que um documentário, escreveu um crítico francês, Oceanos é um balé aquático - ou uma ópera selvagem.

Nascido como ficção, o projeto tomou outro rumo, mas, no limite, o documentário permanece nas bordas de uma portentosa ficção. O mais impressionante nesse mundo de silêncio é sua sonoridade particular. Perrin, que trabalhou com - e produziu - grandes autores (Valerio Zurlini, Costa-Gavras, Jacques Démy) não cessa de surpreender.

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