Obras no Festival do Rio discutem ambivalência do ser humano

O Festival do Rio chega ao fim com exibição de filmes de Ang Lee e Milos Forman

Luiz Carlos Merten, do Estadão,

07 Outubro 2004 | 18h26

Em Veneza, ao apresentar Se Jie (Lust, Caution), seu filme que, afinal, terminou levando o Leão de Ouro Ang Lee disse que, apesar das tórridas cenas de sexo, não é exatamente sobre isso que ele está falando, mas sobre a ambivalência radical do ser humano. Ang Lee falava do filme dele claro, mas poderia estar falando, também, de Os Fantasmas de Goya, o novo Milos Forman, que rompe um silêncio de muitos anos do grande diretor checo que se fez americano (e aqui volta à Europa). Ambos passaram segunda-feira no Festival do Rio 2007.   Assistir a um filme como Lust, Caution à meia-noite, no Cine Odeon BR, é desgastante para o espectador e para o próprio filme São 157 minutos de emoção. O próprio Ang Lee disse, certa vez, que sua adaptação de Jane Austen era emblemática para ele. O título daquele filme, Razão e Sensibilidade, poderia muito bem expressar o tema que Lee gosta de abordar em seus filmes. Em Lust, Caution, o diretor, curiosamente, adaptou a escritora que é considerada a Jane Austen da China, Eileen Chang.  O filme narra uma história que se passa nos anos 40, durante a ocupação do país pelos japoneses. Existe este poderoso colaboracionista que a resistência quer eliminar, mas ele é intocável. Para chegar até ele, o movimento vale-se de uma mulher, uma atriz. Só o fato de ser uma atriz já diz alguma coisa. O ator é, por excelência, um fingidor. Cria-se uma relação complexa, pois o desejo de alguma forma direciona a garota para outros rumos diferentes do seu projeto inicial.   Lust, Caution tem uma cena de assassinato tão forte que sugere que Ang Lee tenha tomado como modelo a morte do agente comunista Gromek, em Cortina Rasgada, de Alfred Hitchcock. E existem as cenas de sexo, no limite do explícito. O filme é forte, mas às 2 (ou 3) da manhã a capacidade de absorção de uma obra dessas fica comprometida. É bom, de qualquer maneira, e nada gratuito, abordando, em outro contexto, o tema do desejo que já desencadeava pulsões de paixão e morte em O Segredo de Brokeback Mountain, o Ang Lee precedente.   A ambivalência radical do ser humano está no centro de As Sombras de Goya. Milos Forman, que fugiu de Praga quando os tanques soviéticos soterraram o sonho de socialismo democrático, no fim dos anos 60, fez muitos filmes centrados em artistas. Eles vivem quase sempre em choque com as instituições. Aliás, o personagem de Forman, mesmo quando não é um artista (Mozart, Goya), é certamente alguém em choque  com as normas e estruturas que regem o sistema (Um Estranho no Ninho, O Povo contra Larry Flynt). Goya (Stellan Skarsgaard) coloca-se aqui na mira da Igreja, mas não é a ele que o Santo Ofício, representado pelo cruel padre Lorenzo, persegue e, sim, à mulher que serviu de modelo para seus anjos, Inés (Natalie Portman). Inés é brutalmente torturada e estuprada pelo padre Lorenzo.   Ele é expulso da Igreja, mas reaparece, quando as tropas de Napoleão invadem a Espanha, como o inquisidor-mor dessa nova inquisição racional que agora domina a Europa, pós-Revolução Francesa. Ramiro, ainda mais poderoso, não apenas quer destruir Inés, como a evidência de seu crime, a filha que foi abandonada e virou prostituta. Todos os extremos se tocam em As Sombras de Goya. A ambivalência, para o bem e para o mal, está na essência do ser humano. Visto por esse ângulo, independentemente de possíveis licenças históricas e poéticas, As Sombras de Goya é impactante.

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