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'O Teorema Zero', de Terry Gilliam, estreia nos cinemas

Luiz Carlos Merten - O Estado de S. Paulo

12 Julho 2014 | 02h 00

Diretor fez, enfim, o seu 'Brazil' contemporâneo

Terry Gilliam assina o prólogo de O Sentido da Vida, o do escritório de contabilidade que vira barco e segue por mar revolto até Wall Street. É o diretor de O Teorema Zero, que estreou quinta-feira. Como integrante do sexteto que revolucionou o humor inglês, Gilliam foi responsável por algumas das mais extravagantes ideias visuais do Monty Python. Como diretor, em sua carreira solo, ficou famoso por seu excessos justamente visuais, em filmes como As Aventuras do Barão de Munchausen e Medo e Delírio. Com todo o excesso, Brazil, o Filme, de 1985, virou cult e até hoje existe gente - como o cineasta Richard Kelly - que diz que foi o filme que mudou sua vida e despertou nele o desejo de ser cineasta.

Diante de muitos filmes de Terry Gilliam, a vontade é sempre pedir - menos, menos. Mas é possível entender a fascinação de Brazil, senão viajar integralmente naquelas imagens. Há quase 30 anos, Gilliam foi visionário, usando um mundo futuro de visual retrô - mais ou menos como o de Ridley Scott em Blade Runner, o Caçador de Androides - para denunciar a burocratização da vida moderna. Desde então, e volta e meia abalado em suas tentativas para concretizar um projeto que virou mítico - Dom Quixote -, Gilliam sempre sonhou em fazer um Brazil para o mundo contemporâneo.

O problema, admite Gilliam, é que o mundo ficou tão amorfo, dispersando-se em tantas direções, que está cada vez mais difícil entendê-lo. Foi num desses momentos de crise, destruído após mais uma vã tentativa de ressuscitar o seu Quixote, que ele recebeu o roteiro de Pat Rushkin que já circulava pela indústria há anos. De cara, percebeu que encontrara as ferramentas para o seu 'novo' Brazil. O Teorema Zero passa-se numa Londres futurista que bate na tela como espelho deformado do mundo atual. Se antes a burocracia esmagava o humano (em Brazil), agora são os instrumentos virtuais que dificultam as relações humanas.

Como sempre, Gilliam recorre a uma direção de arte que já foi definida como ‘hipercarregada’ - de cores, sombras e quinquicalharias - para dar uma forma à opressão do indivíduo pelo Estado. Christoph Waltz, dos filmes de Quentin Tarantino - Bastardos Inglórios e Django Livre -, faz o protagonista, Qohen Leth, gênio da computação que vive isolado, à espera de um telefonema redentor de sua existência (veja para saber por quê). Qohen adota um comportamento excêntrico, convencido de que só assim poderá fugir à padronização que está massificando as pessoas. Face ao estado do mundo, o que Qohen faz não deixa de ser - vejam só - buscar o sentido da vida.

Divulgação
No futuro. Relações humanas dificultadas

Nesse mundo futuro, ele descobre que o controle dos indivíduos se faz por meio da distração. Recusa-se, por isso, a viver, pelo menos até que o Estado põe em seu caminho a sexy Melanie Thiérry. O efeito termina sendo inverso, na medida em que Melanie detona alguma coisa vital que se manifesta como uma centelha de revolução. São muitas boas ideias - e Waltz e Tilda Swinton, como um cyber bruxa - são ótimos. O problema é que, como em Doze Macacos, Gilliam perde-se entre criação e confusão. O filme é um porre.

O TEOREMA ZERO

Direção: Terry Gilliam.

Gênero: Ficção científica (EUA-Romênia/2013, 107 minutos).

Classificação: 14 anos

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