Diamond Films
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'O Sacrifício do Cervo Sagrado' traz referências antigas para o horror dos tempos modernos

Com um viés não naturalista, o diretor grego Yorgos Lanthimos trata do tema da responsabilidade e da reparação

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

08 Fevereiro 2018 | 06h00

Uma vida pela outra – é o que está em jogo neste estranho O Sacrifício do Cervo Sagrado, do grego Yorgos Lanthimos, que estreia nesta quinta-feira, 8. Na verdade, mais que figuração primária da Lei de Talião, trata-se da releitura de Ifigênia, tragédia de Eurípedes, na qual Agamenon é obrigado a sacrificar uma filha por ter matado um cervo sagrado. Quem será ele no filme de Lanthimos, em sua versão contemporânea do mito?

Colin Farrell é Steven, cardiologista de Cincinati. Aliás, o filme abre com um superclose sobre um coração aberto, o paciente adormecido na mesa de operações. Steven é um homem de sucesso, bem casado com a também médica Anna (Nicole Kidman), pai de um casal de filhos. 

Com um viés não naturalista, Lanthimos trata do tema da responsabilidade e da reparação. O visual solene, com muitos planos longos e música impositiva em determinados momentos, cria uma atmosfera de mistério. Os atores são convidados a “não interpretar”, estabelecendo um tom de artificialismo que, neste caso, ajuda o reforço desse clima incômodo. 

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Mesmo porque Steven verá, aos poucos, toda sua vida ser colocada em crise com o aparecimento de alguém inesperado em seu caminho. A conta-gotas, ficamos sabendo que houve um mau passo no passado, talvez uma decisão duvidosa e alguém aparece para exigir justiça, à sua maneira. 

A surpresa vem com o tipo de cobrança estabelecido e aí então, apesar de situada no presente, a história evoca o ambiente mágico de antigos mitos. Inútil, para o espectador, exigir coerência lógica, relação de causa e efeito, num campo ficcional que se instala no plano mitológico. 

Inegável também o mal-estar que se apodera de quem consente entrar nesse jogo de suspensão temporária da desconfiança. Lanthimos nos leva por caminhos angustiantes de uma relação que ultrapassa a vingança e se estabelece como cruel reparação simbólica. Uma vida por outra vida. E, pior do que tudo, será o culpado o único a escolher quem irá para o sacrifício. Essa a sua pena maior. 

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Já se fez referência a Ionesco e seu teatro do absurdo para explicar o cinema de Yorgos Lanthimos. Mas, quem conhece a obra do autor de A Cantora Careca, compreende que falta a Lanthimos o sentido de humor da obra de Ionesco. Falta ao grego o que sobrava ao romeno. Lanthimos, pelo menos neste filme, não abandona jamais o tom pesado que decidiu imprimir à obra. 

Mas, se nega ao espectador o alívio das explicações lógicas, não lhe sonega o facilitário das cenas de sangue explícitas que, por paradoxo, enfraquecem a obra ao invés de tonificá-la. Uma sequência, em particular, parece um tanto desprovida de lógica interna, a bem dizer. 

Isso porque a técnica de Lanthimos, a de naturalizar o horror, funciona muito bem até este ponto. Como exemplo, a conduta do adolescente Martin (Barry Keoghan), fleumático e falando um inglês professoral, mesmo quando o que exprime seja de fato escabroso. 

Essa quebra de tom, no entanto, não estraga o filme. O Sacrifício do Cervo Sagrado é aquele tipo de obra que recompensa quem aprecia a experiência de estar em ambiente diferente, do qual não tem referências e no qual tudo pode acontecer. Quem gosta do previsível (e muita gente gosta) deve evitar. 

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