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Cultura

O poderoso chefão

'O Poderoso Chefão Parte II' está de volta

Rede Cinemark exibe segunda parte da série imortal de Francis Ford Coppola; veja o trailer

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Luiz Carlos Merten,
O Estado de S. Paulo

04 Setembro 2014 | 10h14

Nem todo mundo concorda, é claro, mas, embora a saga da família Corleone seja toda ela - os três filmes -, uma poderosa manifestação do gênio narrativo de Francis Ford Coppola, o primeiro filme das série O Poderoso Chefão segue sendo o melhor de todos. Isso é o que você poderá confirmar (mais uma vez), agora que O Poderoso Chefão Parte II está de volta na versão restaurada, dentro da programação especial da rede Cinemark, nos dias 6, 7 e 10 de setembro. 

Em 1972, o primeiro Chefão ganhou o Oscar de melhor filme, mas não o de direção, atribuído ao Bob Fosse de Cabaret. Coppola e o autor do livro, Mario Puzo, ganharam o Oscar de roteiro adaptado e Marlon Brando foi um insuperável melhor ator, por sua criação como Don Vito. Dois anos mais tarde, em 1974, Parte II ganhou os Oscars de filme e direção, e mais quatro prêmios, incluindo outra estatueta para Coppola e Puzo pelo melhor roteiro e a de melhor ator coadjuvante para Robert De Niro, que só no ano seguinte faria o Travis de Taxi Driver, de Martin Scorsese, marco definitivo de sua consagração.

Olhando no retrospecto, parece difícil acreditar que Gordon Willis sequer foi indicado para o prêmio de melhor fotografia, porque seu trabalho é excepcional, a única coisa realmente superior ao primeiro, mesmo que se trate de uma afirmação temerária e sujeita a contestação. O Poderoso Chefão era - e permanece - uma prodigiosa lição de cinema narrativo. É enxuto e poderoso, narrando com economia de meios a luta pelo poder numa democracia étnica. Parte II é mais calculado para provocar a reação do público, mas persistem aspectos singulares na dramaturgia de Coppola (e Puzo). O filme passa-se em dois tempos. No fim dos anos 1950, quando Michael Corleone (Pacino), isolado em Nevada, mantém a ferro e fogo o negócio que herdou do pai e até expande as atividades legais da 'família', e na virada do século 19 para o 20, quando Vito (De Niro), jovem imigrante italiano, inicia a ascensão no crime, até se converter em chefão.

Pacino e De Niro muitas vezes dão a impressão de 'underplay', representar pouco, principalmente face às reações mais emocionais dos demais personagens que os cercam. Pacino fala com voz calma - quase sempre -, mas suas explosões são terríveis. A briga com a mulher, Diane Keaton, é exemplar. Colocando os negócios da 'família' (a Máfia) acima de tudo, ele se isola e vira um déspota, conduzindo um império dilacerado como seu coração. Para se manter, como qualquer ditador, emprega a política do medo, chantageando e mandando matar sem dó.

Parte II supera o 1 no desenho político, e para dar uma dimensão maior à luta pelo poder, Coppola cria as cenas de Cuba, na fase pré-Fidel Castro. Na agitação da era de Fulgencio Batista, Havana é um imenso bordel em que jogo e sexo rolam soltos. Nesse quadro, as famílias se reúnem numa comemoração e a ilha é fatiada como um bolo. Mais até do que Pacino e o premiado De Niro, Lee Strasberg - o lendário criador do Actors Studio - faz uma impressionante estreia como o velho gângster judeu que vai se opor a Michael. No Actors Studio, Strasberg desenvolveu o chamado 'método', assimilando lições do ruisso Stanislavski para criar a cartilha da interpretação à americana. Brando, Montgomery Clift, todos viraram atores do método. Intensos, para se dizer o mínimo. Batatinha quando nasce - a frase mais simples - tinha de nascer de um gigantesco esforço interior, como se a alma estivesse sendo revirada. O gângster de Strasberg, porém, era minimalista, sem deixar de ser assustador.

Para ressaltar a dimensão política de Parte II, Coppola (e Puzo) inspiraram-se na própria realidade americana do período. Na época retratada, a televisão começava a participar da vida comum nos EUA e o filme recria o imaginário do público. As audiências no Senado para investigar a Máfia evocam os processos do macarthismo e o assassinato de Lee Harvey Oswald - perante as câmeras - inspira uma cena de grande impacto. Narrando em paralelo as duas histórias, que compõem uma só, o filme conclui-se com o que pode parecer um chavão - a solidão do poder. Mas aida não é o fim da saga dos Corleone. A família voltou em O Poderoso Chefão 3 e o retorno à Itália, com o gran finale do massacre ao som da Cavalleria Rustichana - a vida como um teatro, uma ópera -, mostrou que o poder da Máfia, infiltrado até no Vaticano, ainda serve de metáfora para a concentração de dinheiro no mundo contemporâneo.

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