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Gilles Sabrie|New York Times

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O laser no combate ao uso do celular no teatro

Na China, lanterninhas apontam o dispositivo para o telefone quando alguém da plateia o utiliza durante os espetáculos

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Amy Qin,
THE NEW YORK TIMES

29 Março 2016 | 21h50

PEQUIM - Membros da plateia usando celulares atormentam atores e músicos em todo o mundo, mas, na China, vários teatros e casas de espetáculos adotaram o que dizem ser uma solução eficaz, embora há quem a considere perturbadora. Apontá-los com um feixe de laser.

A abordagem varia, mas a ideia é a mesma. Durante uma apresentação, lanterninhas equipados com ponteiros de laser ficam parados mais acima, ou próximos, do público; quando veem um telefone iluminado, em vez de abordarem o ofensor, apontam seus lasers (geralmente vermelhos ou verdes) mirando a tela brilhante, até que o usuário desista.

“Geralmente, só temos que lidar com uma pequena fração do público, aqueles que não conseguem parar. Então, tentamos lhes dar um lembrete gentil para saberem o que estão fazendo”, disse Wang Chen, funcionário do Grande Teatro de Xangai.

Xu Chun, 27 anos, que estava na plateia de Carmen, no Centro Nacional de Artes Cênicas de Pequim, no mês passado, disse: “Claro que distrai, mas ver telas iluminadas perturba ainda mais”.

Para os não iniciados, a aparência de um feixe de luz colorido em um teatro escuro pode ser chocante. “Eu me lembro da primeira vez que vi os lasers. Foi impressionante ver aquele pontinho vermelho no meio de uma apresentação. Era como se alguém estivesse apontando uma arma para o público”, disse Joanna C. Lee, consultora de orquestras sinfônicas americanas que se apresentam pela China.

De fato, o feixe de luz brilhante pode sugerir perigo. Miras a laser são uma característica popular das armas de fogo e houve vários incidentes em que os fachos que miravam cockpits prejudicaram a habilidade dos pilotos de voar em segurança.

Porém, eles são usados há anos como dispositivos disciplinadores em muitas das principais salas de apresentações da China, incluindo o Centro Nacional, o Centro de Arte Oriental de Xangai e o Grande Teatro de Xangai.

Essa pode ser a resposta a um problema particularmente sério aqui: o número de espectadores subiu nos últimos anos, juntamente com o número de novos espaços de apresentação. E os espectadores que são, em geral, visivelmente mais jovens do que nos EUA e na Europa têm a esperada falta de experiência com a etiqueta de shows no estilo ocidental. Os lasers, dizem os gerentes de teatros, fazem parte de um esforço para ensinar o público a se comportar durante apresentações ao vivo.

Os atores se incomodam com isso? “Não. É muito inteligente, muito rápido, muito eficaz”, disse Giuseppina Piunti, meio-soprano italiana, depois de cantar o papel-título em Carmen, no Centro Nacional. “Deveriam usar os lasers no mundo todo. Consigo ver os feixes do palco, mas é muito menos perturbador do que os flashes das câmeras e os lanterninhas correndo pelos corredores.”

O mais importante, disse Yang Hongjie, diretor adjunto do departamento de assuntos teatrais do Centro Nacional, é deixar claro que o feixe de laser é usado logo no início de uma apresentação, para que os infratores (além daqueles à sua volta) saibam o que pode acontecer caso resolvam tirar uma foto.

“No começo, era terrível. As pessoas falavam ao telefone e tiravam fotos o tempo todo durante as apresentações”, contou Yang do Centro Nacional, que abriu em 2007.

Ele e seus colegas perceberam que a abordagem individual dos lanterninhas para impedir essas atitudes não só distraía os outros espectadores, mas também era um problema caso o transgressor estivesse sentado no meio de uma fileira. Então, em 2008, o Centro começou a treinar seus funcionários no uso do laser.

Nos EUA, o uso de feixes de laser é altamente regulamentado. Na China, apesar de associações artísticas terem divulgado orientações, em geral, os dispositivos não são regulados. “Só é um risco se atingir o olho”, disse Samuel M. Goldwasser, perito em laser e ex-professor de Engenharia Elétrica na Universidade da Pensilvânia.

É por isso que, segundo Yang, os lanterninhas são especificamente treinados para atuar pelas costas das pessoas na plateia, evitando os olhos.

Também há queixas quando os lasers são muito usados durante uma apresentação, como em um concerto em Pequim, em janeiro, com o famoso pianista chinês Lang Lang. Havia tantas pessoas tentando tirar uma foto dele que às vezes parecia que um show de laser havia sido organizado para acompanhar a apresentação de Lang de As Estações do Ano, de Tchaikovski. Como resultado, algumas companhias, como a Royal Shakespeare Company, em turnês recentes na China, solicitaram que o dispositivo não fosse usado durante suas apresentações.

No entanto, os gerentes de teatro daqui dizem que os lasers são a melhor solução que encontraram para um problema irritante. “Espero que, um dia, nem precisemos tirar os ponteiros do bolso. Seria um dia perfeito”, disse Wang, do Grande Teatro de Xangai.

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