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'O Franco-atirador', com Sean Penn, ganha em densidade por causa da interpretação

Interpretação do ator supera a trama do longa

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

13 Maio 2015 | 03h00

OK, O Franco-atirador não consegue ser tão bom quanto Noite Sem Fim, mas para uma coisa o novo thriller de Pierre Morel serve - para mostrar de novo, se é que ainda era preciso, o excelente ator que Sean Penn é. Ele já ganhou o Oscar - por Sobre Meninos e Lobos, de Clint Eastwood -, mas aquele era um papel formatado para o prêmio da Academia. Um personagem sofrido, marcado pelo abuso que sofreu na infância. O Franco-atirador é agora pura ação, pauleira do começo ao fim.

Existem cenas inteiras em que Sean Penn não fala - apenas bate, ou descarrega o pente da pistola. Mas também há momentos mais densos, em que os gestos e o olhar dizem mais que as palavras. São os momentos em que Penn, atual namorado da atriz Charlize Theron, excede. No filme de Jaume Collet-Serra ocorre a mesma coisa. Há cenas de Noite Sem Fim em que Liam Neeson e Ed Harris, ou Neeson e Joel Kinnaman, que faz seu filho, expressam sentimentos profundos. Como amigos colocados em campos opostos, Neeson e Harris falam, explicam-se, provocam-se. Como pai e filho separados pelo abandono, o ressentimento, Neeson e Kinnaman silenciam, secretam suas emoções, falam só com os olhos.

Todo mundo sabe - existem papéis para o Oscar. Mas o cinema não vive de prêmios. Existem esses outros filmes em que os atores precisam ser muito bons para dar força a personagens e conflitos que pertencem ao domínio do já visto. Pierre Morel tem estado associado ao produtor e diretor francês Luc Besson. Contribuiu poderosamente para que Liam Neeson virasse astro de ação, com o primeiro Taken/Busca Implacável. E agora, além da pancadaria, cria essas cenas entre Penn e Javier Bardem, entre Penn e Jasmine Trinca, que faz sua (ex-)mulher e que o público conhece dos filmes de Bertrand Bonello, L’Apollonide e Saint-Laurent.

 

Na trama, que começa na República Democrática do Congo, ela trabalha numa causa humanitária e o marido (Penn), tem uma função pública de segurança. Na verdade, ele age nas sombras, como franco-atirador - um pistoleiro profissional - a soldo das grandes mineradoras que exploram o país. Na sequência de uma ação espetacular - um assassinato político -, Penn tem de sumir e Javier Bardem aproveita para se aproximar de sua mulher, a quem deseja. Sabemos isso desde a primeira cena, sem necessidade de nenhum diálogo, só pela forma como Bardem olha Penn e Jasmine, enquanto se beijam.

De volta do inferno, Penn cai num inferno maior ainda. Porque nesse mundo do grande capital, seus antigos aliados em operações obscuras viraram os detentores do poder. Agem agora de forma legal, embora, no fundo, manipulem fundos e continuem matando pelo poder. Com a cabeça a prêmio, Penn vai ter de lutar pela vida, e para proteger a (de novo) mulher. Quem o está caçando, quem quer matá-lo? Não é mais Bardem. O inimigo é mais poderoso, tem mais sicários. Da África, a ação se transfere para a Espanha, e para uma praça de touros, com direito a montagem paralela. Penn contra os matadores, e na arena o toureiro, pronto para a estocada na besta.

É curioso que as pessoas se matem com requintes de crueldade, mas a estocada no touro fica no imaginário do espectador. Na era do politicamente correto, touradas são malvistas. Há que defender o touro da ação predadora dos homens, mas o cerimonial é mantido como elemento da mise-en-scène. 

Para o espectador brasileiro, um filme como O Franco-atirador pode provocar certa confusão. Será um remake, tem alguma coisa a ver com o filme de mesmo título que Michael Cimino fez com Robert De Niro nos anos 1970 (e que ganhou o Oscar)? Nada a ver, mas alguma coisa, sim. O Franco-atirador/The Deer Hunter, de Cimino, era sobre a desintegração do grupo pela guerra e pelas circunstâncias da vida. Agora, o grupo desintegra-se pelo poder e pelo dinheiro. Nesse universo, só o amor salva. Não é um grande filme nem mesmo bom. Bom, é Sean Penn, a musculatura tensa, o olhar dolorido. Na média, dez para ele, 5 ou 6 para o filme.

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