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'Conspiração e Poder' põe em foco denúncias da era Bush

Filme invade os bastidores da profissão de jornalistas e deixa espaço para as incertezas

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Luiz Carlos Merten,
O Estado de S.Paulo

24 Março 2016 | 06h00

Pode ter sido erro de julgamento, mas Conspiração e Poder, de James Vanderbilt, que estreia nesta quinta, 24, e Spotlight - Segredos Revelados, de Tom McCarthy, estrearam juntos no Festival de Toronto, em 2015. Spotlight surgiu logo como potencial indicado para o Oscar e, no fim, venceu o prêmio da Academia. Mas não foram poucos os críticos que selecionaram Conspiração e Poder - Truth/Verdade, no original - como melhor filme em Toronto. Esses entusiastas antecipavam indicações para Cate Blanchett e Robert Redford por suas criações dos jornalistas Mary Mapes e Dan Rather.

Corrigindo - deve (e não ‘pode’) ter sido erro de julgamento, porque o filme teve lançamento limitado nos EUA, faturou míseros US$ 2,9 milhões e foi defenestrado do Oscar e da vista dos espectadores. Ou a história não era tão boa como pensava o roteirista e diretor Vanderbilt, em sua estreia como realizador, ou o título brasileiro, que fala de ‘conspiração’, afinal tem a ver com o que pode ter ocorrido.

Conspiração e Poder baseia-se numa história real, de 2004. Mary Mapes era produtora do lendário programa 60 Minutes, apresentado por Dan Rather. O presidente George W. Bush concorria à reeleição e ela investigava a conexão de sua família com o sinistro Bin Laden. Topou com outra informação explosiva - Bush filho teria usado ligações familiares e favorecimentos para servir na Guarda Nacional do Texas, em vez de ser enviado ao Vietnã, onde houve a carnificina que todos sabem.

A reportagem foi ao ar, e imediatamente contestada, porque baseada em documentos que teriam sido forjados. O filme adota o ponto de vista de Mary/Cate Blanchett. Ela investigada, tem sua credibilidade destruída como liberal empedernida que teria tentado atingir o presidente. A situação é muito mais complicada que a de Spotlight. Conspiração e Poder tem um grande tema - a imprensa -, mas está longe de ser o grande filme que alguns críticos, apressadamente, viram em Toronto.

Logo no começo do filme, Cate Blanchett, como Mary Mapes, vai a um advogado. É jornalista, produtora do prestigiado 60 Minutes, e tem problemas por causa de uma reportagem com denúncias contra o presidente George W. Bush. Antes mesmo que comece a narrativa - o flash-back - que vai contar a história para o público, Mary pergunta se o advogado acredita nela. A resposta só virá bem mais tarde. O marido também passa o filme convidando a mulher para uma caminhada no fim de noite e só no fim... Veja para ver o que acontece.

Conspiração e Poder chama-se, no original, Truth/Verdade. É uma adaptação do livro Truth or Duty: The Press, the President and the Privilege of Power, de Mary Mapes, de 2006. Os fatos narrados referem-se a 2004. Depois de expor ao mundo as torturas no presídio de Abu Ghraib, Mary pesquisava, para o 60 Minutes, uma denúncia sobre o envolvimento da família Bush com Bin Laden. 

Quem apresentara o programa contestado fora Dan Rather, um dos jornalistas mais respeitados dos EUA. As suspeitas foram todas direcionadas para a produtora e Mary Mapes foi massacrada pela rede de TV CBS. Levantaram sua vida - sofrera abuso do pai, virara uma radical e teria direcionado seu ódio para o presidente. A CBS criou uma comissão para investigar o caso. Todos ao redor de Mary foram sendo perseguidos e expurgados.

O filme é interessante, levanta questões pertinentes sobre o exercício da profissão do jornalista - e sua vulnerabilidade. Dan Rather, que já é um veterano - e Robert Redford traz sua persona para o papel -, reflete sobre as mudanças do jornalismo, que começou como de utilidade pública, mas se tornou rentável e foi incorporado à área de entretenimento das redes. 

Tudo isso é relevante, válido e o diretor James Vanderbilt, também autor do roteiro, desenvolve o relato de forma a que nos identifiquemos com Mary, que, afinal, é uma grande profissional e uma mulher decente. O problema é que as dúvidas durante o processo foram sendo relegadas a segundo plano. O principal documento foi redigido num Microsoft, que não havia na época, mas Mary e seus checadores aceitaram alegações de que havia máquinas que poderiam etc., etc. O espectador não é induzido a confiar. Permanece a dúvida.

Face a isso, o privilégio do poder - a presidência? Os interesses das empresas? - encarrega-se do resto. É interessante comparar a imprensa do filme com a do Brasil atual, em que a presidência também está colocada em xeque. Onde está a conspiração do título? Na jornalista, aparentemente, não. Na empresa? A CBS não exerceu nenhuma pressão contra a equipe, mas se recusou a divulgar campanha promocional para que Cate Blanchett e Robert Redford concorressem ao Oscar.

Ator já viveu outros dois jornalistas

Sua grande fase de galã já passou, mas, aos 79 anos, Robert Redford segue sendo uma figura carismática. Em 2016, completam-se 40 anos de Todos os Homens do Presidente, em que Redford fez seu primeiro jornalista: Bob Woodward, do caso Watergate. Em 1996, criou outro jornalista de TV - em Íntimo e Pessoal, mas o que importava era o romance com Michelle Pfeiffer, de quem se torna o mentor.

 

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