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'O Filho de Saul' busca nova representação do Holocausto

Longa é favorito no Oscar de filme estrangeiro

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Luiz Carlos Merten,
O Estado de S.Paulo

03 Fevereiro 2016 | 03h00

Em Cannes, no ano passado, o diretor artístico Thierry Frémaux anunciou a seleção oficial, mas fez questão de ressaltar que ela estava incompleta. Ainda faltava um filme que, para usar a linguagem do futebol, foi anunciado praticamente aos 45 do segundo tempo - em cima da hora. Era O Filho de Saul, do húngaro László Nemes. O filme que estreia nesta quinta, 4, nos cinemas brasileiros, causou grande impacto na Croisette. Venceu o prêmio especial do júri e o da crítica, mas, mesmo em Cannes, esteve longe de ser uma unanimidade. A imprensa diária colocou-o nas nuvens, mas revistas especializadas como Cahiers du Cinéma e Positif, tradicionalmente rivais, uniram-se no veto. Cahiers deu ao filme uma estrela (entre quatro possíveis). Positif foi um pouquinho mais generosa - duas estrelas.

Nos EUA, Film Comment colocou O Filho de Saul na capa - O Ventre da Besta, era a chamada. Dentro, uma matéria elogiosa e outra que deplorava o exibicionismo atroz de Nemes, chamando-o de oportunista. O Filho de Saul integrou a programação da 39.ª Mostra. Foi alvo de uma acirrada disputa pelo prêmio da crítica, mas perdeu (para Torneranno I Prati, de Ermanno Olmi). Agora, é considerado favorito para o Oscar de filme estrangeiro, mas vale lembrar o ano passado. Os indicadores apontavam para Leviatã, do russo Aleksey Serebryakov, mas quem ganhou foi o polonês Ida, de Pawel Pawlikowski. É bom já ir pensando num plano B, na eventualidade de O Filho de Saul não levar.

Essa eventualidade parece remota - um filme sobre o Holocausto, que coloca em discussão a representação da Shoah, deve calar fundo nos ‘velhinhos’, que ainda são o maior número entre os votantes da categoria. O Holocausto, portanto, e como você nunca viu, até porque o mantra do diretor é não mostrar. O Filho de Saul é sobre um integrante do Sonderkommando, a brigada de judeus encarregada de limpar as câmaras de gás e destruir os cadáveres. O filme parte de uma realidade terrível - adotada a solução final pelo nazismo, os campos de extermínio viraram usinas de fabricar mortos, num ritmo industrial. Para manter a máquina funcionando, era preciso manter sempre preparadas as câmaras de gás. E os cadáveres não poderiam ser simplesmente empilhados.

O horror, o horror. Em Cannes, o jovem László Nemes, de 38 anos, revelou que tinha seus mantras. Repetia sempre ao ator Géza Röhrig, que, por sinal, não é ator, mas poeta; ao diretor de fotografia Mathyas Erdély; ao diretor de arte László Rajk e ao técnico de som Tamás Zãnyi - “Nosso filme não pode ser bonito nem sedutor. E também não quero que seja um filme de gênero, de horror.” Mais do que uma banalidade do mal, Nemes busca uma normatização. “A grande questão da Shoah é que sua representação coloca sempre um problema moral, como bem ressaltou Claude Lanzmann”, disse ele na coletiva de seu filme. “A barbárie era a norma do nazismo. Não queria ‘mostrar’, mas sugerir, e que ficasse bem claro.”

O Filho de Saul passa-se no breve período em que o protagonista crê identificar entre as vítimas, naquele momento particular, o próprio filho. Saul é um funcionário, uma peça do mecanismo de extermínio. O fato de integrar o Sonderkommando lhe garante certas facilidades - comida, direito de circulação pelo campo. Mas, assim como os nazistas queriam eliminar os vestígios dos assassinatos em massa, também eliminavam os integrantes dos Sonderkommandos. Poucos sobreviviam muito tempo. Saul sabe disso, mas é seu filho, ou assim ele crê. Ele então percorre o campo, siderado, em transe, em busca de um rabino para recitar o kaddish e garantir um enterro ritual ao garoto. Ele não apenas cruza o campo - descobre formas de resistência ali dentro.

László Nemes contou que O Filho de Saul começou a nascer quando ele trabalhou como assistente de Béla Tarr em O Homem de Londres, de 2007. Naquele mesmo ano, ele fez seu curta premiado em Veneza, Com Um Pouco de Paciência, sobre uma mulher seguida tão de perto pela câmera que só no fim o espectador consegue ver o que ela faz. Num intervalo da filmagem de Tarr, Nemes descobriu um livro editado pelo Memorial da Shoah, Vozes das Cinzas, com depoimentos dos Sonderkommando. Juntando o que lia com o partido estético de Com Um Pouco de Paciência, ele começou a visualizar um filme. Criou mais um mantra para sua equipe - “A câmera deveria ficar colada em Saul, não ultrapassar sua capacidade de visão e audição, não fornecer um único plano de conjunto. A câmera deveria ficar com ele e ser sua companheira nessa verdadeira travessia do inferno.”

É um partido estético distinto do de Steven Spielberg em seu celebrado A Lista de Schindler - a câmera não entra na câmara de gás. É um espaço interdito para Saul, como para o espectador. Na verdade, o que o filme abre é esse debate sobre o que se pode ver no cinema e o que mostrar. E, embora Nemes fale muito do (seu) ponto de vista ético, Cahiers acha o filme ‘imoral’. Para a revista, Com Um Pouco de Paciência já era obsceno e o que Nemes fez agora foi juntar um grande tema (o Holocausto) a um partido estético que, para a revista, é indefensável. E o mais polêmico - diretores como Nemes ou Michel Franco, que também foi premiado em Cannes no ano passado (por Chronic, com Tim Roth), são crias do misantropo Michael Haneke, duas vezes premiado com a Palma de Ouro (por A Fita Branca, em 2009, e Amor, em 2012) e seus discípulos também filmam de olho na recompensa.

O Filho de Saul chega para perturbar. Gostando ou não, é visceral. Tira o público da sua zona de conforto. Nemes defende-se - “As pessoas gostam de histórias reais, mas histórias positivas, que têm grandeza, como a de Schindler. Histórias de sobreviventes, com os quais possam se identificar. Mas, para cada um desses, quantos morreram e suas histórias se perderam? Para mim, é a importância de O Filho de Saul. Foi por isso que filmei.”

 

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