Novo filme de John Boorman é atração da Mostra de Cinema de SP

Novo filme de John Boorman é atração da Mostra de Cinema de SP

Diretor fala ao 'Estado' sobre sua produção e desvenda o dilema moral de sua infância

Entrevista com

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

21 Setembro 2014 | 03h00

John Boorman conta que aceitou com entusiasmo o convite para presidir o júri da 38.ª Mostra de Cinema São Paulo, em outubro. Ia aproveitar para mostrar o novo filme, Queen and Country, mas, principalmente, queria voltar ao Brasil, que conheceu ao filmar A Floresta das Esmeraldas, nos anos 1980. E aí sofreu um acidente. “Não posso ficar muito tempo sentado. Uma viagem de avião nessas condições pode ser dolorosa, mas estou melhorando. Mesmo que não dê tempo de ser jurado, gostaria de ir mostrar Queen and Country na Mostra.”

O novo longa integrou a programação da Quinzena dos Realizadores em Cannes, em maio. Fez sucesso de crítica, mas continua sem distribuidor. “Espero estrear na Inglaterra e na França até dezembro, e se der certo, também nos EUA.” Boorman não esclarece, mas a expectativa tem a ver com possíveis indicações para o Oscar. Queen and Country dá sequência à saga autobiográfica de Esperança e Glória, e o filme de 1987 havia sido indicado para várias estatuetas da Academia.

Passaram-se 27 anos. Em que momento Boorman decidiu que queria voltar à história de sua família? “Desde sempre. Quando fiz o primeiro filme, já pensava no segundo, mas, por se tratar de um projeto autobiográfico, achei que seria mais interessante voltar aos personagens dez anos depois. O tempo passou, não conseguia investidores para um filme tão pessoal. Terminei fazendo Queen and Country muito mais tarde e com muito menos dinheiro do que esperava, mas deu tudo certo.”

Se Esperança e Glória passa-se durante a Blitz de Londres - e tem a cena em que o garoto Boorman agradece a Adolf (Hitler) pelos bombardeios que suspendem as atividades de sua escola -, Queen and Country mostra agora o jovem Boorman como soldado durante a Guerra da Coreia. Não ocorre nada tão espetacular como o bombardeio de Londres. “O filme é mais intimista”, define o diretor de 81 anos. É tudo verdade? “É incrível como, muitas vezes, fazendo ficção, nos mantemos fiéis aos fatos.”

 

 

Em entrevista por telefone, de sua casa, na Irlanda, John Boorman fala de cinema e desvenda o dilema moral de sua infância.

Antes de falarmos sobre Queen and Country e a Mostra, informo que À Queima-roupa acaba de ser lançado em DVD no Brasil. O filme não envelheceu e sua pesquisa formal do tempo deve muito a Alain Resnais. Concorda?

Muita gente me fala isso, mas Resnais nunca foi uma referência, pelo menos consciente. O produtor me propôs adaptar a história de Donald E. Westlake. Fiz o primeiro esboço do roteiro e a história do homem baleado que a mulher adúltera e seu amante gângster deixam para morrer me parecia a história de um fantasma, como se ninguém, e eu inclusive, pudesse ter certeza se esse homem está vivo. A traição mata alguma coisa nele. Tinha de passar isso. O personagem fica suspenso no tempo e no espaço, o que, naturalmente, sugere Resnais, mas, para mim, foi exigência da história.

Lee Marvin é fantástico...

E ele era fantástico também como pessoa. Fazia meu primeiro filme em Hollywood e Lee me deu confiança. Era um grande astro e foi aos executivos do estúdio, que era a Metro. Perguntou se tinha direitos sobre a direção e o elenco. Quando lhe disseram que sim, ele os transferiu para mim. E quando fui exibir o filme pronto e os executivos exigiram mudanças, a chefe de edição do estúdio ameaçou se demitir, se um só fotograma fosse tocado. Tive muita sorte com À Queima-roupa. Encontrei pessoas maravilhosas.

Por que retornar a Esperança e Glória?

O filme já nasceu como um díptico de guerra na minha cabeça - hoje em dia tem gente que acha que deveria fazer uma trilogia, contando meu começo no cinema. O amor pelos filmes já está em Queen and Country. Em 1952, tinha 19 anos e fomos, um amigo e eu, recrutados para o serviço militar. Só que, em vez de sermos enviados à Coreia, fomos para essa base ensinar recrutas a datilografar. Sobrava tempo para namorar e ver filmes.

Você volta à história de sua família. Como foi?

Foi curioso reencontrar personagens que já conheço. É sempre um problema escrever diálogos. Você escreve e já pensa em quem vai dizê-los. Nesse caso, os diálogos fluíam porque eu conhecia as pessoas. Em Esperança e Glória, achei que estava ficcionalizando minha vida para poder abordar aspectos delicados, mas minha mãe e minha irmã me perguntavam como conseguia me lembrar tanto dos detalhes. Era tudo verdade.

Até o adultério de sua mãe?

Principalmente. Tinha 10 anos quando descobri as escapadas de minha mãe. Vivi um tormento, que não desejo para mim. Era muito criança para entender o que se passava, mas recebi educação religiosa de salesianos e tinha certeza de que estava vivendo em pecado. Tinha de fazer uma escolha moral, mas se eu contasse a meu pai estaria traindo minha mãe e, além do mais, ele sofreria muito. Convivi muito tempo com essa angústia e só consegui contar a história depois que ele morreu.

Mas ela já aparece sublimada em Excalibur, não?

Sim, no triângulo formado por Arthur/Guinevère/Lancelot. Sempre fui louco por Camelot e pela saga arthuriana, mas só quando adulto pude entender o que me atraía tanto. Guinevère respeita Arthur, mas o desejo é mais forte e sua traição destrói a unidade mítica do reino.

É o tema de seu cinema, não? Em Amargo Pesadelo e A Floresta da Esmeraldas, você filma a natureza. Em Excalibur, o reino perfeito, mas esses paraísos são sempre ameaçados. Concorda?

Absolutamente. A natureza, e o Brasil, me interessam muito. Rios e florestas são para mim, o sangue e a carne da Terra. Toda a ameaça ao planeta, ao equilíbrio ambiental, passa pela degradação desses elementos. Da mesma forma, o sofrimento que as pessoas podem se causar, mesmo não querendo. Não sou o único a sonhar com o paraíso, mas sinto que, cada vez mais, nos afastamos dele.

Falamos de vários de seus filmes e eu revi outro dia na TV paga Amargo Pesadelo e a cena do banjo é antológica. Como foi filmar aquilo?

Sabia que era uma boa cena e me esmerei em filmar pensando na música e oferecendo alternativas para a montagem. Mas nunca imaginei que a cena fosse ultrapassar o filme. Tem gente que fala nela como a perfeição de meu cinema.

Você dirigiu grandes atores, mas o protagonista de Queen and Country é estreante, Callum Turner. Como você dirige os atores?

Tenho sete filhos e quando o primeiro nasceu, eu era cheio de teorias sobre como educar os filhos. No terceiro, eu já desistira de toda teoria e depois fui me adaptando à realidade da vida. Com atores, é a mesma coisa. Callum é muito talentoso e excedeu minha expectativa, mas eu não posso dirigi-lo do mesmo jeito que a David Thewlis e Richard E. Grant (veteranos que também estão no elenco). Cada ator exige um tipo de atenção e, como diretor, você tem de estar atento a isso.

Você mudou quase todo o elenco. Por quê?

Só o pai é o mesmo. Tenho trabalhado muito com David Hayman. É um ator especial. Sinéad Cusack foi maravilhosa. Gosto que diferentes atrizes criem minha mãe. Elas revelam coisas que não sabia e me surpreendem. Com Sinead foi assim.

Almodóvar, Oliveira, Ceylan, as atrações já anunciadas

De 16 a 29 de outubro, o cinéfilo paulistano já sabe - seu compromisso é com a 38.ª edição da Mostra Internacional de Cinema São Paulo. O maior evento de cinema da cidade e um dos maiores do Brasil - o mais longevo do gênero, com certeza -, deve trazer cerca de 300 filmes que vão revelar o estado do cinema no mundo. Na entrevista da capa, John Boorman lamenta que não tenha condições de vir para o júri, mas conta que ainda tentará viajar ao Brasil para mostrar seu novo longa, o belo Queen and Country. Guarde o título. É belíssimo.

Renata Almeida, a sra. Mostra, está fazendo com todo empenho a seleção que será anunciada no sábado, dia 4, dentro de duas semanas. Algumas coisas ela já vem antecipando, aos poucos. O cartaz da 38.ª Mostra será de Pedro Almodóvar e haverá uma retrospectiva (parcial) do diretor espanhol. A empresa dele, El Deseo, produz o filme de abertura, Relatos Selvagens, do argentino Damián Szifron, com Ricardo Darín. Haverá outra retrospectiva do produtor, diretor, distribuidor e exibidor francês Marin Karmitz, comemorando os 40 anos de sua empresa MK-2.

Haverá uma terceira retrospectiva, e para muita gente o cinema de Noburo Nakamura será uma revelação. Famoso por seus filmes sobre mulheres, ele morreu em 1981, aos 68 anos, deixando o legado de uma obra com mais de 80 títulos. Três deles serão exibidos em versões restauradas. Diante de Lar, Doce Lar, Só Fede Quando Chove e O Formato da Noite, você vai entender por que Nakamura foi agraciado, postumamente, com a maior comanda do Japão, a Ordem do Sol Nascente.

A 38.ª Mostra também vai exibir The Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan, que venceu a Palma de Ouro em Cannes, e o novo filme de Manoel de Oliveira, o curta O Velho do Restelo, apresentado como o testamento do mestre de 105 anos. 

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