'No Olho do Tornado' tem lições de espetáculo, na linha de Cameron

Efeitos grandiosos e dramas familiares servem a que o cineasta abordetemas como a segunda chance e o retorno ao lar

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

01 Setembro 2014 | 02h05

Em entrevista ao Estado, o diretor Steven Quale relata como se inspirou em memórias de infância para dar realismo às cenas mais intensas de seu disaster movie, No Olho do Tornado, que estreou na quinta, 28. Quale foi assistente de James Cameron e aprendeu com ele que o espetáculo não é um gênero fácil. Muitos críticos - não todos - desprezam tanto um bom espetáculo que tentam nos fazer crer que o filme grande se faz sozinho, sem necessidade de empenho nem inteligência. Quale chega a criar uma cena magnífica - kubrickiana? - quando o líder da expedição que caça imagens de tornados é colhido no olho do furacão. Os ventos furiosos o transportam para o alto e como Chuck Yeager, o piloto maldito de Os Eleitos, de Philip Kaufman, ele chega ao limiar do espaço - antes de despencar.

Muito interessante, realmente. No Olho do Tornado é o melhor filme de seu gênero em muito tempo (desde sempre?). O cinéfilo de carteirinha lembra-se. No Kansas, Dorothy (Judy Garland) também viajou no olho do furacão e foi levada para o reino encantado de Oz na fantasia oficialmente assinada por Victor Fleming, mas na qual se revezaram vários diretores. A mesma coisa ocorreu em outro clássico de 1939 também assinado por Fleming e, pelo outro, ele recebeu seu Oscar de direção - ...E o Vento Levou. Mais recente, Twister, de Jan De Bont - o diretor de fotografia de Paul Verhoeven -, revelou um gosto perverso ao dar mais atenção aos desastres da natureza do que aos dramas humanos de seu filme (bem ruinzinho). Quale busca um equilíbrio, e não se pode dizer que se saia mal.

Richard Armitage já fez dois filmes grandes que também ocorrem ser grandes filmes, mas é possível que permaneça desconhecido do público. Afinal, em O Hobbit 1 e 2 (Uma Jornada Inesperada e A Desolação de Smaug), ele apareceu disfarçado sob a máscara e a baixa estatura de Thorin Escudo-de-Carvalho, o líder dos anões que busca restabelecer o trono de Erebor. Em No Olho do Tornado, Armitage recupera sua estatura, veste um terno e aposenta o escudo. E é como tal, o diretor da escola, que ele enfrenta o vendaval de tornados que assola sua cidade.

Os conflitos humanos não são negligenciáveis e, de um lado, temos Armitage e seus dois filhos varões, com os quais, desde a morte da mulher, ele não tem muito diálogo. De outro, na equipe do caçador de tornados, temos a meteorologista Sarah Wayne Callies, preocupada porque há três meses está longe da filha. A família, a relação pai (e mãe)/filhos, é o tema de Steven Quale e os tornados só estão ali para dificultar que as coisas deem certo. Isso é parte da verdade, porque alguém - algum crítico - poderá objetar que os dramas familiares, nada originais, só estão ali para dar liga às grandiosas cenas de ação.

Quem pensa de um jeito, ou de outro, terá sua dose de razão, mas a verdade é que o desespero de Armitage tentando salvar o filho soterrado sob os escombros de uma fábrica ou o de Sarah querendo voltar para a filha parecem genuínos, da mesma forma que os efeitos, na vertente de James Cameron, dão de 10 nos de Twister e outros congêneres recentes. Como Dorothy, em O Mágico de Oz, Sarah só quer voltar para casa. É um dos temas por excelência do cinema de Hollywood - o retorno ao lar. O outro é a segunda chance, que Armitage reivindica com seus garotos. Segure-se na poltrona. No Olho do Tornado não nega fogo. O filme até reflete (sobre) o cinema, com seus cinegrafistas que caçam imagens raras, e emocionantes.

Mais conteúdo sobre:
Cinema No Olho do Tornado Crítica

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.