VIDEOFILMES/DIVULGAÇÃO
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'No Intenso Agora' faz reflexão política sobre os anos 1960

Documentário de João Moreira Salles é exibido na seção Panorama Dokumente do Festival de Berlim

Luiz Carlos Merten  ENVIADO ESPECIAL / BERLIM, O Estado de S.Paulo

13 Fevereiro 2017 | 05h00

Há um grande personagem em No Intenso Agora, e talvez não seja a mãe do diretor João Moreira Salles que inspirou o documentário exibido no sábado, 11, na seção Panorama Dokumente do Festival de Berlim.

É o presidente Charles De Gaulle, que governava a França em maio de 1968. Você, cinéfilo, deve saber que François Truffaut e seus companheiros da nouvelle vague definiam o movimento como uma reação aos velhos que governavam a França. De Gaulle, um herói da Segunda Guerra Mundial, é patético em sua primeira aparição no filme.

Parece um velho clown ao se dirigir aos franceses no réveillon de 1968, ao dizer que a França está em paz e será um ano tranquilo. A plateia da Berlinale ria como se assistisse a uma comédia. Na sequência, houve o célebre maio – no ano que não termina nunca –, De Gaulle quase perdeu o controle da situação, mas, depois, com o apoio dos sindicatos, conseguiu impor pesada derrota à revolta, que sonhava ser revolução, estudantil. Uma vitória de pirro? No réveillon de 1969, é um De Gaulle visivelmente cansado que se dirige aos franceses para alertar sobre o grande risco – o vazio.

É o tema de No Intenso Agora. João Moreira Salles trabalhava na edição de Santiago, quando descobriu as imagens captadas por sua mãe durante uma viagem à China, em 1966. Embora narrado em primeira pessoa, com intensa participação do autor, o filme não esclarece que a mãe do diretor terminou por se matar. É algo muito duro de assumir, verbalizar, mas as referências a suicídios são muitas. Na China, em plena revolução do camarada Mao, com seu livro vermelho de pensamentos, a mãe de João foi feliz como talvez nunca tenha sido. Deixou-se contagiar pela revolução.

O filme parte dessa exaltação para levantar questões importantes. Logo em seguida, houve o Maio de 68 e a invasão de Praga pelos tanques soviéticos. Houve a morte do estudante Édson Luiz de Lima Souto no Brasil, em março de 1968. A questão embutida em No Intenso Agora é da maior relevância. E se o clamor da rua não for suficiente? Vale para o Brasil atual, para os Estados Unidos, onde têm se multiplicado os protestos contra o presidente Donald Trump. No Intenso Agora é dedicado a Eduardo Coutinho, mentor de João, como João talvez tenha sido seu mecenas na Videofilmes.

Com Coutinho, João aprendeu a desconfiar das imagens. Em No Intenso Agora, ele faz cinema de arquivo para escavar na memória, mas também para refletir sobre outra coisa. Quem viveu a euforia dos revolucionários de Mao, das três semanas em que Paris ardeu em 1968, como se sobrevive à ressaca da paixão? É o risco do vazio com que se defronta De Gaulle, o clown que se converte em personagem trágico e adverte – De Gaulle! – que sem consciência nos arriscamos a cair no consumismo esterilizante. De Gaulle, um visionário? Não foi ele que disse que o Brasil não era sério?

No Intenso Agora não foi feito para refletir o mundo atual. Quando João começou a trabalhar no projeto, o Brasil e o mundo eram outros. Hoje, porém, o filme reflete o espírito do tempo. Não é Santiago, que, afinal de contas, era afirmativo, sobre como um homem criava mecanismos para enfrentar a adversidade.

O movimento agora é inverso – o que resta de nossos amores, de nossos sonhos revolucionários? Embora João não encare o suicídio de sua mãe, o suicídio é um tema recorrente no filme. João não está só preocupado, mas angustiado. “Parece exagero, a gente tem a família, o amor, os filhos, o trabalho. Mas não é só o Brasil, é o estado do mundo. Temo que, para 2018 e até antes, venhamos a ter um surto autoritário no Brasil”, ele adverte em seu novo documentário que poderá ser o filme do ano no País, como Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, foi no ano passado.

Temas incluem animais e mulheres

Depois dos direitos de imigrantes, mulheres e transgêneros, os dos animais. A polonesa Agnieszka Holland trouxe à competição o que não deixa de ser uma fantasia ambientalista (Pokot/Spoor) sobre serial killer que protege a floresta matando caçadores.

Comparativamente, ViceRoy’s House,  de Gorionder Chandra, parece uma soap-opera ao abordar o êxodo que resultou da partilha da Índia nos anos 1940. O filme, que passou fora de concurso, emociona com a história dos amantes forçados a se  dividir.

E Gillian Anderson, ex-Arquivo X, é excelente como Edwina, mulher do lendário Lord Mountbatten. Do Chile veio o novo filme do diretor de Glória. Sebástian Lelio, desta vez, encara a luta de uma transgênero contra o mundo hostil, em ‘Una Mujer Fantástica'.

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