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No Festival do Rio, Première Brasil mostra sua força

Depois de um começo mais ou menos, menina dos olhos do evento deslancha com belíssimas obras

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

28 Setembro 2014 | 18h48

RIO - Há uma mostra intitulada A América Maldita, dedicada a Michael Cimino, que traz a íntegra da obra do polêmico diretor norte-americano, incluindo seus dois maiores filmes, o premiado (com o Oscar) O Franco Atirador, sobre os efeitos da Guerra do Vietnã numa pequena cidade da Pensilvânia, e O Portal do Paraíso, western desmistificador em que imigrantes europeus confrontam latifundiários - famoso por levar a empresa United Artists à bancarrota.

Há outra mostra, Seis Vezes Roberto Rossellini, em homenagem à Cinemateca de Bolonha, com obras restauradas do autor - Roma Cidade Aberta, La Paura, Viagem à Itália, Índia, etc. É sempre arriscado dizer isso, mas Rossellini é sempre mais importante que bom, um autor influente, mas cujos filmes não resistem muito bem - nem todos, pelo menos.

E há a Première Brasil, menina dos olhos do Festival do Rio - e do próprio repórter. É diferente assistir a um filme brasileiro com première mundial no Rio. Nenhum outro festival reproduz esse calor, essa vibração. Depois de duas - mais ou menos, menos que mais - incursões pela política, com O Fim e os Meios, de Murilo Salles, e Prometo Um Dia Deixar Essa Cidade, de Daniel Aragão -, a Première Brasil deslanchou no sábado com dois belíssimos programas, um na seção Novos Rumos, outro, na competição. São 69 filmes concorrendo, entre longas, curtas e documentários.

Chama-se Trem Chic a produtora de Éder Santos, com a qual o produtor André Hallak e ele fizeram Deserto Azul. Mineiramente falando, pode-se dizer que o trem chique é o filme, talvez o mais difícil objeto de identificar do cinema brasileiro recente. Uma ficção científica realizada com sofisticação, Deserto Azul mostra a trajetória de um personagem (através da transcendência?) por meio de universos imaginados e paralelos, que o diretor constrói com videoinstalações de 11 artistas contemporâneos.

Baseado num texto de Yoko Ono - e ela aprovou o resultado -, Deserto Azul baseia-se no princípio da repetição e em sucessivas viagens (interiores?) que ‘ele’ (o personagem não tem nome) realiza para elevar sua consciência e decifrar os mistérios da alma e dos sentimentos. Prepare-se para o choque. Para ver Deserto Azul, é preciso ir munido de seu celular, que vai funcionar como tela auxiliar. Por meio de um endereço xis, é possível acessar o tempo todo informações que complementam a grande tela. Se o público hoje não desliga do celular, Éder Santos o agrega. E faz história.

Chico Teixeira admitiu para o repórter que estava nervoso, roendo as unhas, do lado de fora da sala que exibia seu novo longa, Ausência. Talvez o título não seja o melhor, mas o filme é. Depois de A Casa de Alice, outro retrato de família desestruturada, uma mãe enlouquecida, carente, bêbada e um filho inseguro sobre sua identidade sexual. A ausência é a do pai (que sumiu), da mãe (que deserta dele). O garoto procura afeto no professor gay. Parece que o filme vai por um rumo, mas toma outro. Algo se passa no cinema brasileiro, e só pode ser um espelho do Brasil. Os melhores filmes do ano têm temática GLBT - Praia do Futuro, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, Ausência. O festival do Rio fez bem ao instituir o troféu Félix. Só falta chamar Mateus Solano, da novela Amor à Vida, para entregá-lo.

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