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Mostra Mundo Árabe celebra o diálogo do cinema com outras artes

A edição deste ano, que começou na quarta, 12, é a maior desde o início da realização do evento

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

14 Agosto 2015 | 17h13

É muito interessante que a Mostra Mundo Árabe, que este ano chega à sua décima edição, e o Festival de Cinema Judaico de São Paulo ocorram no mesmo mês de agosto, com poucos dias de diferença. A Mostra Mundo Árabe abriga, agora em caráter permanente, uma seleção de filmes palestinos e os embates nos territórios ocupados continuam sendo uma das tragédias não apenas do Oriente Médio, mas da Terra.

A edição deste ano da Mostra Árabe, que começou na quarta, 12, no Cinesesc (o Festival Judaico ocorre em poucos dias) é a maior desde o início da realização do evento. Terá 30 filmes distribuídos em cerca de 100 sessões e, além de São Paulo, será realizada também no Rio, em Belo Horizonte e Vitória. O longa de abertura foi o marroquino Sotto Voce, de Kamal Kamal, que teve direito a um debate com o cientista social Miguel Chaia, da USP. A mostra celebra o diálogo do cinema com as outras artes - literatura, música e teatro -, propondo uma reflexão sobre a forma como ajudam os autores (e o espectador) a entenderam o complexo mundo moderno.

Aproveitando uma dupla comemoração - os 80 anos do escritor Raduan Nassar e os 40 de seu livro Lavoura Arcaica -, a mostra vai abrir espaço para uma homenagem. Dela vão participar outro escritor fundamental, Milton Hatoun. E claro que, sendo uma mostra de cinema, haverá a exibição de Lavoura Arcaica, que Luiz Fernando Carvalho adaptou do livro, com interpretações de Raul Cortez, Selton Mello, Simone Spoladore, Juliana Carneiro da Cunha e Leonardo Medeiros. Ambos, a exibição e o encontro com Hatoum, serão na noite desta sexta, 14. De forma não linear, o filme, de 2001, conta a história do filho pródigo, que abandonou a família e é localizado pelo irmão numa pensão ordinária.

Num fluxo desordenado de consciência, André conta a Pedro - são os nomes dos dois - os motivos do seu abandono. Ele não aguentou a pressão do patriarca, que quer manter todo o mundo sob seu jugo, preso às tradições e arraigado à terra. Para complicar, a negação da irmã, por quem André nutre uma paixão incestuosa, aumenta seu desespero. Será curioso voltar a Lavoura Arcaica, o filme, com sua (des)construção do tempo e do espaço e lembrar que, naquele mesmo ano, surgiu outro filme emblemático do que então ainda se chamava de ‘Retomada’ - Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky, em que outro filho, o Netto de Rodrigo Santoro, quase perdia sua alma sob o jugo de um pai também opressor.

Não é preciso ser teórico nem mesmo crítico para afirmar que o cinema, como veículo de comunicação (e até entretenimento), abre janelas para a compreensão do mundo, e do outro. Os filmes programados, avalia op curador Geraldo Adriano Godoy de Campos, desestabilizam referências que a maioria das pessoas tem como certas sobre a dicotomia Oriente/Ocidente. “São filmes políticos que abordam questões próprias que compõem a realidade do Mundo Árabe e do Oriente Médio. Mas também é política a constatação de que outras questões humanas e sociais que esses filmes abordam são universais, e falam também de nós.”

São filmes que tratam das mudanças no mundo árabe. Theeb, de Abu Nowar, é sobre o momento em que o império otomano desmorona e os ingleses consolidam seu poder na região. Tudo é visto pelos olhos de um menino, e a marcha da história é representada pela chegada do trem. Água Prateada - Autorretrato da Síria é sobre um país em transe e os múltiplos registros da violência. A morte é banalizada por registros de celular e I-Pad. Festival Pan-africano de Argel é sobre um festival de música que virou pororoca por mudanças comportamentais e artísticas. Como convidados, a Mostra Mundo Árabe traz, entre outros, o produtor musical Brahim El-Mazned, muito interessado em discutir essas mudanças, e novas tendências.

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