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Mostra de Cinema de SP tem 'Loveless', do russo Andrei Svyagintsev, como grande destaque

Svyagintsev está no mesmo plano de Sergei Loznitsa. Fez O Retorno, Leviathan e prossegue sua investigação sobre a Rússia pós-comunista de Putin com essa história de família disfuncional.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2017 | 06h00

Selecionada pelo voto popular, a 41.ª Mostra já tem sua seleção de filmes que concorrem ao Prêmio Bandeira Paulista, a ser anunciado na quarta, 1.º. O júri internacional, integrado por Diego Lerman, Erin Riklis, Henk Handloegten, Luis Urbano e Marina Person, já está a postos e começa a ver os filmes neste sábado. Dois são brasileiros – O Beijo, que o ator, também diretor Murilo Benício adaptou da peça O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues, e Meu Tio e o Joelho de Porco, de Rafael Terpins. O restante da lista – 12 títulos – estará no fim do texto.

A grande atração do sábado é o filme do russo Andrei Svyagintsev, Loveless, que terá apenas uma exibição no evento. Sorry, mas você nem precisa correr ao Cinearte 1, às 21h50, na tentativa de conseguir um ingresso, porque a lotação está esgotada. Existem alguns talentos muito especiais no cinema russo contemporâneo.

Svyagintsev está no mesmo plano de Sergei Loznitsa. Fez O Retorno, Leviathan e prossegue sua investigação sobre a Rússia pós-comunista de Putin com essa história de família disfuncional. Pai e mãe vivem um processo litigioso de separação. O filho perde-se em meio a esse processo. Algo ocorre com ele, e esse ‘algo’ possui 1.001 significados – humanos e políticos. Encerra uma crítica poderosa à desumanidade desses tempos sem amor.

A caminho de casa, o menino passa por uma árvore. Perde uma peça da roupa e, no desfecho, voltam a árvore e a roupa. O sentimento é de desolação. Loveless talvez tenha sido o melhor filme da competição de Cannes, em maio, mas o júri presidido por Pedro Almodóvar preferiu premiar The Square, que também está na Mostra (e terá sessão no domingo, no Cinearte 1, às 21h15).

Svyagintsev faz seu filme mais duro e pungente. Magnífico. Sobre um tema parecido – outro garoto colhido na disputa dos pais no tribunal –, o francês Xavier Legrand fez Custódia, que ganhou o prêmio de direção em Veneza. Custódia está entre os selecionados pelo público para passar pelo crivo do júri, na disputa pelo Troféu Bandeira Paulista. Terá sessões no domingo (Espaço Augusta 1, 19h50) e na segunda (Cinesala, 17h30).

Para permanecer no tema ‘criança’, existem algumas cenas muito fortes no novo filme de Amos Gitai, A Oeste do Rio Jordão. Gitai é um amigo da Mostra, como o foi Manoel de Oliveira. Quase toda, e na verdade toda a obra do autor de Israel tem passado no evento, e o próprio Amos veio muitas vezes a São Paulo para apresentar seus filmes.

A Oeste do Rio Jordão retoma a discussão sobre as divisões entre palestinos e israelenses que alimentam o impasse no Oriente Médio. Gitai não é nem um pouco condescendente com os ortodoxos. Por mais que critique os palestinos, ele lembra que foi um judeu que matou o ex-premier Yitzhak Rubin, que conduzia um processo de paz com o dirigente da OLP, Yasser Arafat. Numa cena, ele conversa com um garoto palestino que lhe fala sobre seu sonho – ser mártir. Como e por que uma criança pode pensar que sacrificar a própria vida seja o melhor que ele pode fazer para si mesmo e o mundo?

Quase como uma consequência dessa pergunta, Gitai conversa com mulheres que tiveram seus maridos e filhos mortos nessa guerra sem fim. Como se enfrenta uma dor tão grande? O vazio pode ser superado, como? É outro belo filme de Gitai. Passa no Frei Caneca 1, às 22h10. E, claro, não se pode esquecer de Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes, às 21 h, no Frei Caneca 1.

Gomes reinventou a estética da fome do Cinema Novo. Seu filme, talvez o maior desde a Retomada, foi feito em película e restaurado digitalmente. Está nos trinques. E, para encerrar, a lista dos filmes que concorrem ao prêmio principal da Mostra, menos os brasileiros – e Custódia. Restam 11 títulos – A Arte de Amar, de Maria Sadowska, da Polônia; A Floresta, de Roman Zinghalov, Rússia; A Jornada Final, de Nick Baker-Monteys, Alemanha; Além, de Onur Saylak; Dede, de Mariam Katchavani, Geórgia/Croácia; Django, de Etienne Comar, França; Mulheres Divinas, de Petra Volpe, Suíça; O Pacto de Adriana, de Lissette Orozco, Chile; O Último Traje, de Pablo Solarz, Espanha/Argentina; Oh Lucy!, de Atsuko Hirayanagi, Japão; e Sem Data, Sem Assinatura, de Vahid Jalilvand, Irã.

DICAS DO SÁBADO, 28

Torquato Neto – Todas as Horas do Fim

Eduardo Ades e Marcus Fernando resgatam o poeta e músico que foi grande no movimento da Tropicália e se suicidou aos 28 anos. Gil, Caetano e Jards Macalé dão depoimentos viscerais. Frei Caneca 2, 19h10

 

Henfil

Ângela Zoé conta a história do cartunista que morreu em 1988 e era grande por sua arte, mas foi imortalizado na voz de Elis Regina em O Bêbado e a Equilibrista. Espaço Augusta Sala 1, 20 h

24 Frames

O filme póstumo do iraniano Abbas Kiarostami é uma obra experimental formada por 24 curtas de 4 e meio minutos cada um, inspirados em imagens de fotos e pinturas. Embora meio parado, é de uma beleza de cortar o fôlego. Frei Caneca 2, 21h20

 

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