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Cultura

Ettore Scola

Morre o diretor italiano Ettore Scola

Cineasta de 'Nós que Nos Amávamos Tanto' tinha 84 anos

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Luiz Zanin Oricchio,
O Estado de S.Paulo

19 Janeiro 2016 | 20h10

Ettore Scola morreu ontem, aos 84 anos. Estava internado no departamento cardiológico do hospital Policlino, onde estava em coma desde domingo. Com ele, morre um dos últimos remanescentes da grande tradição cinematográfica italiana.

Scola nasceu no dia 10 de maio de 1931, em Trevico, e estudou Direito em Roma. Estreou no cinema em 1964 com a comédia Fala-se de Mulheres. 

Diretor de cunho humanista, Scola mantinha contato com a geração do neorrealismo italiano, embora fosse novo demais para fazer parte do movimento, inaugurado em 1945 com Roma - Cidade Aberta, de Roberto Rossellini. 

Scola conviveu mais com a segunda geração do neorrealismo, em particular com Federico Fellini de quem foi colega de jornal e, em seguida, parceiro de cinema. Esses fatos estão descritos no último filme de Scola e que agora fica como seu testamento - o comovente Que Estranho Chamar-se Federico.

Aliás, Fellini faz uma ponta em um dos maiores filmes de Scola, Nós que nos Amávamos Tanto (1974), sensível balanço de geração que havia sonhado com um mundo melhor e agora via-se obrigada a fazer um balanço de fracassos, que, no entanto, não excluía a ternura e o consolo da amizade.

Artista de orientação política de esquerda, Scola era atento aos conflitos e contradições sociais, sem, por isso, esquecer o caráter frágil e humano de seus protagonistas. Por isso, outro de seus melhores filmes é Feios, Sujos e Malvados (1976), em que descreve a brutalidade dos desvalidos, sem apelo a caricaturas ou ao bom-mocismo da caridade cristã. Talvez seja, de sua obra, o filme que mais dialogue com outro gigante, o espanhol Luis Buñuel.

Em outro registro, em Um Dia Muito Especial (1977), mostra como é possível fazer a síntese de dramas pessoais e tragédias coletivas.Sophia Loren faz a boa esposa italiana, que permanece em casa enquanto marido e filhos vão assistir (e aplaudir) o encontro entre Mussolini e Hitler, selando a aliança entre o Duce e o Führer. No prédio, fica apenas mais um inquilino, desinteressado daquela festa fascista: o homossexual vivido por Marcello Mastroianni. Os dois se aproximam, nesse dia muito especial, mas são incapazes de abandonar seus respectivos casulos emocionais.

Temas históricos sempre interessaram a Scola, mas vistos por sua ótica particular e de maneira sempre pessoal. Assim, em Casanova e a Revolução (1982), escala de novo Mastroianni para viver o arquétipo do sedutor, Giacomo Casanova, agora envelhecido. 

Dialogando agora com John Ford de No Tempo das Diligências, faz de uma carruagem uma espécie de microcosmo da Europa durante a Revolução Francesa. Como pano de fundo, a prisão do casal real, Luis XVI e Maria Antonieta, numa pequena cidade, quando tentavam deixar o país (no original francês, o título é La Nuit de Varennes).

Em O Baile, ousa ao fazer de um salão de danças outro microcosmo, o da sociedade italiana, mostrada em suas passagens históricas mais marcantes. Sem diálogo, apenas com música e atores. Numa das cenas mais tocantes, um antigo bailarino, o mais hábil do salão, insiste em dançar, mesmo tendo perdido uma perna numa das trágicas guerras europeias.

Scola reflete sobre diversos temas do seu tempo - a crise do cinema em Splendor (1988), a débâcle do Partido Comunista Italiano em face do neoliberalismo dominante em Mario, Maria e Mário (1993), o caráter acachapante da desigualdade social em A História de um Jovem Homem Pobre (1995), a brutalidade da competição, eleita como sal da terra em um mundo que perdeu sua alma em Concorrência Desleal (2001).

Numa carreira de tantos pontos altos, é difícil encontrar os cumes dessa trajetória magnífica. Talvez esteja num conjunto de obras. Nós que nos Amávamos Tanto, Um Dia Muito Especial, Casanova e a Revolução e este extraordinário A Viagem do Capitão Tornado (1991), com uma atuação magnífica de Massimo Troisi como Pulcinella.

Scola participou do Festival de Veneza de 2013 com Que Estranho Chamar-se Federico, celebração da amizade entre ele e Fellini. O filme provocou uma torrente de lágrimas emocionadas na plateia. Na entrevista, Scola estranhou aquela reação. Disse que tinha feito um filme feliz para lembrar seu amigo no 20º aniversário de sua desaparição. Perguntou: “Lamentamos quando se vai alguém que nada conseguiu realizar. Mas lamentar Federico, que teve uma vida completa?” Talvez o que disse a propósito de Fellini se aplique a si mesmo. Obrigado, maestro.

Trailers dos filmes

O Comissário Pepe (1969)

Nós que Nos Amávamos Tanto

Que Estranho Chamar-se Federico

A viagem do capitão tornado

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