Morre aos 76 anos o ator Breno Melo, de 'Orfeu do Carnaval'

Melo era jogador do Fluminense quando foi descoberto e se tornou protagonista do premiado filme

Luiz Zanin Oricchio, de O Estado de S. Paulo,

31 Dezembro 1969 | 21h00

Breno Melo era jogador do Fluminense quando foi descoberto pelo diretor francês Marcel Camus e se tornou o protagonista de Orfeu do Carnaval, um dos filmes rodados no Brasil mais famosos em todo o mundo. Breno morreu nesta segunda-feira, 14, em Porto Alegre, com 76 anos. Orfeu foi o grande papel da sua vida e, a cada data redonda do filme, era procurado para dar seu depoimento. Orfeu do Carnaval, baseado na peça de Vinicius de Moraes, foi filmado no Rio e ganhou alguns dos principais prêmios do cinema, como a Palma de Ouro em Cannes, em 1959, o Globo de Ouro e o Oscar de filme estrangeiro, em 1960.   Breno conta que estava passeando no Rio, à beira-mar, quando um francês veio conversar com ele. "Pensei que fosse uma abordagem gay", disse em entrevista ao Estado. Não era nada disso. O francês era Marcel Camus, um apaixonado pelo Brasil que se encantara pela peça de Vinicius, uma adaptação do mito grego à favela carioca. A convite de Camus, Breno foi fazer um teste e, aprovado, trocou o gramado verde pelo set de filmagem.   É uma boa atuação para um ator "natural" - ou seja, sem experiência anterior. Contracena com a norte-americana Marpessa Dawn, a Eurídice, nas principais cenas da história. O curioso é que Camus escalou outro esportista para o papel da Morte: o campeão olímpico de salto triplo Adhemar Ferreira da Silva.   O filme mostra um Rio idealizado, com favelas estilizadas e uma população disposta a cantar e a dançar a qualquer hora do dia ou da noite. Inclusive no interior de um bonde, veículo conduzido por Orfeu. Ele se apaixona por Eurídice durante o carnaval e o desfecho do amor será trágico, como na lenda grega.   Orfeu não tinha mesmo muito como agradar aos brasileiros na época em que foi lançado. Em 1959, Nelson Pereira dos Santos já havia mostrado seu retrato realista (ou melhor, neo-realista) do País no díptico Rio Quarenta Graus (1955) e Rio Zona Norte (1957). Orfeu parecia fantasioso demais para uma época que pedia às obras o gume do realismo crítico.   Isso não impediu que fosse premiada e amada mundo afora. Um dos fãs atuais é Barack Obama que conta, em sua autobiografia, do apreço de sua mãe, Stanley Ann Dunham, por aquela visão exótica do Rio proposta por Camus, embalada pelas músicas de Tom Jobim e Luiz Bonfá.   Breno tinha orgulho desse trabalho, que, apesar das críticas, permanece na memória cinéfila. Sua última aparição na tela foi no documentário Renner - O Papão de 54, de Alexandre Derlam, sobre o time em que jogou e foi campeão gaúcho de 1954, quebrando a hegemonia da dupla Grenal. Breno morreu só, em sua casa em Porto Alegre, situada num bairro chamado Tristeza.

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