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ENTREVISTA: Morena Baccarin

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Rio de Janeiro

Morena Baccarin se firma em Hollywood com o filme 'Deadpool'

Atriz carioca se mudou para Nova York aos 7 anos

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Pedro Antunes

09 Fevereiro 2016 | 05h00

Morena Baccarin ainda não perdeu o sotaque característico do Rio de Janeiro. Ele é tímido, aparece pouco e só quando ela se permite falar em português. No inglês, soa como uma nativa. Compreensível para alguém que deixou a cidade natal para rumar em direção a Nova York, nos Estados Unidos, aos 7 anos. Não é a primeira entrevista para a imprensa brasileira da atriz de 36 anos, cujo nome já circula com destaque desde o fim da última década, com o sucesso na TV norte-americana em séries como V (de ficção científica) e Homeland. Agora, a carioca está prestes a dar um passo grande rumo à popularidade ainda maior. E, desta vez, por um pedido do agente, ela deveria responder às perguntas do Estado em inglês. 

Em Nova York onde vive e grava suas participações na série Gotham, protagonizada pelo marido Ben McKenzie, Morena se prepara para dar o maior pulo da carreira ao experimentar a superexposição ao integrar um blockbuster baseado em personagens de histórias em quadrinhos. Nesta quinta-feira, 11, ela estará nas telonas em Deadpool, o filme do anti-herói da Marvel Comics vivido por Ryan Reynolds. 

Não se trata de um filme de HQ tradicional. Deadpool não repreende os companheiros de cena por falarem algum palavrão - como Capitão América em uma patética cena de Os Vingadores - A Era de Ultron. Deadpool é escatológico, sem limites. Sua companheira também. 

Morena interpreta Vanessa Carlysle, uma prostituta que conheceu o anti-herói quando ele era apenas um mercenário com mais humor do que o necessário. Encontram-se em um bar frequentado e a relação de ambos se constrói, curiosamente, em uma competição para determinar qual deles teve a infância mais difícil. “É divertido que a dinâmica dos dois seja construída dessa miséria”, ela explica. 

Por mais que não seja um longa de amor, é a relação entre Wade Wilson (quem posteriormente assume o nome de Deadpool) e Vanessa a responsável por dar o fio narrativo à trama. Quando descobre ter um câncer terminal espalhado por todo o corpo, Wilson abandona Vanessa e ingressa em um projeto que prometia curá-lo. No fim, seu corpo se tornou capaz de se reconstituir, mas deformou o rosto do herói (ou melhor, anti-herói, corrigindo a força do hábito). 

O filme faz piadas com todos, inclusive personagens da Marvel e da Fox, estúdio que detém os direitos de Deadpool, X-Men e Quarteto Fantástico. “É uma produção interessante, justamente por isso”, ela defende. “O longa não tem medo de ofender personagens, não existe barreira. Ninguém está a salvo. Não é um filme de super-herói.” 

Morena, mais uma vez, não interpreta a moça indefesa. “Pelo contrário, ela está brava com Wilson porque ele a largou”, diz a atriz. “É uma personagem diferente. Ela é forte, sexy, engraçada. E, ainda assim, há algo de sombrio nela. Vanessa não teve uma vida fácil, também não permite que isso a deixe abatida. Ela não é uma dama indefesa que precisa ser salva. É bem diferente daquele estereótipo da garota bonita dos filmes.” 

Hollywood está mudando e, aos poucos, igualando os gêneros. A brasileira é figura que desponta nesse acerto da indústria do entretenimento. Começou em musicais e peças em Nova York, foi substituta de Natalie Portman, certa vez, mas decidiu tentar papéis melhores do outro lado da costa norte-americana, em Los Angeles. Em sete dias, conseguiu abocanhar um personagem na série Firefly.

Tornou-se figura nas telinhas com pontas e participações em produções como How I Met Your Mother, The O.C., Justice, Serenity, Stargate SG-1, Numb3rs, entre tantas outras. Nada substancial até V, a ficção na qual ela foi escalada para protagonista, em 2009. Dois anos depois, na premiada Homeland, conseguiu sua primeira e até agora única indicação para o Emmy. O cinema chegou recentemente, com o divertido A Espiã Que Sabia de Menos (2015) e, agora, Deadpool. 

Também é sinal de novos tempos uma brasileira com a chance de interpretar uma personagem que não seja injetada de estereótipo. “No começo, as pessoas queriam saber o que significava meu nome, de onde veio, coisas assim, mas a indústria já mudou muito”, ela avalia. “São tantos atores brasileiros trabalhando por aqui. Americanos estão indo para a Europa. O mundo está ficando menor.” 

A filmagens, no início de 2015, aconteceram meses antes de ela engravidar pela segunda vez - atualmente, ela está no segundo trimestre da gravidez. Seu nome figurou recentemente em publicações dedicadas às vidas das celebridades por conta dos bastidores do fim do relacionamento com o ex-marido, o diretor Austin Chick, mas perguntas pessoais são proibidas durante o papo por telefone. 

Morena, contudo, não se coloca em um pedestal. Ri com frequência e até se esquece da regra de falar inglês em algumas oportunidades. Admite que nem sequer sabia o que significava Deadpool, antes de ler o roteiro. “Em ficção científica, eu gostava de Star Wars”, ela afirma, para o suspiro dos fanáticos pela saga de George Lucas. “Meu irmão gostava de ler quadrinhos. Para mim, não era a minha”, ela diz. A brasileira cita Labirinto, filme estrelado por David Bowie, como outro favorito na juventude. O músico, ela confessa, tem sido frequente nos seus fones de ouvidos nos últimos dias, quando a trilha sonora não é alguma canção infantil preferida do primogênito Julius, de 2 anos. “Para mim, Bowie é o maior artista de todos”, diz. “Mas também gosto de ouvir a rádio NPR para escutar música indie.”

Filme é anti-herói até no gênero e garante boas risadas

Não se confunda. Você já pode ter visto Ryan Reynolds como Deadpool no cinema antes. O personagem foi mostrado no filme X-Men Origens: Wolverine, mas tamanha foi a descaracterização do personagem que foram capazes de costurar os lábios do anti-herói conhecido pelo lado falastrão. E a carreira de Deadpool no cinema estaria fadada a essa versão tosca do filme de 2009 não fossem os fãs do mercenário da Marvel. 

Na época, falou-se sobre um filme solo, mas o desastre foi tamanho que a Fox tirou a produção da tomada. Um vídeo de teste, no qual Ryan Reynolds também atuava como o mascarado e dirigido por Tim Miller, chegou à rede e a reação foi tão boa que a Fox embarcou no projeto. Deadpool, enfim, ganha o tratamento que merece.

O filme que chega aos cinemas nesta quinta-feira, 11, é exatamente tudo aquilo que filmes de heróis, estilo que caminha para se tornar um gênero de cinema, não são. Não são apenas frases de efeito, às vezes engraçadas, e um vilão para derrotar. Deadpool é movido a vingança, suas ações são extremamente violentas e, com frequência, ele quebra a quarta parede (e fala diretamente com o público). 

Deadpool não é apenas um anti-herói. É um anti-filme-de-super-herói na essência. E isso é uma ótima notícia. A narrativa salta do presente para o passado com agilidade, sem causar estragos. O drama da doença de Wade Wilson, sua dor ao se transformar no abominável personagem título, não trazem sombras demais ao filme. E, as referências aos personagens de outros longas de heróis, como o próprio Deadpool de 2009 ou o Lanterna Verde vivido por Reynolds em 2011, tiram o público da sua posição confortável. Deadpool não poupa nem mesmo a própria Fox, que criou duas linhas temporais no cinema com seus X-Men. Nada está a salvo com o mercenário que usa vermelho para que “os caras ruins não vejam que ele está sangrando”. E os filmes de heróis nunca mais serão os mesmos depois dele. 

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