Mariana Vianna
Mariana Vianna

Miguel Falabella filma seu novo longa, 'Veneza', no Uruguai e na Itália

Longa é inspirado em Gabriel García Márquez

Rodrigo Fonseca, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2018 | 20h39

Numa conversa de corredor, em frente do camarim onde a diva espanhola Carmen Maura ajeita seu figurino, dois técnicos uruguaios da equipe de Veneza, longa rodado por Miguel Falabella em Montevidéu, olharam para o cenário de um velho bordel à sua frente e comentaram, trocando sorrisos cinéfilos: “Fellini ia se sentir em casa aqui, né?”.

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Quem ouviu concordou de cara. Toda hora, o santo nome do diretor de Amarcord (1973) é evocado por Falabella, cada vez que ele avalia um plano iluminado pelo fotógrafo Gustavo Hadba a partir de uma troca quase simbiótica entre os dois sobre cores, texturas e fantasia. Tem um clima de Noites de Cabiria (1957) na trama inspirada na peça homônima do argentino Jorge Accame, assim como de A Voz na Lua (1990). Mas a cinefilia evocada no (descontraído) set, no qual a musa de Pedro Almodóvar vive a cafetina cega Gringa, vai além dos códigos fellinianos, com citações à estrela mexicana María Félix, ao carrossel japonês Dodeskaden (1970), de Akira Kurosawa, à dor de cotovelo de Desencanto (1945), de David Lean e às excentricidades de Peixe Grande (2003), de Tim Burton. 

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“Sei que o Miguel é um homem de teatro e um ator muito popular na TV, mas quando você olha para todo esse cenário e sente o tom fabular em torno de tudo, não tem como dizer que o responsável por isso aqui não seja um cineasta: Falabella é do cinema sim. Entende o valor do trabalho de equipe numa produção cinematográfica e entende o simbolismo mágico que a América Latina carrega”, define Carmen Maura, hoje com 72 anos, pouco antes de ensaiar passos de dança com o diretor, marcando um bolero que Gringa dança com Jerusa (Daniele Winits), uma das beldades do prostíbulo que serve de centro nervoso ao enredo. “Gringa pode ser má. Fez maldade no passado. Mas é alguém com orgulho de ser prostituta”.

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Ao papear com Carmen e as demais “meninas de Gringa” sobre como é a vida naquele fim de mundo onde as personagens trabalham - tendo na experiente garota de programa Rita (papel de Dira Paes) o esteio racional da casa -, Falabella vai além do cinema. Fala de música, de poesia e da prosa de Gabriel García Márquez, um dos parâmetros ficcionais do projeto, orçado em cerca de R$ 8 milhões. “Isso aqui é minha Macondo”, diz o diretor, citando aquilo que o escritor colombiano definia como uma “aldeia de 20 casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas”, para dar a dimensão do cenário de seu Cem Anos de Solidão. “Há uma viagem neste filme de uma mulher que sonha voltar ao o lugar onde, um dia, foi amada de verdade e botou esse amor a perder, por dinheiro. Essa viagem, encenada por seus amigos, é uma metáfora que resgata o fantástico da latinidade.”

Baseado na premissa de Accame, o roteiro tem espaço de sobra para a imaginação: sem poder enxergar, Gringa não vê a ruína de seu cabaré, mas sente o peso do tempo e da culpa acerca da traição que cometeu contra seu amor de juventude. Seu sonho é voltar a Veneza e pedir perdão a ele, reatando o romance. Contudo, não há dinheiro para custear sua viagem. Mas, numa hora de necessidade, boas ideias valem ouro: fiel cliente colaborador do bordel, Tonho (Eduardo Moscovis) vai ajudar Gringa a chegar à terra das gôndolas, ainda que no faz de conta. “É difícil ter lugar para o fantástico em nosso cinema por uma questão de educação formal: para fazer uma fábula, você tem que ter lido, pelo menos, A Moreninha. E nem isso acontece num quadro de evasão escolar, de pouca leitura, como o de nosso país hoje. Daí, o mercado se ressente, mas que a fábula seja parte de nós, latinos”, diz Falabella, apoiado por Carmen.

“Tudo nesse continente parece mágico”, diz a atriz, que Falabella conheceu vendo A Lei do Desejo (1987) e que decidiu convidar num rompante de coragem, enviando o roteiro do filme a ela, por intermédio de um agente. “Gostei da história e da maneira suave como ele dirige. Miguel chora quando uma cena o emociona. É bonito de ver.”

Numa visita ao terreno em Montevidéu onde as filmagens foram realizadas, antes de uma passagem pela Itália, Falabella foi fisgado pelas grades que cercam (ou adornam) diferentes cômodos do casarão em que roda o longa, com uma equipe do Uruguai. Passou a usar as grades como um conceito visual para Veneza: várias tomadas são enquadradas a partir de frestas, vistas de grades. 

“Este continente está confinado em si mesmo, preso em suas contradições”, diz Falabella, que trabalha numa troca criativa afinada com Julio Uchôa, o mesmo da franquia milionária SOS - Mulheres ao Mar

“Aqui tem sonho, tem homenagens ao cinema, mas tem também o desejo de ver uma fábula fazer sucesso de bilheteria no Brasil”, diz Uchôa, que teve Fernando Muniz (de Cinema Novo) como coprodutor e tem a Imagem Filmes como distribuidora. “Estamos trabalhando para isso, pois essa é uma história que fala aos sentimentos”.

A vontade de filmar Veneza veio da sensação que Falabella teve quando adaptou o texto no Teatro dos Quatro, no Rio, em 2003, com Laura Cardoso no papel hoje dado a Carmen Maura. “O teatro tem uma liberdade poética única. Mas tem uma magia nessa história que é típica do cinema, mas algo que precisa ser feito de uma maneira não realista: a vida das personagens é desgraçada, mas eu não olho para elas desgraçadamente. Eu olho com beleza e encanto”, comenta Falabella. “Quero que as pessoas saiam do cinema de olhos marejados.” 

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