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Marina Person roda 'Califórnia', seu primeiro longa de ficção

João Fernando - O Estado de S. Paulo

16 Junho 2014 | 03h 00

Cineasta corre atrás de patrocínio para a finalização

 Os adolescentes sempre foram atrás de Marina Person nos 16 anos em que ela ficou à frente das câmeras na antiga MTV Brasil. Entretanto, a situação se inverteu quando, anos depois, a apresentadora saiu em busca de elenco para Califórnia, seu primeiro longa de ficção, que trata de questões de jovens com hormônio em ebulição. Só de testes foram 172 gravados.

“Não existe elenco adolescente conhecido. É legal pegar alguém do zero, pois queria uma coisa naturalista e sem vícios. Um ator com experiência nessa idade é mais difícil de moldar do que quem não tem experiência nenhuma”, analisa a diretora, que escalou os novatos Clara Gallo e Caio Horowicz, ambos com 18 anos, para protagonizar o filme. Entre os rostos conhecidos estão Caio Blat, Paulo Miklos e Virgínia Cavendish.

Aline Arruda/Divulgação
Marina Person (D) orienta o elenco de "Califórnia"

Ambientada em 1984, a história gira em torno de Estela (Clara), cujo sonho é viajar para a Califórnia, onde mora seu tio Carlos (Caio Blat), com quem troca cartas e informações sobre as novidades musicais da época. A jovem, porém, vê os planos mudarem quando ele aparece debilitado no Brasil, infectado pelo vírus HIV. Paralelamente, ela tem a experiência do primeiro amor com JM (Caio Horowicz), o esquisitinho recém-chegado à escola.

Apesar de abordar a aids, Marina avisa que não se aprofundará no tema no longa. A questão, porém, é uma das memórias de sua juventude. “Eu me lembro de uma capa de revista com a manchete ‘a peste do amor’. Pensei: ‘Que sacanagem. Agora que chegou a minha vez, vou ter que viver com isso?’ Eu tinha muito medo. Usava camisinha, mas tinha medo mesmo assim. Fazia o exame várias vezes. Era uma sentença de morte, hoje não é mais. A minha geração não começou a vida sexual com camisinha. Quem foi adolescente nos anos 1990, sim.”

Os dilemas dos personagens adolescentes do longa não estão muito distantes dos atores. “Há uma cena em que as amigas falam do medo de perder a virgindade, que é uma coisa pela qual a gente já passou. A Marina nem escreveu uma dessas cenas, improvisamos”, explica Clara. A cineasta, que assina o roteiro com Chico Guarnieri e Mariana Veríssimo, reconhece pontos de sua trajetória na trama. “Vira e mexe, falo que esse filme não é autobiográfico, mas tem elementos. Há coisas que eu esqueço. Inventei uma cena na hora e falaram que era um absurdo. Eu pus e tinha esquecido que aconteceu comigo. Tem bastante coisa da minha adolescência ou de pessoas próximas a mim.”

Sem ter vivido nos 1980, os atores foram apresentados à música da década. “Aprendi mais sobre The Cure, por quem o JM é obcecado. Eu só conhecia uma música. Sempre imaginei uns caras com umas roupas super coloridas cantando”, confessa Caio Horowicz. “David Bowie eu nunca tinha ouvido”, entrega Clara Gallo. 

Imbróglio. A trilha sonora é um dos pontos-chave para a conclusão do filme. Com as filmagens encerradas em abril, a finalização está emperrada. “Tenho de conseguir mais R$ 1 milhão para ter músicas com que sonho”, contou Marina ao Estado, citando bandas como The Smiths entre as desejadas. Apesar do alto valor para terminar o projeto, a equipe da produtora Mira Filmes conseguiu reduzir o orçamento inicial de R$ 3 milhões para R$ 900 mil, verba com que foi rodado. “Limpei, tirei cenas. Quando olho para trás, vi que não faziam falta.” 

Califórnia foi uma criação da cineasta que levou dez anos para acontecer. Em 2004, ela anotou em um caderno de ideias que gostaria de fazer um roteiro ambientado nos anos 1980. Em seguida, passou meses em reuniões semanais com amigas para desenvolver as criações. Para agilizar, convocou uma roteirista e venceu um prêmio em dinheiro, o pontapé inicial. 

Marina viveu situação semelhante ao filmar Person, documentário sobre seu pai, o também diretor Luis Sérgio Person, que levou anos para ser concluído. Enquanto tenta captar verba, a paulistana segue apresentando o Metrópolis, na TV Cultura, a terceira temporada de O Papel da Vida, do Canal Brasil, e trabalha como atriz no longa Voltando para Casa, de seu marido, Gustavo Rosa de Moura. No YouTube, ela protagoniza Marinando, vídeos e em que ensina receitas rápidas.