Todd Heisler/The New York Times
Todd Heisler/The New York Times

Margot Robbie fala sobre como 'Eu, Tonya' retrata abuso doméstico

'A pior coisa sobre um relacionamento abusivo doméstico é que se torna um círculo vicioso', diz a atriz

Cara Buckley, The New York Times

04 Fevereiro 2018 | 06h00

Margot Robbie adorou o roteiro de Eu, Tonya, o filme transgressor, basicamente aflitivo sobre a patinadora americana Tonya Harding e o ataque contra sua rival, a patinadora Nancy Kerrigan, nos Jogos Olímpicos de Inverno, em 1994.

Mas a atriz temia que ninguém a deixasse interpretar o papel principal, não só porque Robbie é australiana. “Eu sempre tenho síndrome de impostora com qualquer um dos meus personagens”, ela me contou em uma entrevista no Greenwich Hotel, em Manhattan, no final de novembro. Robbie acabou sendo produtora do filme e, claro, com uma performance que lhe valeu uma indicação para o Oscar 2018, a sua primeira, como melhor atriz.

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Aos 27 anos, Robbie também compartilhou seus pensamentos sobre o escândalo de 1994 e as críticas à apresentação que o filme faz sobre violência doméstica. Aqui estão os trechos do nosso bate-papo.

Não havia muito gelo ao seu redor enquanto você crescia.

Definitivamente, nada de gelo. Nunca pratiquei patinação no gelo ao crescer. Quando me mudei para os Estados Unidos, entrei para uma equipe de hóquei sobre gelo, porque amei Nós Somos os Campeões e sempre quis jogar hóquei.

Você foi do nada para o hóquei?

Em retrospectiva, eu só estava correndo no gelo com patins. Mas você usa muita proteção. Eu não sabia como parar nem nada, então eu simplesmente me largava no gelo e depois, para parar, acertava outro jogador, ou uma barricada, ou mesmo o gelo. Esse era praticamente o ponto até onde ia meu conhecimento sobre patinação no gelo, até vir o filme e eu começar a treinar. E foi então que eu coloquei o equipamento de patinação artística, que é muito diferente dos patins de hóquei sobre gelo, como acabei descobrindo.

Você teve aulas de dança ou de ginástica ao crescer?

Fiz balé dos 5 aos 15 anos. Isso ajudou muito. Era apenas a parte real do gelo que assustava. Tinha que parecer uma patinadora competente. A primeira vez que tentei um volteio alto no gelo, simplesmente voei para trás e fiquei sem fôlego. Felizmente, tivemos uma fantástica coreógrafa de skate, Sarah Kawahara. Ela fez a coreografia para Nancy (Kerrigan). Eu ficava sempre pedindo desculpas, “Oh, desculpe-me por ter de ficar comigo”, ou “Isso deve ser muito frustrante”. 

Você ouviu falar de Tonya Harding quando estava crescendo?

Eu tinha 4 anos na época, e não fiquei sabendo de nada. Mas assim que mergulhei na história, fiquei fascinada. Creio que entendi por que todos estavam tão fascinados pelo caso na época. Sempre houve um apetite por escândalo, mas esse foi um evento que aumentou e se transformou em um fenômeno global. Fixou-se em duas mulheres, uma contra a outra, classificando as pessoas em pequenas declarações gravadas em entrevistas e manchetes chamativas. Acho que teria sido particularmente traumático passar por aquilo tudo, tendo a criação que ela teve, sem ter em volta uma rede de apoio, sem recursos financeiros para se proteger.

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Ela era a vilã.

Isso também não foi justo com Nancy. Ela foi pintada como uma presunçosa rainha do gelo. Ela veio de uma família de operários. E afinal, ambas eram atletas. Todos comentam sua aparência. Não, não tem nada a ver com aparência. Elas são atletas; não são modelos.

Mas isso importa no mundo da patinação.

Importava sim, e uma grande parte da nossa história é o fato de Tonya não se encaixar. Ela não tinha a imagem que o mundo de patinação queria como o rosto da patinação artística americana. Ela estava sempre em busca de aprovação, sempre em busca de carinho e amor, seja de sua mãe, de seu marido, da mídia, do público, da associação de patinação, dos outros patinadores, de quem quer que fosse. É trágico que ela não tenha recebido isso.

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Passou muito tempo com ela?

Eu a conheci duas semanas antes de começar a filmar. Tinha deixado o assunto de lado até então. Queria fazer minha preparação da personagem antes de conhecê-la. Há tantas filmagens dela. Provavelmente, não fiz nada além de assistir a clipes, vídeos e entrevistas de Tonya Harding durante seis meses. Coloquei no meu iPod, e ia dormir à noite, ouvindo-a.

Foi estranho conhecê-la?

Não, ela realmente compreendeu isso. Craig (Gillespie, o diretor) e eu queríamos dizer: “É estranho que estejamos fazendo um filme sobre sua vida, mas de certa forma não”. Esta não é uma biografia tradicional, e não é um documentário. É um longa-metragem e eu queria dizer a ela: “Espero que você entenda que estou interpretando um personagem. E na minha mente você e o personagem são totalmente diferentes”. Ela foi ótima em relação a isso. Se eu estivesse na sua posição, teria pirado. Ela disse: “Eu entendo que vocês precisam fazer o que precisam fazer”. Estava mais preocupada com outra coisa: “Como está indo com o treino de skate?” e “Precisa de ajuda? Posso treinar com você”. Ela foi muito gentil e compreensiva.

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Uma das críticas foi que a violência foi minimizada, em uma espécie de estilo Tarantino, quase tornando-a suave.

Sou um grande fã de Tarantino e o ouvi descrever sua violência como violência ‘sensacionalizada’. Não foi o que fizemos. Craig teve a ideia de romper a barreira entre atores e público em momentos específicos para vê-la desligar-se emocionalmente do que está acontecendo fisicamente a ela na ocasião. Algo que me emocionou mais ao assistir todas as filmagens foi o documentário feito sobre ela quando tinha 15 anos. Ela é muito espontânea e insegura. Está apenas olhando para a câmera, dizendo: “Minha mãe é alcoólatra, e ela me agride”. A pior coisa sobre um relacionamento doméstico abusivo é o fato de tornar-se um círculo vicioso. E você a vê voltar para seu primeiro marido, Jeff Gillooly, várias vezes. Queríamos enfatizar que é um ciclo e isso é muito comum para ela, porque aconteceu toda a sua vida. Ela pode se desconectar emocionalmente nesse momento e falar com o público, com a maior naturalidade.

Qual é sua teoria sobre o que realmente aconteceu?

No meio do projeto, deixamos de lado esse debate. Todos têm a própria verdade. E a verdade e a realidade não andam necessariamente de mãos dadas. As pessoas dizem a si mesmas que algo aconteceu de uma certa forma, para que possam viver consigo mesmas. Eu me importaria muito mais com a sua criação e sua vida e o quão injustamente ela foi tratada. Não importa o que você acredite que tenha acontecido, não acredito que ela mereça a punição que recebeu.  / Tradução de Claudia Bozzo

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