Paramount/Divulgação
Paramount/Divulgação

Marco do noir, 'Chinatown' volta ao cinema

Filme é exibido neste fim de semana e na próxima quarta-feira, 24, em rede de cinemas presente em várias cidades do País

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

19 Setembro 2014 | 10h22

Robert Towne ganhou o Oscar de roteiro original de 1974 por Chinatown, mas Roman Polanski diz que nunca ficou muito contente com o trabalho do escritor e reescreveu muitas cenas no set, com os próprios atores. Ele poderia ter dividido o crédito com o roteirista, mas Towne subiu ao pódio sozinho. Pode ser que a checagem do roteiro com o filme evidencie as diferenças, mas Chinatown, além de muito bem escrito, é um modelo do chamado cinema noir. Os críticos discutem - gênero? Estilo? Movimento? São questões que voltam com Chinatown. A obra-prima noir de Polanski é o programa da vez dos clássicos restaurados da rede Cinemark nesta semana. Terá sessões sábado, 20, domingo, 21, e, depois, na quarta-feira, 24, .

Há toda uma geração, mesmo de cinéfilos, que só conhece Chinatown da TV e do home entertainment. É o tipo do filme que você precisa ver no cinema. Embora preferencialmente associado a histórias sórdidas, de origem policial - homens enganados por mulheres, homens e mulheres enganados por aparências, na selva das cidades -, o noir impregna o western, o filme de guerra e há até o caso da coreografia inspirada em Mickey Spillane num grande musical de Vincente Minnelli, Band Wagon/A Roda da Fortuna, de 1953. De certo, o cinema noir possui uma atmosfera, um clima e ambos são definidos por uma cenografia carregada e por contrastes de luz e sombra. O noir, afinal de contas, busca iluminar/revelar os aspectos mais sombrios da natureza humana. Não são histórias edificantes, pelo contrário. E na contracorrente do minimalismo, o noir, garantem os especialistas Alain Silver e James Ursini, toma mais por menos. More for less.

A história de Chinatown mostra Jack Nicholson como o detetive JJ Gittes, contratado para encontrar um marido que desapareceu. Parece coisa fácil, mas daqui a pouco Gittes está enredado até o pescoço, com a cabeça a prêmio. Ele descobre uma conspiração envolvendo as fontes de água na cidade de Los Angeles, nos anos 1930. Com a água, virá o boom imobiliário e o italiano Francesco Rosi já fez um filme clássico sobre como a especulação capitalista define a urbe e o jogo de poder - Le Mani sulla Città, no começo dos 60. Mais até que o desejo por poder e dinheiro, o desejo sexual é o móvel do crime. Chinatown aborda o tabu do incesto. Noah Cross, interpretado por John Huston - a quem se deve o clássico noir Relíquia Macabra, The Maltese Falcon, de 1941 -, é um personagem monstruoso e a extensão do mal que ele representa só fica clara no desfecho.

Esse desfecho vai assombrar JJ Gittes e o próprio ator Nicholson, levando-o a fazer, anos mais tarde, Os Dois Jakes, que prossegue não com a história de Chinatown, mas com a do personagem. Mesmo sendo emblemático como detetive particular, Gittes, que se envolve com a filha de Noah Cross - e mulher do homem que desapareceu -, não é cínico como os detetives de Humphrey Bogart, Sam Spade e Phillip Marlowe. Daí o fato de ele ser atropelado pela revelação final de Chinatown, o filme, que, a propósito, ocorre em Chinatown, o distrito chinês de L.A. Os críticos falam muito com a produção maniqueísta de Hollywood banaliza a noção do mal por meio de indindáveis tramas de mocinhos e bandidos. O mal na natureza humana sempre motivou Roman Polanski - em A Faca na Água, Repulsa ao Sexo e O Bebê de Rosemary, para lembrar três de seus clássicos nos anos 1960. E Chinatown, de 1974, e O Pianista, de 2002, pelo qual ganhou seu Oscar de direção.

Quase como uma piada, muita gente diz que o noir nasceu como parte do esforço de guerra, quando Hollywood acolheu muitos artistas (diretores e fotógrafos) fugitivos do nazismo. Boa parte, senão todos, havia sido marcada pelo expressionismo alemão e isso, somado à decisão do poderoso Jack Warner de cortar os excessivos custos de seu estúdio com energia - é a piada, talvez real, porque o país estava mesmo em crise -, teria levado (levou?) a esses filmes escuros, sombrios. John Huston, filho do ator Walter Huston, tomou gosto pela representação e fez muitos filmes como ator nas últimas décadas de sua vida (morreu em 1987, aos 81 anos). Mas nenhum papel é mais impressionante que o de Noah Cross. Jack Nicholson é maravilhoso, mas quem domina o filme é Faye Dunaway. Ela ganhou o Oscar - por Rede de Intrigas/Network, de Sidney Lumet, em 1976 -, mas deve seu mito a dois papeis carregados de erotismo e intensidade, em grandes filmes de Arthur Penn (Bonnie and Clyde/Uma Rajada de Balas, de 1967) e justamente Polanski (Chinatown). Em ambos, a música e o figurino são essenciais na recriação da época. E Faye é sempre muito estilosa e elegante, você vai ver.

Mais conteúdo sobre:
Chinatown Filme Cinema Crítica Roman Polanski

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.