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Marcelo De Moura leva Snoopy e Charlie Brown até a Índia

Peanuts da Lighstar ganham o mundo

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Luiz Carlos Merten,
O Estado de S.Paulo

16 Janeiro 2016 | 16h00

Na coletiva que deu sexta-feira, 15, em São Paulo, para celebrar a indicação de O Menino e o Mundo como primeira animação brasileira selecionada para o Oscar, Alê Abreu disse que animador já é uma profissão no Brasil. Ninguém sabe disso melhor que Marcelo de Moura, mas, no final dos anos 1980, quando ele resolveu que seria esse seu caminho, a animação ainda era algo distante e o atalho era longo - passava, necessariamente, pelo exterior. Foi o que ele fez - construiu uma carreira fora do Brasil e voltou para fundar a empresa Lighstar, sediada em Santos.

Hoje, a empresa é conhecida por seus projetos de animações para comerciais de TV e mídias digitais. E a especialidade da Lighstar são os Peanuts. Pegando carona no lançamento do filme de Steve Martino, Charlie Brown & Snoopy - Peanuts: O Filme, a Lighstar anuncia que acaba de fazer uma série de animações para apresentação dessas figuras emblemáticas para o público indiano. “O lançamento foi no final de ano e ainda não tivemos retorno”, conta De Moura. Ele acrescenta que a empresa foi contratada para fazer o que se chama de ‘model sheets’. “Consiste basicamente no polimento e digitalização das figuras, a partir de desenhos do próprio Charles M. Schultz nos anos 1960 e 90.” 

Há uma diferença sutil entre essas datas. “O Snoopy mais antigo é magrinho, o outro é mais gordinho”, ele explica. “Isso ocorre muito com autores que acompanham seus personagens durante muito tempo. É uma consequência da própria vida, uma projeção natural. Nossa silhueta vai mudando no espelho e os personagens, também.” Apesar de pequenas variações físicas, ele arrisca uma interpretação para a permanência das criações de Charles Schultz - “Ele criou suas tiras em 1950 e poucos personagens da época, mesmo os maiores da Disney, como Mickey Mouse, mantêm uma consistência psicológica tão grande. Charlie Brown permanece como um emblema de insegurança e tentativa de superação, e Snoopy é o ombro amigo e o parceiro que o ajuda em todas as tentativas. O tempo passa e cada geração pode se identificar com essas figuras, porque são universais.”

Nos últimos anos - a empresa estabeleceu-se na Baixada Santista em 2001 -, a Lightstar tem levado seus pequenos filmes sobre os Peanuts para países tão diversos quanto Chile, EUA, Polônia, Turquia, Japão e Índia. Isso significa formação de mão de obra especializada, difundindo o conhecimento que De Moura adquiriu, em seus anos no exterior, ao passar por estúdios como Disney, Warner e DreamWorks. E tudo começou com Don Bluth, quando o jovem brasileiro aspirante a animador se aproximou do criador de Fievel, Um Conto Americano. O próprio Bluth havia se iniciado na Disney, antes de lançar sua tentativa de produção independente de animação. De Moura trabalhou em três filmes de Bluth, incluindo Chantecler - O Rei do Rock. Como animador em 3D, foi para a Blue Sky Studios onde trabalhou em A Era do Gelo e também foi diretor de animação em Asterix e Os Vikings. É essa experiência com o meio 3D que lhe permite elogiar a repaginação que Steve Martino faz do formato no novo Charlie Brown, mantendo-se, ao mesmo tempo, fiel à criação original de Schultz.

De Moura não poupa elogios ao trabalho de resistência de Alê Abreu. “Ainda é certo para tentar mesurar a importância da indicação de O Menino e o Mundo para o Oscar, mas com certeza terá desdobramentos benéficos para a animação brasileira, em geral. É o reconhecimento de que existe um jeito brasileiro de fazer animação e que não é preciso pasteurizar-se seguindo fórmulas prontas. Todo criador quer achar seu caminho. Carlos Saldanha faz um grande trabalho na Blue Sky e fez de Rio uma franquia internacionalmente conhecida. Mas Saldanha também saiu do Brasil. Alê permaneceu e trilhou sua via, e é ela que o está levando ao reconhecimento no Oscar. Mesmo que não ganhe, a indicação já lhe garante uma visibilidade que pode render muitos frutos.”

O próprio Alê, na coletiva de sexta-feira, anunciou que seu próximo filme, Os Viajantes do Bosque Encantado, será uma parceria com a empresa Buriti, de Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi. Nas suas andanças por festivais internacionais, com O Menino e o Mundo, ele conheceu produtores que se interessaram por essa nova usina de profissionais que está virando o Brasil. Alê disse que será muito bom, porque produzir consome muita energia e, como criador, ele gostaria mais é de estar imerso em sua arte. “O aspecto talvez mais positivo dessa indicação é mostrar que o circuito artístico (de produtores independentes como Alê Abreu) pode competir com o circuito comercial, uma produção de US$ 180 milhões como a da Pixar, Divertida Mente”, reflete De Moura. É todo um novo campo que se abre para a animação brasileira.

 

Desafio do filme é modernizar sem trair o legado de Schulz

Numa de suas últimas entrevistas, pouco antes de morrer - em fevereiro de 2000, em Santa Rosa, na Califórnia - Charles M. Schultz, o pai dos Peanuts, revelou-se cético quanto ao futuro de sua criação. “Não sei se terei sucessores, gente interessada em seguir adiante com esses personagens que criei há 50 anos.” Se Schultz tivesse vivido mais alguns anos poderia estar assistindo a Charlie Brown & Snoopy - Peanuts: O Filme, que estreou na quinta-feira, 14. Craig e Bryan Schulz prosseguem com o legado familiar.

Em São Paulo, onde veio conversar com o público da Comic.com, o diretor Steve Martino contou que o projeto nasceu do filho (Craig) e o neto (Bryan) de Charles. “Eles criaram a história com os personagens e me ofereceram a direção. Não pude resistir porque Charlie Brown, Snoopy e Woodstock fizeram parte da minha infância. Quando garoto nem sabia ler mas já esperava pela chegada do jornal de domingo. Meu pai me sentava em seu joelho e ficávamos repassando as tiras, que ele lia para mim. A tradição familiar não se perdeu, porque hoje minha filha adora se fantasiar de Lucy”, contou Martino.

Seu ideal, ele confessou, seria introduzir Charlie Brown e a turma a uma geração que não conhecesse os Peanuts, mas, como isso é difícil, dada a popularidade dos personagens, Martino só queria não destruir o legado de Charles M. Schulz. Na entrevista acima, Marcelo De Moura, que possui um estúdio especializado em (re)produzir os Peanuts para o mundo - Lightstar -,destaca a que lhe parece a característica mais marcante da criação de Schultz. Seus personagens mantêm uma consistência psicológica muito grande. Charlie Brown permanece como um emblema de insegurança e tentativa de superação, e Snoopy é o ombro amigo e o parceiro que o ajuda em todas as tentativas. O tempo passa e cada geração pode se identificar com essas figuras, porque são universais.

No filme que acaba de estrear, Charlie Brown quer chamar a atenção da nova colega de escola, mas é tímido. Enquanto isso, Snoopy se envolve numa aventura aérea e as duas tramas se interligam. Baseado numa criação original plana, Steve Martino, que dirigiu A Era do Gelo 4, traz esses personagens para o mundo do 3D. “O traço de Schulz era tão característico que não podíamos correr o risco de adulterá-lo. O 3D virou exigência do mercado, mas criamos um 3D com cara de 2D. A ideia era modernizar sem trair”, disse o diretor. Martino sempre foi fã das animações de Bill Melendez com os Peanuts nos anos 1960 e 70, mas faz a ressalva - “As cores dele eram mais suaves que as de Charles, que eram muito vivas e saltavam das tiras. Voltei ao colorido original.” O melhor de tudo foi que, em suas pesquisas, o diretor descobriu gravações de Bill Melendez, fornecendo a voz a Snoopy e Woodstock. Utilizou-as no filme. O resultado não está totalmente à altura de Melendez & Schulz, mas tem seu encanto.

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