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Manoel de Oliveira tenta ser eterno com 'O Velho do Restelo'

Novo filme do diretor, que está com 105 anos, será exibido fora de circuito em Veneza; o 'Estado' esteve em uma sessão especial em Lisboa

LISBOA - Numa sessão na Cinemateca Portuguesa, para poucos jornalistas e à qual o Estado esteve presente, foi mostrado o novo filme do mitológico cineasta Manoel de Oliveira, O Velho do Restelo. Também assistiu ao curta-metragem de 20 minutos o ator José Miguel Cintra, que participa de diversos trabalhos de Oliveira e, neste, interpreta ninguém menos que poeta Luis de Camões, autor do clássico da saga marítima, Os Lusíadas.

A sessão foi silenciosa e reverencial e, à saída, as pessoas falavam em voz baixa, tamanho o impacto causado pela obra. Em pouco tempo de filmagem, Oliveira mobiliza figuras míticas da literatura ibérica como Camões, Cervantes, Camilo Castelo Branco e Teixeira de Pascoaes, além de evocar fatos e personalidades fundadores da nação portuguesa, como a batalha de Alkácer-Quibir e o desaparecimento do rei Dom Sebastião.

A sensação de todos é de que se trata de obra testamentária, na qual o diretor, com 105 anos de idade e doente, faz um balanço sintético do que filmou e pensou ao longo de uma filmografia magistral, uma das maiores do cinema do século 20. Oliveira, inclusive, evoca trechos de filmes anteriores como Non, a Vã Glória de Mandar (um balanço do colonialismo português na África) e O Quinto Império (sobre o mito fundador da nação portuguesa), dando ainda mais formato de súmula ao filme que será apresentado, fora de concurso, no Festival de Veneza.

Cena de "O Velho do Restelo"
Cena de "O Velho do Restelo"

O filme abre com ondas batendo no cais, evocando o destino marítimo da nação portuguesa. Depois segue com imagens do Dom Quixote, de Grigori Kozintsev, enganchado a uma das pás de um moinho de ventos, uma das cenas mais famosas da literatura universal, na qual o Cavaleiro da Triste Figura confunde um moinho com um terrível gigante e o ataca sem piedade.

Depois as cenas se encadeiam com uma conversa num banco de praça em que Quixote (interpretado pelo neto do diretor, e ator frequente em seus filmes, Ricardo Trêpa) dialoga com Camões. O assunto da conversação? O personagem do Velho do Restelo, que dá título ao filme e simboliza, segundo uns, o pessimismo, segundo outros, nada mais que o realismo. Ele aparece no Canto IV dos Lusíadas e manifesta-se contrário à epopeia das navegações. Alguns de seus versos são textualmente citados no filme: "Ó glória de mandar, Ó vã cobiça/Desta vaidade a que chamamos Fama!"Alguns autores entendem contraditória a presença deste personagem num épico laudatório da aventura das navegações. Outros acham que Camões está simplesmente sendo dialético ao sugerir que em toda vitória está contida a derrota implícita.

Vendo-se o destino da então poderosa nação portuguesa não há como lhe negar a clarividência. E ela resplende, clara como água da fonte, nesta lúcida obra-balanço de um cineasta que não deixou de pensar, de um ponto a outro de sua obra, na questão da identidade portuguesa, em sua grandeza e melancolia. É filme reflexivo e para fazer refletir. Portanto, docemente inatual. Oliveira poderia dizer, como disse uma vez o nosso Carlos Drummond de Andrade, que se cansou de ser moderno para apenas ser eterno.

Na saída, tomei um café e conversei por um momento com Luís Miguel Cintra. Perguntei-lhe se via com frequência Oliveira e como andava o mestre. "Triste, porque consciente da sua situação de saúde, mas totalmente lúcido", disse-me. Quis saber se havia possibilidade de Oliveira filmar ainda A Igreja do Diabo, um dos seus projetos, baseado num conto de Machado de Assis, mas Cintra mostrou-se cético. "Acho que ele não tem mais condições de enfrentar nova filmagem, ainda que rodeado das pessoas que o auxiliam e o amam", disse. Entre eles, o fotógrafo Renato Berta que faz grande trabalho em O Velho do Restelo.

Cintra contou ainda uma anedota. Disse que um repórter de um jornal religioso pediu uma entrevista e Oliveira recusou-se. Quando Isabel, sua mulher, soube que o homem trabalhava em tal jornal, e sendo ela bastante carola, começou a falar com o homem, longamente. Oliveira sorriu e falou para Cintra: "Isabel está a dar ao homem a entrevista que eu nunca darei". Como se vê, o sentido da ironia não abandonou o velho mestre.