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'Magia ao Luar', novo de Woody Allen, embute reunião de culpa

Luiz Carlos Merten - O Estado de S. Paulo

22 Agosto 2014 | 17h 59

Longa estreia nos cinemas na semana que vem

Outro dia, no Festival de Gramado, um grupo de jornalistas retomou a discussão sobre Woody Allen. Mia Farrow, a filha que acusa o ex-padrasto de abuso, ninguém presta. É melhor repensar a história toda. O novo Woody Allen, Magia ao Luar, que estreia na semana que vem, embute uma confissão de culpa. Woody Allen não para de se justificar. Como diretor, ele mantém o ritmo binário dos últimos anos. Depois de um grande filme, outro fraco - depois de Meia-Noite em Paris, a aventura romana. Depois de Blue Jasmine, Magic in the Moonlight. O filme é distribuído pela Imagem e deve entrar, na próxima quinta-feira, dia 28, num grande circuito - isso, naturalmente, se Sylvester Stallone e seus Bastardos Inglórios deixarem. Os Mercenários 3 estreou em 800 salas., Não vão sobrar muitas para abrigar Magia ao Luar.

Divulgação
"Magia ao Luar" tem uma primeira parte encantadora

Woody Allen já fez muitos filmes sobre mágicos. Jogos de adivinhações permeiam seu cinema há anos. Na nova versão, Colin Firth faz o mágico famoso - seu disfarce é de oriental - cooptado por amigo para desmascarar vidente que se imiscuir na casa de uma rica família na Côte d’Azur. O cara vive citando Hobbes e Nietszche para justificar seu niilismo. A humanidade não presta, o mundo é uma porcaria, Deus morreu. Ele chega com disposição de guerra santa para desmascarar a charlatã - até ser seduzido por ela. A garota sabe tudo, adivinha tudo, e ainda tem aquele sorriso. Nosso homem, que mantém uma ligação racional - e fria - com a mulher que parece perfeita para ele, desmorona. Quem saca tudo, é a velha tia. Num diálogo divertido, ela provoca o sobrinho até ele admitir que, sim, ama a garota. Mas como - o cínico niilista? O amor existe, nos tira do sério, nos leva a cometer coisas inomináveis.

Magia ao Luar tem uma primeira parte encantadora, enquanto Colin Firth se deixa seduzir e impregnar pelo charme de Emma Stone. Seus discursos racionalistas da segunda parte, quando começa a resistir - e faz descobertas que é bom não antecipar -, são menos interessantes. O final é pura justificativa do autor, que parece falar através do personagem. Trilha, fotografia, direção de arte, figurinos - Woody Allen muda as equipes, mas o romantismo permanece. Os casacos pieds de poule, os tons bege. Tudo isso é dele, sua marca. E ele continua sendo um grande diretor de atores, ou então, vai ver que é o que ele escreve - os diálogos - que facilita a vida dos grandes intérpretes. É pouco provável que Colin Firth venha a ser indicado para o Oscar, como Cate Blanchett foi (e venceu no ano passado). Mas o ator poucas vezes esteve tão bem. Ele mereceria, por Magia ao Luar, o Oscar que ganhou por O Discurso do Rei.