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Nicola Dove | DIV

Maggie Smith deixa castelo de ‘Downtown Abbey’ para se tornar indigente em 'A Senhora da Van'

Sem resquício de ‘Downtown Abbey’, filme traz a atriz como a irascível Mary Shepherd, que viveu em um carro por 15 anos

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Roslyn Sulcas,
THE NEW YORK TIMES

17 Janeiro 2016 | 04h00

Velhos amigos, Maggie Smith e o roteirista Alan Bennett estão sentados no sofá de um hotel chique, falando um sobre o outro e lembrando a primeira vez que se encontraram.

“E então ela saltou diretamente em cima do leitão”, disse Bennett. Maggie riu às gargalhadas. “Foi terrível”, afirmou. Bennett olhou para ela, imperturbável, e disse, “para o porco também, imagino”. Esse porco foi um dos personagens que contracenou com Maggie Smith no filme A Private Function (Meu Reino por Um Leitão), de 1985; três anos depois, ela interpretou a solitária mulher de um vigário no monólogo Bed Among the Lentils. Mas, nesse dia aprazível de dezembro, os dois se reuniram para falar sobre sua mais recente aventura: o filme “The Lady in the Van” (A Senhora da Van), escrito por Bennett e dirigido por Nicholas Hytner, cujo lançamento está previsto para 28 de janeiro no Brasil.

Todos tiveram uma antiga ligação com A Senhora da Van, a história improvável de Mary Sheperd, uma mulher sem-teto, irascível, que viveu em uma van na frente da casa de Bennett, durante 15 anos.

Para um escritor, um material como esse é bom demais para ser verdade, mas Bennett não escreveu sobre Mary Shepherd e a sua curiosa relação – relutante da parte dele, arrogantemente exigente da parte dela – até a morte de Mary em 1989, publicando primeiro as suas anotações em um diário na The London Review of Books e depois um conto que ele intitulou The Lady in the Van. Em 1999, Bennett adaptou o diário para uma peça do mesmo nome, estrelada por Maggie Smith e dirigida por Hytner, no Teatro Nacional de Londres.

E então, 16 anos depois, ambos se juntaram para recriar a história num filme, com Alex Jennings interpretando Bennett mais jovem. A filmagem durou seis semanas e a história ambientada no local de verdade: Gloucester Crescent, em Camden, hoje um bairro muito caro, mas na época uma área pobre da cidade ao norte de Londres, onde o dramaturgo viveu quase 40 anos (ele ainda é proprietário da casa).

Alan Bennett e Maggie Smith têm 81 anos e são considerados patrimônio nacional na Inglaterra. (“Oh, pelo amor de Deus”, disse Maggie, agitando as mãos em sinal de horror à sugestão). Maggie é considerada uma das grandes atrizes no palco e na tela da Grã-Bretanha, mas, nos últimos anos, com papéis como o da azeda Violet, a condessa matriarca de Downtown Abbey, e de Minerva McGonagall nos filmes de Harry Potter, ela alcançou fama global.

Com as filmagens de Downtown Abbey, Harry Potter e os filmes da série O Exótico Hotel Marigold, Maggie tem mantido um cronograma de trabalho extenuante, que intimidaria um ator 50 anos mais jovem. Por que aceitou o papel de Miss Shepherd, como é chamada no filme?

“Meus sentimentos quanto à personagem diferem de vez em quando. Foi a chance de estudar essa mulher tão estranha, excêntrica, mais de perto. Porque ela vivia daquela maneira? O que a levou a isso? Representei essa excentricidade mais no palco – no filme, é possível avançar mais, ser mais meticuloso.” Maggie vira-se para Bennett, e diz: “Depois vem a pergunta eterna, por que Alan a suportou?”, e acrescenta: “Está farto dela agora?”.

Bennett riu. “Eu a suportei porque parecia mais fácil do que botá-la na rua. As pessoas a assediariam, bateriam na van, gritariam, e meu estúdio dá para a rua. O que me desviava do trabalho. Então, quando sugeri que ela se instalasse na frente da casa, não pensei nisso como um gesto humanitário.”

Mas Bennett pensou nisso, o filme mostra o seu gesto, oferecendo a Mary um refúgio num mundo que a rejeitava. Mal-humorada, ingrata, delirante e possuindo o que ele descreve como “nobreza vagabunda”, ela não é uma personagem simpática.

O filme mostra a Van cor de gema de ovo cada vez mais decrépita no decorrer dos anos, cercada por sacos de lixo e excremento. Maggie Smith, usando roupas cheias de manchas e um estranho gorro, com as mãos sujas e cabelo despenteado, não procura evitar os aspectos repulsivos da sua personagem. “Foi uma mudança de todos aqueles chapéus e trajes de Downtown Abbey”, disse ela.

Do mesmo modo que a peça, o filme usa o recurso narrativo de dois Allan Bennett – um representando o escritor e o outro o indivíduo “real”, que interage com Mary Shepherd e o mundo. Mas o filme entra mais a fundo na vida dos dois, traçando uma relação entre a senhora da Van e a mãe do autor, que sofre de demência, e sugerindo que Mary Shepherd quando jovem era uma promissora pianista de concerto e teve possíveis razões para se isolar do mundo.

As críticas ao filme na Grã-Bretanha prestam um tributo ao desempenho de Maggie Smith, indicada para o Globo de Ouro, que já provocou algum alvoroço em torno do Oscar.

Quanto a Hytner, ele afirmou que teve pouco trabalho de direção específico no caso dela. “Ela me pediu que a parasse toda vez que exagerasse na interpretação ou deixasse que a forte lembrança da sua atuação no palco tomasse conta. Ela nunca se considera suficientemente boa e tudo é sempre muito dinâmico, porque ela questiona tudo o que faz. Minha função foi prestar atenção e garantir a ela que as razões que ela apresentava para não se sair bem na cena seguinte eram irrelevantes. Ela necessita de uma pessoa ao lado para se manter firme. Ela não gosta se você se apavora.”

Maggie Smith disse que a filmagem foi fisicamente extenuante e pensa em fazer uma pausa nos próximos meses.

“Foi um absurdo e vou dar um tempo”, afirmou ela. “Nesta profissão, ou se trabalha em excesso ou não se faz nada. Agora não vou fazer nada.”

Bennett, cético, respondeu: “Não acredito”.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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