Literatura fascina mais do que o assassinato em 'Versos de um Crime'

Filme quer englobar tudo – o mistério do crime e o mistério, maior ainda, do processo criativo de Ginsberg, mas é muito para dar conta

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

06 Setembro 2014 | 16h00

Não tem sido fácil para esses rapazes levar as carreiras adiante. Elijah Wood praticamente nada mais fez de bom depois de carregar o fardo de Frodo na série O Senhor dos Anéis, que Peter Jackson adaptou da obra monumental de JRR Tolkien. Daniel Radcliffe tem feito múltiplas escolhas para tentar se distanciar do bruxinho Harry Potter. Isso inclui aparecer nu no teatro (no revival de Equus) e interpretar um gay em Versos de Um Crime. Em entrevista ao Estado, o ator esclarece que tem feito o que lhe interessa, não o que dizem que o público esperar ver com ele. Não tem sido bem-sucedido, é verdade. Suas imagens nos tabloides atraem, hoje em dia, mais gente que os filmes.

Robert Pattinson de todos esses ídolos adolescentes é quem tem se saído melhor. É verdade que ajuda bastante o fato de se haver tornado o preferido de um autor de prestígio como David Cronenberg, em obras como Cosmópolis e Maps to the Stars. Sua amada na série Crepúsculo – Kristen Stewart – não fica atrás e depois de On the Road, a adaptação de Walter Salles do livro mítico de Jack Kerouac, estrela o novo Olivier Assayas, Siels of Saint Mary. É curioso que justamente em Versos de Um Crime Radcliffe também pague seu tributo à Beat Generation.

O filme de John Krokidas não se prende a um gênero específico. É uma biografia – a do poeta Allen Ginsberg, outro expoente do que será a Beat Generation –, misturando drama, romance, mistério e até suspense. A narrativa cobre os anos em que o jovem Ginsberg foi calouro na universidade Columbia. Brilhante, mas reprimido, ele se liga a colega exuberante – e gay. Radcliffe interpreta o poeta e, como revela acima, inspirou-se no diário do escritor para compor seu personagem. O carismático Carr (Dane DeHaan) não apenas o confronta com sua sexualidade mal resolvida (mas ele ainda é um jovem, afinal de contas), como o introduz, e é bem o termo, no convívio com outros aspirantes a escritores – Jack Kerouac e William Burroughs. 

Todos eles – futuros ícones gays – se pautam pelo comportamento libertário, desafiando os cânones da conservadora sociedade norte-americana dos anos 1940. Um colega um pouco mais velho, David Kammerer, se apaixona pelo instável Carr. Sua morte em circunstâncias misteriosas vira objeto de uma investigação policial que vai repercutir na vida – e carreira – de tantos autores emergentes. Há muita coisa boa para se apreciar em Versos de Um Crime. A produção é cuidada, os atores empenham-se e, além de Radcliffe e DeHaan, estão presentes Ben Foster (Burroughs), Jack Huston (Kerouac), Jennifer Jason Leigh, Kyra Sedgwick e Michael C. Hall. 

Onde o filme falha é justamente no esforço de dar consistência aos personagens. Todos rejeitam os clichês e querem revolucionar a arte, querem fazer das próprias vidas obras de arte. Não é fácil expressar o gênio, mesmo quando ainda imaturo. O diretor (e corroteirista) Krokidas é tímido e abraça os clichês justamente quando deveria ousar. Não se pode ser medíocre ao falar de quem não é nem engessar numa narrativa tradicional o que já nasceu com a vontade de desafiar o cânone

Versos de Um Crime quer englobar tudo – o mistério do assassinato e o mistério, maior ainda, do processo criativo do verso livre de Ginsberg. É muito para dar conta, mas fazendo o retrato do artista quando jovem, Krokidas, mesmo derrapando na curva dramática e não sendo satisfatório como um todo, logra que o espectador se interesse pelos personagens (e seus dramas). É difícil não se envolver com a sinceridade como Ginsberg/Radcliffe vacila diante de sua atração por Carr/De Haan. A investida de Kammerer complica ainda mais o que já é difícil (sair do armário). Amizade ou amor, admiração ou desejo? Talvez, mais que o excesso de prudência, seja a reverência de Krokidas em relação aos ícones (que ainda não são) o fator congelante de Versos de Um Crime. Só por momentos – as cenas de Forster/Burroughs drogado, o sorriso sedutor de Carr –, o filme ganha vida para tentar conquistar o público. On the Road e o próprio The Howl, com James Franco como Ginsberg, são melhores.

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