GABRIELA BILO/ESTADÃO
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Lázaro Ramos fala de planos e de 'O Vendedor de Passados'

Um artista que se alimenta de ousadias e que quer ser diretor; confira o trailer do longa que lhe rendeu prêmio no Cine PE

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

16 Maio 2015 | 19h00

  Pode ser mera coincidência, e o espectador, mesmo o mais cinéfilo, talvez nem se dê conta de que Lázaro Ramos, que ganhou o prêmio de ator no Cine PE, sucede a Vladimir Brichta, o vencedor do ano passado. Lázaro ganhou por O Vendedor de Passados, que Lula Buarque de Holanda adaptou do livro do escritor angolano José Eduardo Agualusa, e o filme está previsto para estrear na quinta, 21. Vladimir ganhou por Muitos Homens num Só, de Mini Kerti, que, por sinal, está estreando no começo de junho, mais de um ano depois. A coincidência é que Lázaro, Vladimir e Wagner Moura surgiram no teatro baiano, integrando o elenco de A Máquina, de Adriana Falcão, que depois virou filme (ótimo) do marido dela, João Falcão.

“Todo mundo pensa que a gente saiu da Bahia e veio direto para o Rio e São Paulo”, contou Lázaro numa entrevista num hotel da Av. Paulista, preparatória do lançamento de O Vendedor de Passados. “Mas não, a gente passou pelo Recife. Ancoramos por lá, e havia um movimento cultural muito forte. Fomos nos embebendo da música, que se fundiu no cinema. Gosto de voltar ao Recife. É um lugar que tem uma identidade cultural muito forte.” Por falar em identidade, o tema é muito forte em O Vendedor de Passados. Vicente, o personagem de Lázaro, inventa passados para pessoas que lhe pagam por isso. Lula (o diretor) tomou muitas liberdades com a estrutura narrativa e até com o personagem, que é albino. Como Lázaro reagiu ao convite?

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“De cara perguntei – por que eu, um negro? Por que não?, ele retrucou. É uma forma de focar no assunto sem falar nele. Pensa bem, um filme sobre identidade. Só o fato de eu estar ali já desencadeia alguma coisa no inconsciente do espectador. E eu realmente acredito que isso é importante. Oferecer ao ator negro brasileiro outras possibilidades de dramaturgia e inserção. Você se lembra como ficou surpreso quando lhe disse, depois do Madame Satã, que gostaria de fazer Hamlet? Por que não? Cada vez mais tenho consciência de que nós, atores negros, agregamos temas, mesmo que não se fale diretamente sobre isso, só por estar ali.”

Lázaro tem estado em novelas, peças (e livros infantis), mas há tempos andava ausente do cinema. Desde Ó Paí Ó. Agora mesmo, voltou às salas com Sorria – Você Está Sendo Filmado, de Daniel Filho, que adorou fazer. “Nunca fiz um filme em que não gostasse de estar. Escolho meus projetos. Pode ser o filme, o diretor, a história. Trabalhei com muitos novos diretores, nos primeiros filmes de Karim Aïnouz, Jorge Furtado, Sérgio Machado, Paulo Betti, Tadeu Jungle. Madame Satã, O Homem Que Copiava, Cidade Baixa, Cafundó, Amanhã Nunca Mais são todos primeiros filmes.”

Estar em tantos filmes diferentes – em técnica, produção e estilo – pode parecer maluquice. “Imagino que possa parecer esquizofrenia, mas gosto porque me sinto motivado. Pode ver que o cinema que me atrai é feito de perguntas mais que de respostas. No atual estágio do cinema brasileiro, o público tem abraçado as comédias e as biografias, mas acho legal que existam filmes fora dessa cartilha e que tenham visibilidade. Começamos falando do Recife e o cinema pernambucano é muito bom porque é um cinema sem respostas prontas. Os caras ousam tudo. Estou me alimentando de tudo isso como preparação para minha estreia como diretor.” E como vai ser, ou o que vai ser? “Durante muito tempo quis fazer um filme, mas descobri que não tinha a minha cara. Agora, descobri a história que quero contar e estou formatando o jeito de contar com um roteirista profissional. Só digo que vai ser uma história urbana bem bacana.”

E de volta a O Vendedor de Passados – “Eu realmente achava que muitas passagens que gostava no livro seriam impossíveis de filmar. O cara (Agualusa) é angolano, produto de outra cultura, com um encanto próprio e que faz o livro ser o que é. Nosso roteiro busca aproximações – integra a ditadura argentina, que é uma maneira de falar da brasileira. E acho muito forte discutir a identidade. Pô, as pessoas criam perfis falsos na internet. Quer insatisfação maior que isso?”

Lázaro está adorando ser pai (de dois filhos, João e Maria Antônia, com a atriz Taís Araújo). “As observações e perguntas que eles fazem são um barato. Inspiram minha literatura infantil.” E a Alinne Moraes, que faz a mulher fatal para quem ele inventa um passado? “E eu preciso dizer que é maravilhosa?” 

'Há tempos, o ator baiano não estava tão viril em cena'

É o momento mais divertido da entrevista. Lázaro Ramos conta que o diretor carioca Lula Buarque de Holanda lhe relatou uma observação do repórter em seu blog que dizia: “Há tempos o ator baiano não estava tão viril em cena”. “Não sei se é um elogio”, brinca Lázaro. “Pra mim, o tesão é bem maior no filme Cidade Baixa (dirigido por Sérgio Machado, em 2005).”

Mas Lázaro, de 36 anos, reconhece que rola uma química com Alinne Moraes na tela. É o que você poderá confirmar nos próximos dias. Mesmo não sendo um lançamento ‘mega’, O Vendedor de Passados entra num circuito amplo, com 250 cópias.

 

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