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Cultura

Michael Caine

Análise: 'Juventude' reflete arte e vida no tempo que se perde

Sorrentino herdou de Federico Fellini o gosto pelas imagens bizarras

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Luiz Carlos Merten,
O Estado de S.Paulo

30 Março 2016 | 04h00

Comparado a um comercial de 124 minutos (sua duração) dos relógios Rolex. Vai nisso certa maldade. Os relógios quase não aparecem, mas o tempo é fundamental. Ao contrário do que anuncia o título, Youth/Juventude, o filme é sobre gente velha. Artistas ricos num spa de luxo. Todos, ou quase todos, em busca da eterna juventude.

Sorrentino herdou de Federico Fellini o gosto pelas imagens bizarras. Enche a tela de gente feia em trajes sumários. A imagem que ilustra o texto, os hóspedes tostando-se na piscina, é emblemática. Quem é essa gente? Você vai ver que a maioria não importa, só está ali para fazer figuração visual. Mas talvez a ‘giovinezza’ do título tenha outro significado no imaginário do diretor. Seu grandioso e, às vezes, comercial não é vazio porque, na verdade, o culto da juventude embutido no título é um conceito fascista contra o qual Sorrentino está se insurgindo. Mussolini vivia fazendo o elogio da gioninezza. E hoje, juventude, sucesso, riqueza. Abaixo a celebridade.

A Grande Beleza já tinha um pouco disso na figura de Toni Servillo como novo árbitro da elegância numa Roma decadente como a de Fellini em A Doce Vida, meio século atrás. Servillo já era assombrado por fantasias que remetiam à brevidade da vida e ao medo da morte. Sua criatividade esgotara-se. Um livro lhe garantira a celebridade e, depois disso, tornara-se parasita de si mesmo. Temos agora os dois velhos. Michael Caine é o compositor que ousou dizer não à rainha e agora correm atrás dele para que realize um hipotético concerto no Palácio de Buckingham. Internamente, é perseguido pelas lembranças de quando estava à frente da Orquestra Sinfônica de Veneza. Harvey Keitel é um velho cineasta que sonha realizar seu canto do cisne, mas, para isso, precisa do aval de sua antiga estrela, Jane Fonda.

Caine e Keitel são velhos amigos e, para selar ainda mais a amizade, a filha do primeiro (Rachel Weisz) é casada com o filho do segundo. O casamento não anda bem, mas isso não conta mais que o astro hollywoodiano (Paul Dano) com quem Caine e Keitel entretêm conversas sem muito sentido nem com a sexy Miss Universo que se despe para compartilhar a piscina com eles. O sentido de tudo isso é a certeza de que nada é para sempre - nem a arte, que parece escapar aos personagens de Caine e Keitel. Como um sub-Fellini em Oito e Meio, Keitel revê em sonhos as mulheres de sua vida. É tão patético quanto as evocações priápicas dos dois amigos - tipo ‘nós que fomos tão potentes’, na arte como na vida. Juventude tem elementos para encher os olhos, mas é claramente uma obra (ainda) menor em relação a A Grande Beleza, que já não era tudo aquilo. O problema de Sorrentino talvez nem seja a repetição - Fellini também se repetia -, mas a autoindulgência, em relação a si mesmo e a seus personagens.

 

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