Sergio Castro/Estadão
Sergio Castro/Estadão

Júlio Andrade explica que atuar é uma via de mão dupla, em que o intérprete cede e ganha

Ator conversou com o 'Estado' sobre seus filmes na Mostra, séries e as próximas estreias

Entrevista com

Júlio Andrade

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2016 | 07h00

Júlio Andrade acredita na troca. Não é só o que ele, como ator, entrega para o personagem. É o que o personagem também lhe dá. “Sempre fui meio covarde pra essa coisa de sangue, e, em Sob Pressão, tenho de fazer cirurgias de peito aberto, em meio à maior sangueira. Tudo bem que eram bonecos, mas era tudo muito perfeito. Numa cena, tinha só um boneco para fazer o corte com o bisturi. Ia estragar tudo se falhasse. Fiz, e deu certo. Quase surtei.” Em Maresia, o desafio era o mar. “Fiz quase todo o filme dentro d’água. Foi uma energia incrível. O mar ficou comigo.”

O ator refere-se a dois de seus trabalhos recentes, poderia acrescentar outros dois. Redemoinho, de José Luiz Villamarim, terá sessão na Mostra de sexta, 28, a domingo, 30. Maresia, de Marcos Guttmann, passa no domingo. Sob Pressão, de Andrucha Waddington, e Maresia estreiam nas salas dia 17. Elis, de Hugo Prata, dia 24. Redemoinho, 22 de dezembro. Quatro filmes. Chega? Não. Júlio Andrade começa a gravar a nova temporada de 1 Contra Todos, de Breno Silveira. E Sob Pressão, que ainda nem estreou – mas passou no Festival do Rio e foi um dos filmes que lhe valeram o prêmio de melhor ator –, também vai virar série. Júlio consegue ser crítico de arte, pintor, pescador, médico/cirurgião, o que for preciso. Em Elis, vira Lennie Dale, o coreógrafo que criou para a cantora o impactante movimento de braços com que irrompeu na MPB com Arrastão, de Edu Lobo.

Muda de pele como camaleão, mas não é um ator de método como Irandhir Santos, seu extraordinário companheiro de elenco em Redemoinho. Irandhir concentra-se para entrar no personagem. Isola-se no set. Quando o diretor grita ‘Ação!’, Irandhir entra na cena tomado. Júlio Andrade acha bacana, respeita, mas seu método é outro. Nem ele sabe explicar direito. Um não método? Ele pode até estar brincando no set – zoando –, mas, quando ouve o ‘Ação!’, também está dentro. Tem muito de confiança nisso. Em Redemoinho, adaptado de Luiz Ruffato, trabalha com parceiros com quem tem aprimorado o contato na televisão. O diretor Villamarim, o codiretor e fotógrafo Walter Carvalho, o preparador Chico Accioly, de O Rebu e Justiça.

“O Zé (Villamarim) ouve muito, tem um jeito de tirar da gente o que quer sem que a gente se dê conta de que está entregando. E o Walter... Eu sinto o Walter respirando na minha nuca, com a câmera grudada no meu ombro. Quando estou no personagem, não gosto que me toquem, exceto se faz parte da cena. Quebra a energia. Já me estourei com diretor no set. ‘Não me toca, cara!’. Mas o Walter tem uma gentileza, uma maneira de colocar o dedo no ombro enquanto segura a câmera para me levar aonde quer. E ele faz isso sem invasão.”

Júlio Andrade conta tudo no quintal de casa, próximo ao Cemitério da Lapa, em São Paulo. Choveu muito, o vento derrubou árvores, caiu a força. A casa está há mais de 12 horas sem luz. Júlio está descalço, acaba de varrer o pátio. Mostra a oficina – seu avô era marceneiro e ele herdou o gosto, até algumas ferramentas. Mostra mesas, cadeiras, estantes que fez. Tudo por prazer, para relaxar. O filho – Joaquim – anda pelo quintal, brincando com o cachorro. “É uma raça que caça leões na Rodésia.” Chama-se Pessoa. Apesar do tamanho – olhem a foto –, é dócil. Encosta o carão no ombro do repórter. Dá uma lambida, como quem rouba um beijo.

“Quando filmamos o Redemoinho em Cataguases (Minas), Joaquim estava na barriga da mãe.” Agora, com um ano e oito meses, corre no pátio. O set de Redemoinho marcou-o. “O filme trata de conflitos muito fundos, de coisas escondidas. Poderia ser um clima pesado, mas estava todo mundo na paz.” E o Lennie Dale de Elis? “Não sou bailarino, tive ajuda para fazer o papel. O que precisava, consegui – uma atitude.” Tantos papéis, projetos. Júlio Andrade está em todas, o irmão (Ravel) desponta na Globo. Família abençoada para a representação. “Meu pai diz que ele é melhor que eu”, não há nenhum despeito, nenhum ressentimento na fala. Alegria. E tudo começou em Porto Alegre, com ‘Betão’ (Beto Brant). Cão sem Dono, há dez anos. Tem sido uma bela trajetória.

'Redemoinho' e 'Maresia', as múltiplas máscaras do ator

Júlio Andrade recebeu o troféu Redentor como melhor ator do Festival do Rio 2016 por dois filmes - Redemoinho, de José Luiz Villamarim, e Sob Pressão, de Andrucha Waddington. Como se não bastasse a divisão, o júri ainda foi mais longe e atribuiu o prêmio tripartite - além de Júlio, ganhou também Nelson Xavier, por Comeback, de Erico Rassi. É muito ator, muito papel para uma categoria só. Por melhor que seja Nelson Xavier - ator mítico do cinema brasileiro -, Júlio deveria ter recebido o Redentor sozinho, e por um só papel. Difícil seria escolher por qual.

De novo temos uma opção tripartite, agora na Mostra. Júlio Andrade poderá ser visto desta sexta, 28, a domingo, 30, em Redemoinho. No domingo, em Maresia. O primeiro é uma adaptação de Luiz Ruffato. Dois amigos reencontram-se. Um abandonou a cidadezinha mineira, e é justamente o personagem de Júlio. Está de volta. Reencontra o amigo, que ficou. Irandhir Santos é o ator. E é preciso escolher as palavras. Amigos? Não é exatamente de amizade que trata Redemoinho. Afloram segredos, ressentimentos. Conflitos.

José Luiz Villamarim tornou-se, nos últimos anos, um grande nome da televisão brasileira - na Globo. Dirigiu novelas como Avenida Brasil e O Rebu, minisséries como Justiça, seriados como Nada Será Como Antes, atualmente no ar. Redemoinho assinala sua estreia na direção de cinema. O título promete uma vertigem que o filme não entrega. É crítico, reflexivo. Não há nada de televisivo no estilo de Villamarim. Sua mise-en-scène - vale usar a palavra francesa que designa direção - é sofisticadíssima. Com seu grande fotógrafo, Walter Carvalho, Villamarim trabalha o plano internamente. Divide-o para mostrar duas, três ações simultâneas. Tempo e espaço potencializam a dramaturgia (George Moura assina o roteiro). E tem o trem, como elemento dramático.

É uma das estreias mais impressionantes do cinema brasileiro recente. Um senhor elenco - Júlio Andrade, Irandhir Santos, Dira Paes, Cássia Kiss Magro e, preste atenção no nome, Démick Lopes. Até grandes atores como Júlio e Irandhir arriscam-se com um cara tão talentoso. Você pode ver o filme logo, na Mostra, ou esperar pela estreia nas salas, em 22 de dezembro. Pode ver Maresia no fim de semana, ou esperar até 17 (de novembro), quando também estará nas salas. Maresia vai parecer um corpo estranho, um óvni na cinematografia nacional. No presente, Júlio Andrade faz um crítico de arte, estudioso da obra de um dublê de pescador e pintor, Júlio Andrade de novo, fazendo o artista.

Há uma discussão sobre ‘autoria’ - a identidade do artista, e como se manifesta. Lá pelas tantas há um twist, reviravolta, que talvez coloque tudo em xeque. Quem é esse cara? Maresia intriga. E as atrizes, Vera Holtz e Mariana Nunes, de A Febre do Rato e Alemão, são ótimas.

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