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Juliano Cazarré encara o desejo na próxima estreia de 'Boi Neon'

Longa do pernambucano Gabriel Mascaro chega aos cinemas

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Luiz Carlos Merten,
O Estado de S.Paulo

09 Janeiro 2016 | 16h00

Na praia, na rua, Juliano Cazarré já se acostumou à curtição dos cariocas, que tiram onda dele. “Tá fraco, irmão? Quer ajuda? Manda elas lá pra casa?” ‘Elas ‘são as duas gostosas de A Regra do Jogo, a Ninfa de Roberta Rodrigues e a Alisson de Letícia Lima, de cujo furor McMerlô, seu personagem, em crise de identidade sexual, não consegue mais dar conta. McMerlô choraminga dizendo que não é mais homem. Cazarré adora participar de um dos núcleos cômicos da novela de João Emanuel Carneiro. Acha ‘o maior barato’ levar alegria ao povo. Virar motivo de piada não o incomoda. É sinal de que está fazendo seu personagem direito.

Na vida, ele é bem casado com a bióloga Letícia Bastos, a quem o gaúcho de Pelotas conheceu quando cursava a UnB. E, se na TV, tem negado fogo, no cinema manda ver com as cenas de sexo de Boi Neon. O longa do pernambucano Gabriel Mascaro estreia na quinta-feira, 14. Será o primeiro grande filme nacional do ano. O sexo - um plano-sequência de quase dez minutos - foi vaiado em Veneza e aplaudido em cena aberta no Festival de Marrakesh. No primeiro, Boi Neon ganhou o prêmio especial da seção Horizontes. No segundo, o prêmio de direção, entregue pelo próprio presidente do júri, Francis Ford Coppola.

Desde o Lido, e depois na Première Brasil do Festival do Rio, Cazarré tem sido cobrado. Para o diretor, o filme afronta um tabu - o sexo com a grávida e o prazer que ela passa podem ser excessivos para os conservadores, mas são essenciais na dramaturgia de Boi Neon. A pergunta que não quer calar - houve intercurso? “Filmei de longe, não sei. Pergunta pra ele”, o diretor tira o corpo fora. “Por quê? Você acha que houve?”, pergunta Cazarré, na entrevista realizada na Reserva Cultural, na noite da pré-estreia em São Paulo. O repórter disse que ficou em dúvida. “Ah, então não vou responder. Tu fica com a dúvida”, responde em gauchês. Depois, esclarece.

“Sabia da cena e da sua importância. O nu, mesmo frontal, não tem problema, mas disse para o Gabriel que não queria fazer penetração. Não sou ator pornô. Não sei nem se conseguiria manter uma ereção diante da equipe. De todo jeito, não ia fazer. Não critico quem faz, mas não é minha praia.” Nos últimos tempos, o cinema brasileiro, e o pernambucano, têm encarado a questão dos gêneros, mais que da homossexualidade, em filmes como Praia do Futuro, História da Eternidade e Sangue Azul. Cada um tem seus defensores. O repórter ama os filmes de Karim Aïnouz (o primeiro) e Gabriel Mascaro. Boi Neon adentra o universo das vaquejadas. Os homens, o personagem de Cazarré, são viris, mas, curiosamente, ele possui uma sensibilidade feminina e cria as roupas para as mulheres que participam dos shows. Maeve Jinkings, que também está na novela A Regra do Jogo, faz a caminhoneira do grupo. Uma fêmea com seu lado de macho e um macho feminino?

Essa visão, a essa altura já tradicional dos papéis - Irandhyr Santos no seu número à Ney Matogrosso em História da Eternidade, de Camilo Cavalcanti -, não é o que interessa ao jovem Mascaro. O cinema brasileiro investiga muito o sertão mítico, da memória. Ele aborda, em Boi Neon, o sertão contemporâneo. “O Nordeste tem hoje um parque têxtil muito forte”, ele comenta. Nas pesquisas para as vaquejadas de Boi Neon, surpreendeu-se de ver muitos vaqueiros que empunham a máquina de costura. Levou essa dualidade para os personagens de Cazarré e Maeve. A reflexão não é mais sobre os gêneros, e sua ambiguidade/dualidade. É sobre os corpos. “Sou filha de nordestino e, na primeira conversa que tive sobre sexo com meu pai, os exemplos foram de animais”, conta Maeve. Ela encontrou essa ‘animalidade’ no filme de Mascaro. Cazarré concorda. “Da mesma maneira que filma os cavalos e os bois, ele filma os corpos dos homens. Mesmo no toque, não há ambiguidade sexual. Os bichos não conhecem a repressão sexual. Os personagens de Boi Neon, também.”

Cazarré está feliz da vida com o atual momento de sua vida, e carreira. “Me preparei para ser ator de teatro, mas vieram o cinema e a TV e eu me apaixonei”, conta. Não tem preconceito - ‘pré-conceito’. Boi Neon é um filme do circuito de arte, A Regra do Jogo um divertimento de massa. Ele se joga nos dois com o mesmo empenho e vontade de acertar. O corpo é sua ferramenta de trabalho. McMerlô é saradão e Cazarré, que sabia que ia aparecer sem camisa, preparou-se malhando. Mesmo sabendo que não é concorrente para Mineirinho nem Gabriel Medina, adora surfar. “Quem já se equilibrou numa prancha toma gosto. A sensação é muito boa”, resume. 

Na TV, tem sido incorporado ao elenco de autores como José Emanuel Carneiro. No cinema, virou favorito de cineastas autorais - Mateus Nachtergaele em A Festa da Menina Virgem, Heitor Dhalia em Serra Pelada, Gabriel Mascaro. Tem algumas ofertas na mesa, mas ainda não decidiu o que vai fazer. Ou melhor, decidiu o que quer. Felipe Barbosa, o diretor de Casa Grande, deveria estar iniciando, em janeiro, em Pelotas, seu novo filme, Ano Novo. Em Pelotas, na terra dele? “Cara, preciso estar nesse filme. Vou correr atrás, aproveitando que a produção atrasou. Se fosse agora, não ia poder, por causa da novela. Estou torcendo para que o atraso me favoreça.” E ele já tem pronto O Grande Circo Místico, de Cacá Diegues. O filme acompanha a história de um circo, ao longo de um século. “Faço Oto, o domador. Quem viu me diz que o material está bem bacana.”

 

Até Coppola se rendeu à estética que reflete o novo sertão - Luiz Carlos Merten

Gabriel Mascaro tem se refletido na (ou tem refletido sobre a) ‘antropológica no espelho’ de Muniz Sodré, que avança sobre o sertão mitificado da memória, consagrado pela obra de grandes autores na literatura e no cinema, especialmente no Cinema Novo (Glauber, Nelson Pereira, Ruy Guerra), para pensar um sertão convulsivo e atual. Manuel, de Deus e o Diabo na Terra do Sol, poderia estar hoje na vaquejada, e não seria surpresa, como constatou o diretor em suas pesquisas para elaboração do roteiro e, posterior, realização, se tivesse se agregado à indústria têxtil que prospera no Nordeste. Mascaro constatou, não sem surpresa - mas certamente sem preconceito -, que muito vaqueiro machão empunha a máquina de costura, trabalhando na confecção de roupas.

Pode até ser uma licença poética fazer com que o personagem de Juliano Cazarré, quando não derruba bois e cavalos - e até masturba um potro -, crie moda para as mulheres que participam dos shows nas vaquejadas. Seu sonho está no fabrico de moda, como diz. É ser estilista no Polo de Confecções do Agreste. O importante é que não se trata de nenhum desvio comportamental nem do já velho conceito da porção feminina do macho. Da mesma forma, o fato de Maeve Jinkings ser a caminhoneira do grupo não autoriza que se insista na porção masculina da personagem. Em outra escala, a questão dos gêneros é proposta de um jeito que o diretor simplesmente mudou o sexo da menina, que originalmente era um menino. Ele fez testes com garotos, que não o convenceram. Chegou a menina e propôs - ‘Posso tentar?’ Só isso. Levou o papel e não foi preciso mudar nada.

Não é mais o machismo, ou o preconceito, no centro da discussão. É o que o próprio Mascaro chama de reposicionamento de gêneros. O vaqueiro costura, a mulher dirige caminhão pesado. Rapazes passam roupa e alisam o cabelo, enquanto a mulher dá uma de mecânica (e sai-se muito bem na função). É todo um mundo, um sertão pós-transe que Gabriel Mascaro revela em seu novo longa, que consumiu quatro anos de pesquisa e realização, e que, nesse sentido, coexistiu em certo momento com Ventos de Agosto, que estreou em 2014. E não se trata só de curva dramática dos personagens, ou de dramaturgia. Mascaro tem olho para o insólito e a beleza. O sexo no caminhão de transporte de cana em Ventos de Agosto, a mulher com a cabeça de cavalo aqui. A fotografia de Diego Garcia é deslumbrante - só para constar, o diretor de fotografia mexicano já trabalhou com um gigante contemporâneo do cinema de autor, o tailandês Apichatpong Weerasethakul.

Não era o único estrangeiro na equipe de Mascaro. O montador é o uruguaio Fernando Epstein. Como ele explica, precisava desses olhares de fora para o novo Nordeste que queria colocar na tela. E não é só o visual. É o tempo. A cena de sexo dura quase dez minutos, num plano contínuo. Permite que o espectador entre no clima. Se houvesse corte, produziria um efeito (de choque?) que não era a intenção. Mascaro recebeu o prêmio especial da mostra Horizontes em Veneza. E, em Marrakesh, ganhou o prêmio de direção, outorgado pelo júri que tinha Naomi Kawase - e que foi entregue pelo presidente Francis Ford Coppola. Se Ventos era obra de um diretor talentoso, Boi Neon mostra agora o grande autor em que Mascaro se transformou. O filme de ‘arte’ tem potencial de público. Um raro exemplo (brasileiro) de filme médio? 

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