Julia Rezende disseca amor líquido dos jovens em 'Ponte Aérea'

Uma visita ao set da produção, que a diretora fez com base na sua leitura do sociólogo polonês Zygmunt Bauman

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

05 Junho 2014 | 02h07

Caio Blat confessa que se decepcionou com o desempenho de público de Entre Nós. Embora os 200 mil espectadores que o filme de Paulo e Pedro Morelli obteve nos cinemas sejam honrosos, ele acredita que tinha potencial para muito mais. O filme representa aquilo que os franceses chamam de film du milieu, o filme do meio, entre o blockbuster e o miúra. Caio chega a apostar que o problema está em retirar o público de casa para ver algo que não seja comédia. Quando passar na TV, ele acredita que Entre Nós encontrará seu público, como ocorreu, por exemplo, com Serra Pelada. O filme de Heitor Dhalia arrebentou como minissérie na Globo, após o desempenho abaixo da expectativa nas salas.

O ator faz essas considerações no set de Ponte Aérea, o segundo longa de Júlia Rezende. É outro filme do meio, ao qual já foi colada a etiqueta de comédia romântica. Por quem? Nem a própria Julia sabe. Seu filme é um drama, mas, por tratar de um relacionamento - e de afetos -, virou 'romântico' para a mídia. Se ajudar na bilheteria, tudo bem. Ponte Aérea era o filme com que a filha do diretor Sergio Rezende e da produtora Mariza Leão pretendia estrear no longa. Ocorreu, no meio do caminho, Meu Passado Me Condena. A comédia estrelada por Fábio Porchat, colunista do Estado, e Miá Mello catapultou a diretora ao ranking das campeãs - 3,5 milhões de espectadores. Júlia tenta evitar comparações. Ponte Aérea tem outro perfil.

Todas essa conversa foi alinhavada numa tarde particularmente quente de maio, durante a visita do repórter ao set. A cena era na escadaria que liga diferentes ruas próximas à Av. Pompeia. Como um todo, a filmagem terminou nesta quarta-feira, em São Paulo. Como grafiteiro, Caio intervinha na paisagem urbana. 'Ela', já que o filme trata do velho tema do boy meets girl, o visita em seu cenário. O carinha chama-se Bruno, é carioca e faz a linha contestador, não-estou- nem-aí. Amanda, pelo contrário, é publicitária, paulistana e bem sucedida. Letícia Colin é quem faz o papel. Loira e linda, elegante e poderosa. São diferentes em tudo. Nada os aproxima, exceto a fagulha que desencadeia o fogo, mesmo em relacionamentos improváveis.

"É outro filme bacana, com personagens bem construídos. O público tem de começar a se interessar por essas histórias", Caio pede - ou aposta? Julia Rezende consegue se lembrar exatamente do momento em que Ponte Aérea começou a nascer. No outro dia, ela folheava seu exemplar de Amor Líquido, de Zygmunt Bauman. Encontrou a anotação - março de 2010. Desde que leu o livro do sociólogo polonês, ela ficou siderada pela forma como ele analisa os relacionamentos amorosos da juventude do século 21. Amizades e namoros se fazem (e desfazem) com a mesma facilidade com que os jovens de hoje acrescentam ou deletam nomes no Facebook. O amor se liquefez. Nesse quadro, ainda se pode falar em amor verdadeiro? O romantismo é coisa do passado?

Ponte Aérea nasceu da necessidade visceral que a jovem diretora experimentou de falar sobre a sua geração. "Os jovens de hoje estão sempre buscando uma relação, e quando a encontram o movimento é contrário. Eles temem abrir mão da própria liberdade. Isso gera uma insatisfação permanente", avalia. Julia não fala apenas com base nas formulações teóricas de Bauman. Põe um pouco de experiência própria, embora neste momento esteja se sentindo plena, na relação com o talentoso ator Sílvio Guindane, do belo De Passagem, de Ricardo Dias. "Meu filme é sobre a forma como as relações se tornam passageiras. É sobre gente com medo de assumir suas responsabilidades."

Como o título sugere, o filme decola a partir do encontro da dupla de protagonistas durante um tumultuado voo da ponte área Rio/São Paulo. Amanda é carreirista. Tão logo percebe o talento de Bruno, já quer indicá-lo a um galerista, colocá-lo no 'mercado'. Ele reage - sua cabeça é outra. Você vai ter de esperar para saber se essa relação tem futuro - ou happy end. "A Julia passava férias nos sets de filmagem do Sergio (o pai). E sempre foi decidida, observadora", avalia a mãe produtora, Mariza Leão. A atriz Letícia Colin confirma. Estrela do musical Grande Circo Místico, ela tomou a diretora como um de seus modelos para construir a firmeza de Amanda. "Se preciso, ela é durona. Tem de ser, para reger um set. Mas, no fundo, é um doce."

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