Vitrine Filmes
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José Dumont lembra o começo difícil e como foi interagir com os sem-teto no set de 'Hotel Cambridge'

Ator falou ao 'Estado' sobre seu novo longa

Entrevista com

José Dumont

Luiz Carlos Merten, Impresso

18 Março 2017 | 16h00

José Dumont vem de uma participação elogiada – como sempre – numa novela importante, Velho Chico. Está nos cinemas com Era o Hotel Cambridge, que estreou na quinta, 16. Mas não se iluda com a exposição. “Estou desempregado”, ele diz. Não parece muito apreensivo. “Isso ocorre seguido.” Mas, no fundo, está, sim. Embora não tenha filhos, Zé, como é chamado, tem uma família numerosa que depende dele. Adora ajudar. A pobreza não lhe mete medo. “Sei bem o que é isso. Aos sete anos já estava sozinho no mundo, lutando para sobreviver.” Salvou-o, como conta, o fato de haver aprendido – sozinho – a ler e escrever.

A leitura abriu-lhe um mundo. Deixou o sertão da Paraíba. Veio para o Sul Maravilha. São Paulo, Rio. Descobriu o teatro, o cinema. Fez-se ator. Um dos maiores do Brasil. Não cursou escola de interpretação, mas tem vivência, intuição, sensibilidade. Encontrou diretores que lhe ofereceram grandes papéis – João Batista de Andrade (O Homem Que Virou Suco), Suzana Amaral (A Hora da Estrela). E, claro, Eliane Caffé. De Kenoma a Narradores de Javé e, agora, Hotel Cambridge, ‘Lili’ não apenas amadurece como criadora. Carrega o Zé consigo. Lhe oferece esses papéis raros, em filmes também raros. Hotel Cambridge é sobre uma ocupação urbana no centro de São Paulo. Poderia ser um documentário sobre as pessoas que lutam por moradia. Mas tem o Zé. E não só ele – Suely Franco, Carmen Silva...

A simples presença do Zé como ator no meio daquelas pessoas cria um jogo. As cenas, imantadas por ele, passam a ser encenadas. A ficção invade o documentário. Por mais que seja um filme nas ‘bordas’, Hotel Cambridge é encenado, portanto, ficcional. Zé comenta sua diretora – “Ela diz que eu a surpreendo, mas é a Lili que não para de me surpreender. Em Narradores de Javé, eu fazia um personagem tragicômico que conectava os demais. Havia muita improvisação, mas ela só deixava improvisar quando servia ao propósito dramático. Aqui, a própria realidade é que carrega o filme. O Apolo que faço é um agitador que, interagindo dentro daquele espaço (a ocupação), representa a arte, a cultura. Dessa maneira, impede que o filme vire um documentário sobre os sem-moradia. É algo mais, e é importante que as pessoas se deem conta disso.” E Zé reflete – “Já filmei com a Lili em película. O digital envolve menos custo e mais tempo de duração dos planos. E isso lhe permitiu (à diretora) descobrir os grandes personagens desse filme. O refugiado jordaniano, Hamad Issa, e a Carmen, que dirige o Movimento dos Sem-Teto Centro, dirigindo a ocupação. A Carmen diz que somos todos refugiados dos nossos direitos. Sei, porque tenho lutado a vida toda contra isso”.

PAPÉIS MARCANTES

O Homem Que Virou Suco

O poeta popular que é caçado como bandido em São Paulo (foto)

A Hora da Estrela

Olímpico, o desajeitado namorado de Macabéa

Abril Despedaçado

O pai que pede ao filho que vingue a morte do irmão

Narradores de Javé

O escrivinhador que tenta salvar cidade de ser submersa

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