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Johnny Depp brinca de Deus e instala o caos em novo filme

Luiz Carlos Merten - O Estado de S.Paulo

20 Junho 2014 | 19h 30

Ator vive cientista em 'Transcendence - A Revolução'

Havia espectadores em choque no final da primeira sessão de Transcendence - A Revolução, quinta-feira à tarde, no Shopping Bourbon. "Como esse cara entrou nessa roubada?", era a pergunta recorrente. E outra - "Entendeu o final?" Esse cara é Johnny Depp, e as pessoas se esquecem de que, fora do circuito megaespertacular da franquia Piratas do Caribe, Johnny foi sempre um ator de culto, mas de pequenos filmes. Seus bons trabalhos com Tim Burton, que também são os melhores filmes do diretor - Edward Mãos de Tesoura e Ed Wood -, atingiram um público restrito, e cinéfilo. Com o pirata Jack Sparrow, ele estourou. Ressuscitou o filão da pirataria, que os produtores consideravam maldito - Piratas, de Roman Polanski, foi um fracasso monumental -, e entrou para a linha de frente do cinemão.

Pode-se objetar que havia mais efeitos do que aventura na saga de Jack Sparrow, mas o público adorou a interpretação afetada de Johnny Depp. O problema tem sido a vida dele pós-Piratas do Caribe. Nada mais dá certo. A roubada de Transcendence é para o público. Johnny ganhou US$ 20 milhões para fazer o papel... de Deus. Vai seguir ganhando essa fortuna, que os produtores vão continuar pagando à espera de um hipotético novo estouro. E assim gira a roda da fortuna em Hollywood. Quanto ao final... Sinaliza, de forma canhestra, para um recomeço. Na devastada Terra do futuro - a falta de internet substituiu o holocausto atômico -, um lugar foi preservado.

Nos anos 1970, John Huston baseou-se em Rudyard Kipling para fazer uma das grandes aventuras do cinema - O Homem Que Queria Ser Rei. Transcendence poderia ser O Homem Que Queria Ser Deus. Johnny faz um pesquisador de inteligência artificial. Expõe sua teoria e, de cara, um sujeito pergunta - "Você está criando um novo Deus?" Sua resposta - "Não é o que os homens fazem?" O cinema tem feito grandes filmes para investigar a existência de Deus. O cinema e a literatura também criaram um gênero, a ficção científica, para discutir os perigos que ameaçam o futuro do homem. Na maioria das vezes, não são ficção científica, no sentido kubrickiano de 2001, ou das Crônicas Marcianas de Ray Bradbury, mas aventuras futuristas.

Divulgação
Poder e aventura. Morgan Freeman e Johnny Depp pós-"Piratas do Caribe"

Envenenado pelo grupo que se opõe a suas pesquisas, o cientista Johnny Depp vai morrer. Sua mulher, Evelyn, também cientista, é quem propõe - e se o cérebro ainda lúcido do marido for transferido para o potente computador que ele criou? O colaborador de ambos, Paul Bettany, é contra. Ela o expulsa como a serpente do paraíso que pretende criar. A serpente é o próprio Johnny Depp, que aparece meio filme como imagem virtual. Ele adquire cada vez mais poder. Como numa paráfrase bíblica, devolve a visão aos cegos, dá pernas para quem não anda. Forma um exército. Os inimigos veem o perigo. Evelyn, depois de duvidar - mulher de pouca fé -, reencontra o amado. O mundo que ele mudou, por e para ela, entra em colapso.

O diretor Wally Pfister foi fotógrafo de Christopher Nolan, que produz Transcendence. Ele certamente fez o filme para discutir questões graves - Deus, a tecnologia. O desenvolvimento não sustentável está destruindo o planeta. Existe volta? O homem precisa parar de brincar de Deus, é sua advertência. Naquele jardim, o cientista louco plantou a semente do recomeço. Sim ou não? Transcendence consegue ser tão instigante quanto desastrado no desenvolvimento de suas premissas (e história). Johnny Depp brinca de Deus. Pode ser divertido para o ego dele. Vale, aqui, a citação de José Saramago que abre outra estreia da semana - O Homem Duplicado. "Caos é a ordem que ainda não foi decifrada." O ruim é quando a desordem, decifrada, permanece caótica.

TRANSCENDENCE

Direção: Wally Pfister. Gênero: Ficção Científica. (EUA-R. Unido/2014, 119 min.). Classificação: 12 anos. 

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