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Jim Jarmusch revisita filmes de vampiros

Com 'Amantes Eternos', diretor faz o seu filme mais melancólico; veja trailer

Já faz algum tempo que os filmes de Jim Jarmusch não provocam o mesmo burburinho de seu começo, nos anos 1980, quando ele se converteu em ícone do cinema indie (e pós-moderno) nos EUA. Stranger than Paradise e Daunbailó estabeleceram sua fama, com narrativas desconstruídas e personagens entregues ao abandono e à desesperança. Jarmusch virou o cronista dos outsiders da 'América'. A partir de um certo momento, passou a revisitar, do seu jeito peculiar, os gêneros. Dead Man foi chamado de anti-western, Ghost Dog - O Caminho do Samurai, de anti-filme de gângsteres. Com Amantes Eternos, Jarmusch Jim . E, claro, faz um filme de vampiros que não se assemelha a nenhum outro.

Os personagens são, de novo, outsiders. Um casal de vampiros, Adão e Eva, como os seres primordiais das Criação. Ele é melômano, vive em Detroit. Ela, a primeira vampira hippie do cinema, reside em Tânger. São interpretados por Tom Hiddleston e Tilda Swinton. Num mundo que parece pós-apocalíptico, os amantes eternos vivem uma espécie de decadentismo cool, convencidos de que o passado 'era melhor'. Em seu filme anterior, também de gênero - o suspense Limites do Controle -, Jarmusch praticamente prescindiu das palavras. Aqui, carrega na verborragia, fazendo com que seus vampiros dissertem sobre a própria vacuidade existencial e a decadência da civilização. É como se Amantes Eternos integrasse a série Coffee and Cigarettes/Café e Cigarros, em que os personagens falam, sem parar. Adão e Eva são tão assépticos que chegam a se alimentar de sangue comprado no contrabando. A chegada de Mia Wasikowska vai subverter esse equilíbrio.

Jim Jarmusch em Nova York, em abril de 2014
Jim Jarmusch em Nova York, em abril de 2014

Em Cannes, Jarmusch disse que quis fugir à claustrofobia presente em quase todo filme de vampiros. E esclareceu que o recurso é válido quando a intenção é criar medo, mas esse não era seu caso. Ele quis que seus vampiros fossem abertos à cultura, às ideias a tudo que os rodeia. O conceito é mais fascinante que o resultado. Talvez Jarmusch esteja querendo falar sobre a inadequação de seu cinema num mundo em que ele, como autor, parece estar perdendo espaço. Na Croisette, chegou a brincar. "Me garantiram que esse gênero dá dinheiro, e eu preciso de algum." Seu minimalismo sempre o levou a elaborar relatos concisos, em que não acontece muita coisa (e tudo e nada meio que se equivalem). No caso de Amantes Eternos, à força de tanto querer reproduzir o desalento do casal de protagonistas, ele fez seu filme mais melancólico. Até o erotismo do gênero parece... cansado?