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Jim Jarmusch revisita filmes de vampiros

Luiz Carlos Merten - O Estado de S. Paulo

19 Agosto 2014 | 10h 23

Com 'Amantes Eternos', diretor faz o seu filme mais melancólico; veja trailer

Já faz algum tempo que os filmes de Jim Jarmusch não provocam o mesmo burburinho de seu começo, nos anos 1980, quando ele se converteu em ícone do cinema indie (e pós-moderno) nos EUA. Stranger than Paradise e Daunbailó estabeleceram sua fama, com narrativas desconstruídas e personagens entregues ao abandono e à desesperança. Jarmusch virou o cronista dos outsiders da 'América'. A partir de um certo momento, passou a revisitar, do seu jeito peculiar, os gêneros. Dead Man foi chamado de anti-western, Ghost Dog - O Caminho do Samurai, de anti-filme de gângsteres. Com Amantes Eternos, Jarmusch Jim . E, claro, faz um filme de vampiros que não se assemelha a nenhum outro.

Os personagens são, de novo, outsiders. Um casal de vampiros, Adão e Eva, como os seres primordiais das Criação. Ele é melômano, vive em Detroit. Ela, a primeira vampira hippie do cinema, reside em Tânger. São interpretados por Tom Hiddleston e Tilda Swinton. Num mundo que parece pós-apocalíptico, os amantes eternos vivem uma espécie de decadentismo cool, convencidos de que o passado 'era melhor'. Em seu filme anterior, também de gênero - o suspense Limites do Controle -, Jarmusch praticamente prescindiu das palavras. Aqui, carrega na verborragia, fazendo com que seus vampiros dissertem sobre a própria vacuidade existencial e a decadência da civilização. É como se Amantes Eternos integrasse a série Coffee and Cigarettes/Café e Cigarros, em que os personagens falam, sem parar. Adão e Eva são tão assépticos que chegam a se alimentar de sangue comprado no contrabando. A chegada de Mia Wasikowska vai subverter esse equilíbrio.

CHAD BATKA/NYT
Jim Jarmusch em Nova York, em abril de 2014

Em Cannes, Jarmusch disse que quis fugir à claustrofobia presente em quase todo filme de vampiros. E esclareceu que o recurso é válido quando a intenção é criar medo, mas esse não era seu caso. Ele quis que seus vampiros fossem abertos à cultura, às ideias a tudo que os rodeia. O conceito é mais fascinante que o resultado. Talvez Jarmusch esteja querendo falar sobre a inadequação de seu cinema num mundo em que ele, como autor, parece estar perdendo espaço. Na Croisette, chegou a brincar. "Me garantiram que esse gênero dá dinheiro, e eu preciso de algum." Seu minimalismo sempre o levou a elaborar relatos concisos, em que não acontece muita coisa (e tudo e nada meio que se equivalem). No caso de Amantes Eternos, à força de tanto querer reproduzir o desalento do casal de protagonistas, ele fez seu filme mais melancólico. Até o erotismo do gênero parece... cansado?