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Jean-Pierre Léaud está glorioso como só ele em 'A Morte de Luís XIV'

Filme está em cartaz em algumas salas de São Paulo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

04 Fevereiro 2017 | 03h00

Foi, com certeza, o momento mais emocionante da premiação no Festival de Cannes do ano passado. Embora já fosse esperada, a Palma de Ouro de honra para Jean-Pierre Léaud só foi entregue no último dia. Léaud faz parte da ‘légende cannoise’, a lenda de Cannes, desde que garoto, em 1959, acompanhou François Truffaut na apresentação de Os Incompreendidos/Les 400 Coups.

Léaud seguiu interpretando o alter ego do autor, Antoine Doinel, numa série de filmes. Só isso já faria dele um ícone do cinema, mas ele viveu sempre dividido entre Truffaut e Jean-Luc Godard (Masculino-Feminino, A Chinesa). Interpretou papéis viscerais para outros diretores. E, no ano passado, voltou à Croisette em Séance Speciale com A Morte de Luís XIV. O longa do catalão Albert Serra foi o filme mais ‘inquieto’ (experimental?) da seleção de Cannes em 2016. Mal comparando, foi como se Tiradentes, a Mostra Aurora, invadisse Cannes.

A Morte de Luís XIV segue em cartaz em algumas salas em São Paulo. O título entrega – o filme não é outra coisa senão a agonia do chamado ‘Rei Sol’ em seu leito de morte. A perna de Luís XIV está gangrenada, os médicos falam em amputá-la. Mas é o rei, o Rei com maiúscula, e a vida na corte fica em suspenso. Não só Versalhes, mas a França, embora as imagens filmadas fora da corte mostrem uma Paris de miseráveis, como se a revolução já fosse estourar em seguida, e não dali a 84 anos (o ano é 1715). Um filme sobre uma agonia? Que horror! Não exatamente.

Desde Honor de Caballeria, Albert Serra é atraído pelo mito. Lá era o Quixote. Em O Canto dos Pássaros, eram os Reis Magos. Em Os Nomes do Cristo, a particular nomenclatura para designar o Senhor, o Filho de Deus, o Príncipe da Luz etc. Em A História de Minha Morte, o encontro de Casanova com o Drácula. Em 1966, Roberto Rossellini encerrou A Tomada do Poder por Luís XIV com o rei sendo preparado para dormir. Camareiros o despem e o Rei-Sol, destituído do seu esplendor, é só um homem. Um homem que sofre, que sente dores, segundo Albert Serra. Mas na Corte permanece o cerimonial. O filme é sobre a pompa e a circunstância da morte. O rei consegue fazer cocô? Aplausos. Na verdade, é a morte de uma época que o cinema consegue recriar/documentar. E Léaud, no papel, é glorioso como deve ter sido o próprio Luís XIV.

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