Italiano Dino Risi libera seus monstros em livro de memórias

Recém-lançada na França e sem previsão de sair aqui, obra foi escrita de forma não linear pelo diretor de 'Os Monstros'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

22 Junho 2014 | 18h20

No fim da vida, Dino Risi veio gravar uma minissérie de TV em Parati. Uma noite, com diarreia, teve uma cólica violenta. Para não borrar as calças, abaixou-as, ficou de cócoras e fez ali mesmo suas necessidades. Acenderam-se luzes, portas e janelas foram abertas e uma família inteira flagrou Dino Risi na constrangedora situação. Risi foi um grande da comédia italiana (o maior?). Algum crítico há de dizer que foi Mario Monicelli; outro, Luigi Comencini. Foi Dino Risi, o rei da tragicomédia. Mas nem ele imaginou uma situação como essa na sua série dos Monstros.

Olhe aí a foto – dois policiais capturam perigoso meliante. A imprensa pinta o criminoso como monstro. Na foto, como no filme, os monstros são os policiais. Dino Risi, filho de médico, chegou a estudar medicina e pensava se especializar em psiquiatria. O cinema desviou-o da rota, ou vocação, familiar. Foi assistente de Mario Soldati e de Alberto Lattuada antes de virar diretor de curtas e longas. Os primeiros filmes inscreviam-se na tendência do chamado ‘neorrealismo róseo’, mas com o tempo Dino Risi encontrou o próprio caminho. Já que se interessava tanto por psiquiatria, talvez se pudesse dizer que sofria de distúrbio de personalidade.

Há um Dino Risi que satiriza sem dó os sociopatas e obcecados sexuais, especialmente nos esquetes de Os Monstros. E há um Dino Risi que, sem deixar de fazer humor, mas talvez mais trágico que cômico, analisa o vazio existencial e a alienação dos sentimentos em grandes filmes como Aquele Que Sabe Viver e Férias à Italiana. Esse último, de 1965, com Enrico Maria Salerno, é o filme que Michelangelo Antonioni teria feito, se fosse diretor de comédias. Dino Risi morreu em Roma, aos 91 anos, em 7 de junho de 2008. Teve tempo de publicar um admirável livro de memórias, editado na Itália pela Mondadori, em 2004, e na França pela Éditions de Fallois e L’Age de L’Homme, em 2014. 

A bibliografia brasileira de cinema anda defasada. Publicam-se alguns livros de teoria – está saindo o seminal, mas atrasadíssimo, O Que É o Cinema?, de André Bazin –, alguns de memórias – em julho virá, enfim, o aguardado livro de Cacá Diegues –, mas, no geral, tirando-se os registros da Mostra, os lançamentos ainda são limitados. Saíram, nos EUA, dois extraordinários livros sobre Otto Preminger e William Wyler, e Wyler, vale lembrar, ocupa o centro de muitas elucubrações de Bazin sobre a realidade objetiva, que o levavam a abraçar o plano-sequência wyleriano. Na França, as memórias de Dino Risi (Mes Monstres) e Alexandra Stewart (Mon Bel Age) fazem a delícia dos cinéfilos.

É pouco provável que esses livros venham a ser editados aqui, por mais que merecessem. Mas, para isso, existe a internet, que facilita a compra. O cinéfilo de carteirinha vai amar o livro de Dino Risi. A história que abre esse texto é contada en passant. Na abertura, o próprio autor faz uma dedicatória com valor de advertência: “Aos que lerem com indulgência essa vida desordenada que é a minha.” A ‘desordem’ manifesta-se por meio de um relato não linear. Para suas memórias, Dino Risi viaja nas lembranças e evoca fatos, filmes e personagens de forma não cronológica. Cria aforismos.

O texto de abertura não poderia ser mais sugestivo – Le Chien de Buchenwald (O Cão de Buchenwald). Risi evoca Venanzio Barabini, que virou chefe-eletricista de muitos filmes, inclusive dele, e teve um affair com Michele Mercier, a indomável Marquesa dos Anjos. Preso no campo nazista de Buchenwald, Barabini ligou-se ao cachorro do comandante, que recebia generosas porções de comida. Ele comia os restos do cão, e assim sobreviveu. Risi faz belas reflexões sobre o cinema, e os filmes, mas é um grande observador da natureza humana (seus filmes são prova disso). Conta como, muito jovem, foi amante de Alida Valli, que filmava com Mario Soldati (e o diretor morria de ciúme). A tórrida relação terminou com o fim da filmagem. Ela se despediu dizendo que o chamaria por telefone. Nunca o fez. Reencontraram-se velhos, quando ambos receberam, no mesmo palco, prêmios de carreira.

O grande Vittorio De Sica era casado, mas tinha uma amante fixa (e dois filhos com ela). Todo dia, levantava-se cedo e ia à casa da outra para que os filhos, antes de ir à escola, acordassem papai com seu beijo matinal. Dino Risi dirigiu os maiores atores italianos – Vittorio Gassman, Ugo Tognazzi, Nino Manfredi, Alberto Sordi e Marcello Mastroianni (claro). Ele filmou como ninguém os monstros do cotidiano, isso é, nós. É revelador que tenha chamado seu livro Meus Monstros. É uma leitura deliciosa, que ilumina o autor e toda uma era do cinema italiano.

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