Brad Torchia/The New York Times
Brad Torchia/The New York Times

Isabelle Huppert, que concorre ao Oscar por 'Elle', diz: 'Não sou uma pintora, sou uma tela'

Atriz francesa que fez mais de cem filmes em 45 anos de carreira, não se considera uma artista e sim uma intérprete

Jocelyn Noveck, Associated Press

24 Fevereiro 2017 | 16h17

Ela fez mais de cem filmes em 45 anos, sem falar nas frequentes atuações no palco. É tida não apenas como uma das melhores atrizes francesas de todos os tempos, mas como uma das maiores do mundo. Mesmo assim, Isabelle Huppert não se considera uma artista.

“Não”, disse a atriz numa entrevista, descartando rapidamente o título. “Não acho que atores sejam artistas. Usamos demais essa palavra. Sou uma intérprete - o universo de alguém é expresso por meu intermédio.”

Ok, você seria, então, um pincel?

Ela avalia um pouco a palavra, para responder: “Digamos que eu seja a tela”.

Assim, vamos chamá-la de tela - e há outra coisa pela qual agora a podemos chamar: indicada para o Oscar. Pela primeira vez em sua longa carreira, Isabelle, de 63 anos, recebeu um chamado da Academia, pelo discutido filme que tem o estupro como tema: Elle, do diretor holandês Paul Verhoeven.

Para muitos, trata-se de uma honraria há muito devida, mas mesmo assim Isabelle ficou surpresa - e certamente deliciada: todos sabem como é difícil ser indicado por um filme de língua estrangeira.

“Se a indicação é um grande acontecimento para atores americanos, imaginem o que significa para uma atriz francesa”, diz Isabelle. “É tão raro que a gente fica aturdida, mas também grata.”

A indicação de Isabelle para o Oscar marca o reconhecimento pelos críticos da atriz já chamada informalmente de “a Meryl Streep francesa”. Ela já ganhou um Globo de Ouro de atriz dramática pelo desempenho em Elle e tem sido elogiada também por outro filme, O Que Está Por Vir, da diretora francesa Mia Hansen-Love.

Isabelle não entende bem por que toda essa aclamação neste exato momento, mas não se queixa. “É um mistério, mas de repente parece que chegou sua vez”, avalia a atriz com uma gargalhada. “Pode ter sido o papel, de uma personagem muito forte, ou talvez o público tenha gostado de ver esse tipo de mulher na tela. Pode também ter sido a lembrança de todos os filmes que já fiz. Não tenho outras explicações.”

Mas o fato de isso ter ocorrido com Elle é motivo particular de satisfação para Isabelle e para o produtor, Said Ben Said, por ser um filme carregado de controvérsia. Na verdade, chegaram a pensar a fazer o filme nos Estados Unidos, com uma atriz americana, por razões de logística. Mas várias atrizes recusaram o papel, assustadas sem dúvida pela complexidade do tema. “Compreendo isso”, diz o produtor. “O risco era grande.” De fato, Ben Said encontrou resistência também na Europa quando procurava financiamento.

No fim, Isabelle foi a atriz ideal para o papel por seu talento exclusivo para representar tipos complexos, multifacetados, avalia o produtor - sem falar em sua disposição para ir fundo em seus personagens (em A Professora de Piano, de Michael Haneke, 2001, ela faz uma professora reprimida que se mutila). “De algum modo, ela consegue ser ao mesmo tempo forte e vulnerável”, diz Ben Said. “É um equilíbrio fora de série.”

Isabelle faz o papel de Michelle, uma rigorosa executiva parisiense numa empresa de videogame. Na chocante primeira cena, ela está no chão de seu apartamento sendo estuprada por um mascarado vestido de negro, enquanto seu gato observa tudo silenciosamente.

Ficamos sabendo que Michelle é filha de um assassino que massacrava todos no bairro quando ela era garotinha. Sua experiência com a extrema violência pode ou não ter influenciado o que ela faz agora como adulta: criar um relacionamento com o atacante. Será ela uma vítima ou estará preparando uma armadilha? Ou há outras coisas ocultas? A mensagem do filme parece estar no modo como é visto - é um filme feminista? Antifeminista? Pós-feminista?

Segundo Isabelle, não há na verdade mensagem, especialmente uma sobre estupro. “O estupro é algo terrível que acontece com Michelle e o filme, de jeito nenhum, procura legitimar isso”, diz a atriz.

“O filme fala de onde vem a violência, por que às vezes ela nos atrai, o que a violência desperta em Michelle. Acho que o motivo pelo qual as pessoas se identificam profundamente com ele é que, além da controvérsia, há no filme um pouco de busca quase existencial para essa mulher. Ela obviamente procura algo.”

Isabelle usufrui do fato de não precisar gostar do personagem que representa. “Para mim, não é problema. Nunca achei que o cinema tem de idealizar personagens para torná-los mais românticos ou agradáveis do que são. É preciso empatia, mas dá para sentir empatia por um personagem de que não se gosta.”

Quando terminou de gravar a cena final de Elle ,Isabelle desmoronou no chão. “É claro que houve ali um exorcismo”, disse Verhoeven à New York Times Magazine. Isabelle sorri e tenta explicar: “Quando se termina um filme, ocorre uma explosão de emoções. Em um segundo, você percebe de onde veio e aonde chegou, e diz: “Como FIZ isso? Se tivesse de fazer de novo, seria impossível”.

“Então, sim, fui ao chão, de alegria e alívio. Só para dizer ‘eu fiz!’.” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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