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Cultura

Festival de Berlim

Ingresso grátis para refugiados verem filmes em Berlim evidencia choque cultural

Além de assistir a diversos longas, também puderam conferir os bastidores do festival

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Swantje Stein e Joseph Nasr,
Reuters

14 Fevereiro 2016 | 16h27

O festival de cinema de Berlim inovou neste ano para fazer com que refugiados sintam-se bem vindos ao país, dando a eles ingressos grátis para sessões, mas a refugiada síria Marwa Anjkwa e outros que aceitaram a oferta descobriram que o pacote incluía também um pouco de choque cultural.

Anjwka, 38 anos, que trabalhava como professora em Aleppo até precisar fugir da guerra há três meses atrás, indo para a Alemanha por meio da Turquia e dos Balcãs, disse que gostou do filme "Junction 48", do diretor israelense Udi Aloni, sobre uma estrela palestina de rap.

Ela e cerca de uma dúzia de outros sírios e iraquianos que moram em um abrigo ao leste de Berlim viram o filme neste domingo, 14.

Mas Abdullah Saleh, 24 anos, uma refugiada de Damasco que acompanhava o grupo, disse que percebeu que Anjwka e outra mulher sentada a seu lado, as duas usando lenços na cabeça, pareceram desconfortáveis quando os personagens no filme proferiram xingamentos em árabe.

"Em nossa cultura não é bom dizer essas palavras na frente de mulheres", disse Saleh. Ela também notou que quando os dois personagens principais se beijavam, Anjwka "estava mexendo em seu celular".

Refugiados estão sendo levados para acompanhar os bastidores do festival, alguns junto a membros de ONGs que estão ajudando-os na adaptação à vida na Alemanha.

"Se Anjwka e os outros refugiados de seu abrigo não tivessem ido ao cinema, não teriam muito mais o que fazer, disse Mira Sophie Walter, uma voluntária. "Eles vivem em um corredor, não têm um quarto nem nada, nem privacidade. Estamos tentando dar a eles um pouco de diversão".

Mas o que alguns acham divertido pode incomodar ou até causar ira em outros. Foi o caso de alguns refugiados que assistiram uma sessão do filme tunisiano "Hedi", sobre um jovem vendedor de carros que, na véspera de seu casamento, se apaixona por uma guia turística em um resort à beira mar -- com cenas de sexo levemente picantes em seguida.

Khairallah Swaid, 25 anos, um refugiado sírio que chegou à Alemanha em julho, disse que soube antes que o filme tinha cenas explícitas.

Mas ele ficou desapontado com o modo como o filme retratou a sociedade árabe -- com a fuga de Heidi com a guia aparentemente sendo tolerada por sua família, embora não eles não a aprovassem.

"Isso não é a verdade. Não existe isso no mundo árabe. Isso reflete uma imagem negativa das tradições e costumes árabes", disse ele. "Eu vou me integrar à sociedade e ser parte de sua cultura, mas quero preservar minha cultura muçulmana".

 

 

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