Jeonwonsa Film
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'Indie 2017' prestigia o melhor do cinema contemporâneo

Filmes de 15 países serão exibidos de 13 a 20 de setembro, em São Paulo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

12 Setembro 2017 | 06h01

Havia a expectativa de que Daniela Vega fizesse história como a primeira mulher trans a vencer o prêmio de interpretação feminina num grande festival internacional de cinema. A chilena Daniela concorria na Berlinale, em fevereiro, com Uma Mulher Fantástica, e o longa de Sebastián Lelio está em cartaz nos cinemas brasileiros, para quem quiser conferir. O júri preferiu fazer uma escolha mais tradicional - em termos. Porque, ao premiar a sul-coreana Kim Minhee, de On The Beach at Night Alone, o troféu não deixou de ter sua carga de transgressão.

Em 2015, a bela Kim protagonizou Lugar Certo, História Errada, seu primeiro longa com o diretor Hong Sangsoo. Tornaram-se amantes, e na Coreia do Sul o caso provocou a maior sensação. Kim é uma estrela local, Sangsoo, por seu perfil ‘de arte’, um diretor quase desconhecido. Ele já era casado e deixou a mulher esperando enquanto excursionava pelo mundo com Kim, vivendo seu romance proibido. A ligação não durou muito, mas o diretor e a estrela permaneceram amigos e ela interpretou Na Praia à Noite Sozinha. O filme coloca na tela o que não deixa de ser a história privada dos dois. O acerto de contas entre uma atriz e seu diretor, de quem ela foi amante. O aspecto ‘biográfico’ é que pode ter seduzido o júri da Berlinale, quando premiou Kim Minhee, e não Daniela Vega. O filme chileno ganhou, de qualquer maneira, o prêmio de roteiro.

Na Praia à Noite Sozinha inaugura nesta quarta, 13, o Indie 2017. O evento comemora 17 anos com uma edição que valoriza o cinema contemporâneo, privilegia os realizadores de produções autorais e aposta em uma nova geração de cineasta independentes. Os 43 filmes dos 15 países selecionados serão exibidos de 13 a 20 de setembro, em São Paulo, e de 20 a 27 de setembro, em Belo Horizonte. A programação contempla homenagens e retrospectiva, mas a pérola é a Mostra Mundial, com 16 filmes que refletem o estado da produção independente no mundo. O longa de Hong Sangsoo participa dessa seleção, que também contempla seis autoras, desde a portuguesa Teresa Villaverde, com Colo, sobre o esfacelamento moral de uma família, provocado pela crise econômica, até a estética experimental da norte-americana Sharon Lockhart, uma queridinha da crítica de todo o mundo.

Outras duas mulheres têm conseguido ressonância para seu trabalho. A francesa Léonor Serraille ganhou a Caméra d’Or, para o melhor filme de diretor(a) estreante em Cannes, por Jovem Mulher, e a alemã Valesca Grisebach impressiona por sua abordagem do universo dos homens em Western. São todos programas imperdíveis, mas o Hong Sangsoo é especial. Além desse filme premiado em Berlim, o sul-coreano estreou mais dois filmes em Cannes, em maio - The Day After e Claire’s Camera. Só um Jean-Luc Godard, no auge da nouvelle vague, conseguia manter esse pique de três, quatro filmes por ano. Justamente a nouvelle vague (francesa). Sangsoo só não é o último autor do movimento ativo, no mundo, porque também resiste Philippe Garrel.

Sangsoo é um diretor nouvelle vague pelo método, e também pela junção entre arte e vida que se espelham em seu cinema. Uma curiosidade particularíssima. Na Praia à Noite Sozinha divide-se em três partes e, na primeira, Kim Minhee, como a atriz dentro do filme, está em Hamburgo. Ela almoça na casa de amigos de sua amiga. O casal é interpretado por Mark Peranson e sua mulher na vida. Ele é o editor de CinemaScope, revista que virou referência por seu compromisso - ‘Expanding the frame on international cinema’. Esse olhar para o cinema internacional, e formas alternativas de produção, é a essência do Festival Indie.

'Bela da Tarde' faz 50 anos com cópia nova

Como se não bastassem as obras inéditas da Mostra Mundial e a retrospectiva de Phillipe Garrel, o Indie 2017 ainda tem uma seção chamada Clássica. Vai apresentar cinco filmes restaurados em 4K. São obras que pertencem à história do cinema, mas seguem vivas no imaginários dos cinéfilos. A partir de novembro, serão relançadas nos cinemas brasileiros.

Dois desses clássicos estão completando 50 anos - A Bela da Tarde, de Luis Buñuel, e A Primeira Noite de Um Homem, de Mike Nichols. Os outros três títulos não são menos emblemáticos - Stromboli, de Roberto Rossellini; Acossado, de Jean Luc-Godard; e Mulholland Drive - Cidade dos Sonhos, de David Lynch.

Catherine Deneuve virou mito interpretando Sévérine, a burguesa insatisfeita no casamento e que se prostitui, à tarde, no bordel de Madame Anaïs. Buñuel integra num mesmo bloco narrativo as fantasias sexuais da protagonista, experiências passadas e até projeções futuras. E dessa forma ele rompe com o realismo psicológico, criando enigmas. Nunca saberemos o que o cliente japonês mostra à Bela da Tarde naquela caixa. Parece pouco, mas o mistério do filme vem por aí.

O primeiro Godard - Jean-Paul Belmondo, como Michel Poiccard, vive a vida vertiginosamente -; o universo de sonhos de David Lynch; e Ingrid Bergman, a maior estrela de Hollywood no fim dos anos 1940, vivendo sua experiência mística naquele vulcão, com o mestre do neorrealismo, Rossellini. E Benjamin Braddock/Dustin Hoffman seduzido por Mrs. Robinson/Anne Bancroft. A primeira noite de um homem não seria tão mágica sem a trilha de Simon e Garfunkel.

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