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Prêmio Academia Oscar 2016

Indicado para 4 Oscars, 'A Garota Dinamarquesa' fala de mudança de sexo

- Atualizado: 11 Fevereiro 2016 | 10h 05

Eddie Redmayne briga pelo Oscar de melhor ator

Um dia, a pintora Gerda Wegener faz um pedido ao marido, o também artista plástico Einar Wegener. Como a modelo que estava posando para Gerda havia faltado ao encontro, ela gostaria que Einar vestisse as roupas femininas para substituí-la durante a sessão de pintura. Dessa forma, ela poderia continuar o trabalho e a encomenda não atrasaria. Einar topa a parada e, desde esse pequeno fato, algo muda em suas vidas. E de maneira radical. Einar passa a se sentir fascinado pelas roupas da mulher, até desenvolver o que seria uma nova personalidade feminina, que batiza com o nome de Lili.

A história é verídica, envolve o casal de artistas plásticos dinamarqueses Gerda e Einar Wegener, tem início na Copenhague dos anos 1920. É tema do filme A Garota Dinamarquesa, de Tom Hopper, com quatro indicações para o Oscar: Eddie Redmanyne, como Einar, para melhor ator, Alicia Vikander como Gerda, para atriz coadjuvante, além de figurino e design de produção.

A Garota Dinamarquesa tem despertado interesse, pois fala de um dos primeiros casos conhecidos de cirurgia para mudança de sexo em um transgênero. Mas nem tudo é unanimidade. Se você pesquisar na internet, verá que também não está isento de polêmicas. Baseado no livro homônimo de David Ebershoff, o filme vem sendo acusado de romantizar e adocicar a história original, que teria sido muito mais dura para seus protagonistas do que a versão colocada na tela por Tom Hopper. Além disso, grupos LGBT se queixam de que uma pessoa transgênero, como Einar/Lili, tenha sido interpretada por um ator cisgênero. O neologismo designa pessoas que se reconhecem como pertencendo ao gênero que foi designado ao nascer.

Eddie Redmanyne. Antes Einar Wegener, depois se torna Lili Elbe
Eddie Redmanyne. Antes Einar Wegener, depois se torna Lili Elbe

Pode-se prever que, em nosso tempo, um filme como A Garota Dinamarquesa vá sempre desagradar alguns setores da sociedade. Seja o dos moralistas de sempre, que, em pleno século 21 não aceitam mudanças de comportamento, seja o de grupos que se sentem mal representados na obra. Não há o que fazer, mesmo porque tanto o filme como o livro no qual se baseia se apresentam como obras de ficção, gozando de relativa autonomia em relação à “verdade histórica” dos fatos narrados e dos personagens descritos. 

Deixando-se de lado essas questões e olhando-se apenas para o filme, conclui-se que ele tem méritos. É elegante e terno ao colocar a trajetória dos personagens sob uma aura romântica. Às vezes, é verdade, até meio adocicada. Refere-se a uma época em que a tolerância social em relação a questões de gênero parecia muito menor do que na nossa. De modo que, quando Einar Wegener decide fazer a sua transição completa para Lili Elbe, enfrenta muitas dificuldades e incompreensões. Esbarra também numa fase em que a medicina, nesta e em outras áreas, se encontra bem menos desenvolvida do que hoje. 

Oscar 2016: indicados a melhor ator
Divulgação
Bryan Cranston

Depois do sucesso da série 'Braking Bad', o ator até ganhou sua estrela na calçada da fama e agora está no páreo em busca da conquista da estatueta dourada. Ele é um dos concorrentes como melhor ator pelo longa 'Trumbo - Lista Negra', dirigido por Jay Roach. A seguir os outros atores que disputam o Oscar, que será entregue na noite de 28 de fevereiro. 

Neste ponto, A Garota Dinamarquesa é até mesmo convencional e previsível ao relatar o caso clássico do indivíduo contra a mentalidade da sociedade da sua época. Mas, por repetido que seja esse esquema, sempre o acompanhamos com interesse. Primeiro, porque de fato pioneiros em qualquer área sempre sofrem ao lutar contra forças obstinadas em impedir mudanças. Segundo, porque o cinema nos leva sempre a simpatizar e nos identificar com aquele que luta solitário contra uma estrutura muito mais forte e poderosa do que ele. Gostamos dos perdedores e ninguém, em são consciência, ama o vencedor de sempre, o estado conservador das coisas. Mesmo porque, com suas derrotas, os perdedores contribuem para mudar o mundo e, por isso, à luz da história, são os verdadeiros vencedores. 

Mas há outro ponto bastante interessante em A Garota Dinamarquesa - a relação de Gerda com Einar e, depois, com Lili. Nesse ponto a história toma outro peso e outra direção. Se Lili precisa lutar com incompreensões fora de casa, terá em Gerda uma figura solidária, apesar do inusitado do casamento que se transmuda para amizade e parceria. Um fato que se tende a pensar como bastante raro, ainda mais levando em conta a época em que se deu, a Europa dos anos 1920 e 1930. Mas aí talvez haja um preconceito da nossa parte, achar que a humanidade progride em linha reta e as sociedades caminham sempre para uma maior abertura. Se é verdade que a questão de gênero hoje é vista com mais naturalidade, não se pode esquecer que na Europa dos anos 1920 as ideias de Freud e de outros pensadores da sexualidade já estavam consolidadas e divulgadas. A própria medicina se havia sensibilizado para atuar de forma menos rígida, tanto assim que Lili encontra um médico disposto a ajudá-la. No século passado, talvez apenas a década de 1960 possa rivalizar com a de 1920 em termos de ideias ousadas. 

Há também o relacionamento artístico entre Gerda e Lili. Einar, antes de se tornar Lili, era um pintor de paisagens. Gerda pintava figuras humanas. Ambos lutavam para se afirmar no mercado das artes. Quando passa a pintar Lili, sua carreira decola. Encontra no ex-marido, agora transformado em Lili, sua modelo preferencial e exclusiva. As telas passam a vender, ela expõe em Paris e outras capitais, enfim percorrendo os caminhos de uma trajetória artística vitoriosa. 

Nesse ponto, o filme atinge seu maior interesse, no aproveitamento artístico de uma imagem feminina construída, como a de Lili a partir de Einar. Como se a obra, na verdade, não fosse de Gerda, que apenas a registra, mas de Lili, ao construir-se a si própria. Nesse ponto, é impossível não se lembrar de Simone de Beauvoir - “Ninguém nasce mulher - torna-se mulher.” 

Dito isso, é preciso notar que, se fala em um processo de liberação pessoal, A Garota Dinamarquesa é um filme conservador do ponto de vista estético. Quer dizer, entra, em sua linguagem cinematográfica, em contradição com seu tema. A maneira como é construído o leva a uma atenuação do conflito que está em sua gênese. E a falta de radicalidade não condiz com o temperamento corajoso de seus protagonistas. 

Não é ruim. Mas, ao contrário de Lili, que ousou e enfrentou barreiras para se reencontrar, o filme que descreve essa luta se conforma à norma e ao bom comportamento. 

Livro é inspirado em diários da personagem

Em uma nota preliminar, o escritor norte-americano David Ebershoff diz que A Garota Dinamarquesa (Fábrica 231) “é uma obra de ficção inspirada na história de Lili Elbe e sua esposa, Gerda”. Ou seja, assume ter romanceado um caso real, aquele que é considerado um dos primeiros de uma cirurgia de afirmação de gênero, como hoje se diz, em que Einar Wegener se converte em Lili Elbe. 

Ebershoff baseou-se nos diários e correspondência de Lili, editados em 1933 por Niels Hoyer após a morte da autora, sob o título de Man Into Woman. Mas Ebershoff admite que mesmo esse material de primeira mão foi retrabalhado por Hoyer até se converter numa “biografia híbrida, semificcional”. Difícil, portanto, escavar a “verdade” absoluta dos fatos, ainda mais em terreno tão movediço, íntimo e cercado de silêncios, julgamentos morais e preconceitos. Dessa forma, sentiu-se livre para, com o material disponível, fabular e ficcionalizar, fazendo de A Garota Dinamarquesa um romance apenas inspirado em vidas reais. Quer dizer, uma peça de invenção, destinada a interpretar essas vidas longínquas no tempo e torná-las contemporâneas do público atual. 

Dessa forma, Ebershoff se vale de alguns expedientes que são omitidos no filme. Por exemplo, evocar a infância dos personagens, a de Gerda, na Califórnia, a de Einar/Lili na própria Dinamarca, filho de família pobre, cujo pai era sitiante. 

Mas, de qualquer forma, o livro abre de forma direta com a cena, digamos assim, primordial, na qual Gerda pede ao marido Einar para que vista as peças femininas e pose para ela. O livro tem bom texto e linguagem envolvente.

 

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