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Iñarritu acerta ao fazer escolhas radicais na direção de 'O Regresso'

Diretor esperou anos por Leonardo DiCaprio, que estava comprometido com Martin Scorsese

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Luiz Carlos Merten,
O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2016 | 05h00

Ao contrário dos europeus, que fizeram história em Hollywood, é raro que diretores latinos consigam chegar ao primeiro plano de Hollywood. Alejandro González-Iñárritu pertence a uma geração de mexicanos galardoados pelo cinemão. Em 2014, Alfonso Cuarón, amigo e parceiro de Iñárritu, venceu o Oscar de direção por Gravidade. No ano passado, Iñárritu foi adiante e venceu filme e direção por Birdman. Este ano, concorre, de novo, nas duas categorias, com O Regresso.

Iñárritu poderá fazer história como o primeiro estrangeiro - e latino - a vencer o Oscar de direção dois anos seguidos. São raros o diretores que conseguiram isso. Lewis Milestone, em 1929 e 30, por Two Arabian Knights e Sem Novidade no Front; John Ford, em 1940 e 41, por Vinhas da Ira e Como Era Verde o Meu Vale; e Joseph L. Mankiewicz, em 1950 e 51, por Quem É o Infiel? e A Malvada. Iñárritu poderá até chegar lá, mas surgiu uma pedra em seu caminho. Nos últimos anos, o vencedor do prêmio do Sindicato dos Produtores tem invariavelmente recebido o Oscar de filme, e este ano venceu Spotlight. Teremos um prêmio divido? Melhor filme para o de Thom McCarthy, melhor diretor para Iñárritu?

As histórias cruzadas de Iñárritu em Amores Brutos, 21 Gramas e Babel valeram-lhe admiração e prêmios, mas também muitas críticas. Guillermo Arriaga e ele brigavam pela autoria, e terminaram por separar-se. O roteirista pretendia ser o autor, como a crítica Pauline Kael dizia que Herman Mankiewicz era o verdadeiro autor de Cidadão Kane, e não Orson Welles. Vai ser injustiça se Iñárritu não levar. O Regresso é melhor - muito! - que Birdman. E, embora seja uma narrativa de época - um pré-western, considerando-se que antecede a era dos pistoleiros -, é um projeto muito mais ousado do diretor. 

Iñárritu esperou anos por Leonardo DiCaprio, que estava comprometido com Martin Scorsese (em O Lobo de Wall Street) e fez escolhas radicais - filmagem cronológica, com iluminação natural, em cenários inóspitos. A brutal cena do ataque do urso já nasceu antológica. Acompanhar a trajetória desse homem deixado para morrer e que ressurge de entre os mortos, obcecado por vingança contra quem o abandonou (e matou seu filho), é uma experiência visceral. O rigor é exemplar, apesar de uma certa facilidade (mística?) no desfecho, que remete ao final de Birdman. O que pouco se fala é que, em 1971, Richard C. Sarafian fez um filme similar e ainda melhor, Fúria Selvagem, com Richard Harris. O Regresso é quase um remake. Até nisso Iñárritu poderá fazer história - um remake ganhando o Oscar?

 

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