AMANDA PEROBELLI/ESTADAO
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Heitor Dhalia vai filmar a versão de ‘Tungstênio’, premiada HQ nacional

Diretor inicia em novembro a captação para o filme, adaptado da obra de Marcello Quintanilha

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

17 Outubro 2016 | 06h00

Pense em um romance policial que podia ter sido escrito pelo americano James Ellroy, mas tem o formato de quadrinhos, leva a assinatura de um brasileiro, Marcello Quintanilha, e ainda se passa em Salvador. Trata-se de Tungstênio (Veneta), premiado na França e cuja tensão emocional deixa o leitor exaurido ao final. É esse desafio que encantou o cineasta Heitor Dhalia, que inicia em novembro a filmagem do livro. “Quintanilha foi um dos primeiros a colocar negros na HQ brasileira”, afirma o diretor, que já assinou longas como O Cheiro do Ralo e Serra Pelada.

Com produção da Paranoid, empresa da qual Dhalia é um dos sócios, em parceria com a Globo Filmes, Tungstênio vai se concentrar em quatro personagens: um policial, que atua movido por seus instintos; sua mulher, que está decidida a se separar; um pequeno traficante, cujo principal interesse é sobreviver mais um dia; e um ex-sargento do exército, saudoso de sua vida na caserna. “Quero fazer uma imersão no universo da Bahia, contando principalmente com atores locais”, conta o diretor que, apesar de se inspirar em quadrinhos – o que poderia facilitar, por exemplo, o posicionamento da câmera –, enfrenta um minucioso trabalho de adaptação. “Quintanilha tem um olho extremamente original para apresentar cada quadro e muitos deles não são de fácil transposição para o cinema”, comenta. “O próprio quadrinista ficou surpreso com minha intenção de filmar Tungstênio que, para ele, era uma obra intransponível.”

De fato, o trabalho do niteroiense que há anos vive em Barcelona se destaca por não apresentar nenhum julgamento de seus personagens – eles revelam uma surpreendente independência ao leitor, que julga acompanhar a trajetória de seres realmente livres. Tungstênio é sua obra de maior fôlego, que marcou a estreia de Quintanilha como autor de graphic novel e cuja trama apresenta histórias conectadas de alguma forma, unidas pelo suspense. Não por acaso, o título faz referência ao mais pesado elemento químico que existe na natureza.

Quintanilha trabalhou ao lado de Dhalia na primeira versão do roteiro, que recebeu a costura final das mãos experientes de Marçal Aquino e Fernando Bonassi. O longa faz parte do projeto Janela Curta, da Globo Filmes, que tem como objetivo encurtar o período em que o filme deixa de ser exibido nos cinemas para estrear na televisão. “O filme se encaixa na proposta: uma produção controlada com uma temática explosiva”, diz Dhalia que, agora, finaliza outro projeto: On Yoga: The Architecture of Peace, seu primeiro documentário, em fase final de edição.

Baseado no livro homônimo do fotógrafo Michael O’Neil, o filme acompanha a história dos dez anos em que o autor clicou os grandes mestres da ioga. “Fiquei fascinado com a possibilidade de ouvir o que esses senhores tinham a dizer sobre os grandes conflitos do mundo”, observa Dhalia, que filmou na Índia e nos EUA, locais onde conversou tanto com gurus que vivem em cavernas como com alguns que jamais tocaram em dinheiro.

Será o primeiro projeto internacional da Paranoid, que investirá também no filme seguinte de Dhalia, O Diretor, a ser rodado no segundo semestre de 2017. Aqui, a narrativa se aproxima do cinema europeu, com um tema adulto, perverso. É a história do envolvimento de um renomado e polêmico diretor teatral com uma jovem e bonita atriz, durante a montagem de Hamlet, de Shakespeare. O envolvimento provocará uma discussão sobre abuso, assédio e difamação. “Trata-se de delinear o limite entre o desejo e a ética na relação artística”, conta o diretor, que trabalha há um bom tempo no roteiro. “O assunto tornou-se ainda mais atual, com as mulheres discutindo qual deve ser seu papel na sociedade.”

ENTREVISTA - Marcello Quintanilha, quadrinista

“Salvador fez com que me reencontrasse”

Por que Salvador é tão provocadora e instigante para você?

Salvador sempre esteve no meu imaginário, seja pela música, literatura, etc. Também pelo fato de ter sido a primeira capital do Brasil, por ser uma cidade onde ainda é possível encontrar ecos dos fatores que, amalgamados, nos formaram como povo. Ter visitado a cidade pela primeira vez foi como me encontrar comigo mesmo.

Você já disse que seus personagens são desdobramentos daquilo que você é como pessoa. 

O Brasil retratado em minhas histórias é o Brasil que está comigo, e também é parte inevitável do que sou como pessoa. 

Seus personagens se repetem, em contextos diferentes. 

Me interessa levar essa representação a aspectos físicos da construção dos personagens, como no caso de Acirzinho (de Fealdade de Fabiano Gorila) e Ary Rezende (Dorso).

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