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Geraldine Chaplin é homenageada no País e fala de Carlitos e Saura

Luiz Carlos Merten - O Estado de S. Paulo

28 Agosto 2014 | 20h 00

Atriz vai participar do Brasilia International Film Festival

BRASÍLIA - Ela agradece aos céus. "Tive sempre muita sorte", diz Geraldine Chaplin. No começo dos anos 1960, sem saber direito o que queria da vida, resolveu ser atriz. "O sobrenome ajudou bastante", admite. "Logo tinha um agente e, no segundo filme, já estava na Espanha, participando de uma superprodução." Geraldine fala de Doutor Jivago, que David Lean adaptou do romance de Boris Pasternak. Mesmo não sendo o melhor Lean, tem a marca do grande diretor. “Ele era meticuloso, um perfeccionista. Me ensinou muito", conta. Quando o repórter cita Lawrence da Arábia, ela atira a cabeça para trás e revira os olhos. "Magnífico!"

Geraldine Chaplin está em Brasília - até domingo. Veio para ser homenageada no 3.º BIFF, Brasilia International Film Festival, que acontece até dia 6 com mostra competitiva e as homenagens a Geraldine e a seu pai, o grande Charles Chaplin. Comemora-se este ano o centenário de Carlitos e o BIFF exibe alguns de seus clássicos. Também exibe seis filmes interpretados por Geraldine, incluindo Doutor Jivago, que a trouxe pela primeira vez ao País. “Em 1965!”, ela exclama. Geraldine lembra um pouco Rita Lee. Aos 70 anos, pinta o cabelo e usa um figurino de jovem. Poderia ser chamada de sem noção, mas é tão encantadora que o repórter fica siderado durante a entrevista, que dura bem mais que os 10 minutos inicialmente combinados.

Andre Dusek/Estadão
Idade. "Às vezes, sinto que tenho 93 anos. Dói tudo"

Antes de falar de você, vamos falar de seu pai. É o centenário de Carlitos. Qual o seu filme preferido? Revi outro dia Em Busca do Ouro e acho que é o meu. Concorda?

É maravilhoso, mas sou suspeita, porque gosto de todos os filmes dele. O melhor? Talvez seja O Garoto. Mas o mais perfeito é Luzes da Cidade. Ele trabalhou muito naquele filme. Não falo de cenas isoladas. O final é extraordinário, mas todo o filme estava muito adiante de sua época.

É curioso que você diga isso porque também revi A Condessa de Hong-Kong. Os críticos caíram matando na época, mas o filme é muito bom. Possui um charme particular. O que você acha?

Já havia feito um pequeno papel, como uma das crianças em Luzes da Ribalta. Fiz uma figuração na Condessa, e aí já era adulta. Lembro-me bem. Danço com Marlon Brando e lhe pergunto sobre a imortalidade. Tenho certeza de que A Condessa é bom. Ele sempre esteve adiantado. Propunha coisas que as pessoas não entendiam imediatamente. Preciso rever A Condessa.

Já falamos do artista, que conheço, mas sobre o pai só você pode falar. Chaplin, o homem. Como era?

Muito disciplinador. Exigia muito dos filhos. Éramos uma família imensa. Havia sempre um problema na casa, alguém brigando. Minha mãe (Oona O’Neill Chaplin) era uma mulher inteligentíssima. Tinha uma doçura única. Dedicou sua vida a meu pai. E, naturalmente, aos filhos.

Sempre ouvi dizer que era durona. É verdade?

Com ele. Minha mãe era disciplinadora com meu pai e ele era conosco. Fecho os olhos e sinto sua doçura.

Os filmes da sua retrospectiva no BIFF não incluem nenhum de Carlos Saura e, no entanto, são os melhores que você fez. A escolha foi sua?

Não. Com certeza teria escolhido Cria Cuervos. Saura me estimulava a escrever os filmes com ele, mas isso não ocorreu com Cria Cuervos porque eu havia acabado de ter meu primeiro filho, que hoje é médico nos EUA. Dividia-me entre o set e a casa, o bebê. Não creio que Ana e os Lobos, por exemplo, seja tão bom. Não o tenho revisto, mas acho que pode ter envelhecido. Com Saura, descobri mais que o cinema, o amor. Descobri a política. Fazíamos resistência à ditadura, ao franquismo, e sob os olhos de (Francisco) Franco. Era diferente fazer oposição de Paris, como fazia (Fernando) Arrabal. A nossa resistência era mais forte, achávamos. Naquela época, e sob o impulso da política, conheci Glauber Rocha. Que homem! Era um gênio, um turbilhão. Antônio das Mortes (O Dragão da Maldade contra no Santo Guerreiro) não era só um filme. Era uma experiência estética, e de vida. Excepcional.

Você diz que David Lean era perfeccionista. E Saura?

Saura também era muito meticuloso. Trabalhava com storyboard, mas, como todo grande artista, conseguia se libertar do planejamento e ousar. Tem pessoas que planejam por segurança, e depois se sentem livres para improvisar. Saura era assim.

E Robert Altman?

Fiz diversos filmes com ele - Nashville, Búfalo Bill e os Índios, Cerimônia de Casamento. Na primeira vez, tomei um susto. Ele disse: "Você tem o roteiro, agora jogue-o fora". Altman incentivava a gente a reescrever os diálogos, e se você, por qualquer motivo, se sentisse incapaz, ele chamava o roteirista e pedia que a gente escrevesse junto. E ele era divertido. Reunia a equipe e dizia: "A única coisa importante é saber onde você tem de estar". Estando no set, na hora de filmar, dava-se um jeito no resto.

Você falou de seu filho médico. Mas você tem também uma filha atriz, não?

E que atriz! Oona (Chaplin) vai muito bem na carreira. Uma estrela que sobe (e ela faz um gesto com a mão, para acompanhar a subida da filha). Você conhece a série Game of Thrones. Claro, todo mundo conhece. Ela fazia Thalisa. A personagem já morreu, mas Oona disparou. Todo mundo a quer, atualmente.

E você?

Não me queixo. Quando comecei, tinha o sonho de fazer todo ano um blockbuster, um filme independente e outro de diretor estreante. E queria atuar em inglês, em francês, em espanhol. Na verdade, tenho feito muito isso, ao longo de toda a minha carreira. Sou uma andarilha. Tenho minha casa oficial na Suíça, mas vivo em Madri, em todo lugar onde exista um papel para mim.

Envelhecer tem sido tranquilo?

Nãããoooo. É horrível. Ninguém merecia ter de passar por isso. Tem dias que preciso me dizer: “Mas você tem somente 70 anos”. Às vezes, parece que tenho 93. Dói aqui, dói ali. O envelhecimento é cruel, mas qual é a alternativa? A morte? Prefiro seguir vivendo, até quando der.

De Brasília, você vai para onde?

Toronto, onde, na terça-feira, estarei mostrando no festival um filme do qual me orgulho muito. É um filme que fiz na República Dominicana, Dólares de Arena, com direção de Laura Guzmán e Israel Cardenas. Vi o primeiro corte e gostei demais. Pode anotar, porque é muito provável que volte para mostrar o filme em festivais no Rio e em São Paulo (a Mostra). Quero dar todo meu apoio a um trabalho que me encanta.

E Almodóvar? Você fez Fale com Ela. Vão ficar só nisso?

Pedro é um amigo. Estamos em contato o tempo todo, trocando mensagens. Ele sempre me promete outro papel. Estou esperando.